A relação EUA/China, segundo Francesco Sisci

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22 Junho 2020

"EUA e a China estarão melhor preparados se realizarem reformas, e essas reformas podem evitar o crescimento atual de uma Guerra Fria. Eles farão? A esperança é que o livro de Goldman nos ajude a enxergar esta necessidade", escreve Francesco Sisci, sinólogo italiano e professor da Universidade Renmin, em Pequim, na China, em artigo publicado por Settimana News, 20-06-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Em uma época na qual análises adversas à China estão na moda, o livro de David Goldman, intitulado You will be assimilated [Você será assimilado], é uma visão ótima e matizada daquilo que a China tem acertado e de como o seu sistema funciona. O seu texto pode ser uma importante contribuição para se modelar uma abordagem americana mais abrangente quanto à China, já que conta, com eloquência, aos cidadãos americanos algumas das armadilhas do pensamento chinês. Nesse pensamento, algum dos grandes conhecedores da língua, cultura e povo da China, como eu próprio – os quais viveram no país durante longos períodos e possivelmente “tornaram-se nativos” –, podem errar. Podemos acreditar que muitas das questões são, obviamente, autoexplicativas.

Goldman o diz com rara beleza:

“Os Estados Unidos é aquela grande ideia que transformou a América na única superpotência após a queda da União Soviética. Sua ideia é o impulsionamento de P&D [pesquisa e desenvolvimento] através de uma busca agressiva de sistemas superiores de armas, permitindo que os seus subprodutos gotejem até a economia civil. A China é como um foguete em dois estágios. A economia, de mão de obra barata e impulsionada pelas exportações, que transformou a China de um país rural empobrecido em um gigante organizado e próspero após as reformas de Deng Xiaoping, de 1979, foi apenas o impulsionador. (…) A resposta dos EUA às ambições mundiais chinesas é um fracasso. Há dois grandes motivos para esse fracasso. Em primeiro lugar, nós cronicamente subestimamos as capacidades e ambições chinesas. Em segundo lugar, precisamos resolver os nossos próprios problemas. A China antevê um império virtual no qual uma tecnologia revolucionária domina a produção, a compra, as finanças e o transporte. Ela põe recursos massivos em pesquisa básica, formação científica e infraestrutura. O compromisso dos EUA com a pesquisa básica e com a formação científica reduziu-se à metade de seu tamanho durante do governo Reagan. Somente 5% dos nossos estudantes universitários estudam engenharia, em comparação a um terço na China.”

Um zangão não deveria voar, mas voa

Em seguida, o autor argumenta, com razão, que há vários falsos mitos quando se olha para a China. Basicamente, os EUA interpretam equivocadamente a China quando veem este país através de suas próprias lentes, marcadas com o seu próprio sistema. Goldman diz ser como um zangão, que não deveria voar mas que, na verdade, voa. Quiçá podemos usar uma outra analogia entomológica, extraída de um antigo ensaio escrito por J. B. S. Haldane, intitulado On Being the Right Size. [1] As pessoas se perguntavam: Por que as aranhas podem subir nas paredes sem esforço algum, quando nós não podemos? Simplesmente porque a gravidade se aplica a nós de acordo com o nosso formato e tamanho, respondia ele.

Da mesma forma, a China desafia a nossa visão, e nas duas áreas mais fundamentais – a inovação e a sustentabilidade da dívida –, o país vai muito bem, sustenta Goldman em um ponto fundamental do livro.

Sim, a China vai muito bem. Mas por quê?

A sensação é que a China desafia a “gravidade” ocidental na inovação e na dúvida ao modelar o seu ambiente interno e externo.

Quanto à inovação, por exemplo. Em 2004, o general Liu Yazhou [2] se perguntou como a China poderia inovar, já que a inovação precisa de liberdade para crescer. Na verdade, nos anos seguintes, a China conseguiu inovar criando uma atmosfera especial de “liberdade diferente” para os seus cientistas com três elementos basicamente.

1.- Não existe liberdade política, mas “liberdade de vida”. Na China, não há o politicamente correto, e os inovadores desfrutam de uma vida de privilégios muito mais fácil do que os EUA.

2.- Ainda hoje há uma porta giratória entre os EUA e a Europa, onde os inovadores chineses também fazem parte de uma comunidade internacional, com eles tendo se entrosado com o Ocidente.

3.- A China construiu um sistema interno feito de patriotismo, privilégios a inovadores locais (que se ficariam riquíssimos) e uma narrativa do “sucesso da China”, que fizeram “o retorno para casa”, por parte dos inovadores do país, algo bastante atrativo.

Quanto à enorme dívida chinesa “insustentável”. As maiores dívidas chinesas sustentam-se numa mistura que envolve manter a sua moeda não plenamente conversível, manter o seu mercado interno semifechado a concorrentes estrangeiros, altas reservas, altas economias, um alto spread entre empréstimo e juros de empréstimos bancários, e um alto índice de crescimento do PIB que acabaria reduzindo a dívida como uma pequena porcentagem do próprio produto interno bruto. Ou seja, há margens enormes para amortecer as dívidas.

Voa, mas pode também cair

Entretanto, em ambas as frentes há falhas. Se os EUA e os países ocidentais se fecham aos cientistas chineses e passar a existir uma repressão mais dura contra dissidentes políticos, os controles sociais podem sobrecarregar os inovadores chineses, os quais, mantidos do lado interno, descobrem que o ar se torna mais mofado. E mais: a narrativa do “sucesso da China” torna-se menos atrativa caso os chineses sejam confinados no país.

A sustentabilidade da dívida tem desvantagens semelhantes. Se o crescimento desacelera, se as reservas diminuem, se as taxas de poupança caem e se o índice da relação dívida/PIB aumenta, aquela margem acima aludida diminui.

Estas coisas não prejudicarão a China do dia para a noite, mas, se durarem anos, poderão dificultar a vida do país. Algo assim já acontece e pode ficar ainda pior. De novo, Pequim não ficará ocioso diante da situação. A China já mostrou a sua engenhosidade noutras vezes e poderá mostrar novamente.

No entanto, a realidade para o país é que as suas medidas são “estratagemas” (ji 计) para superar obstáculos objetivos: um ambiente político e cultural não livre e uma economia grandemente planejada. Isto é, se quiser continuar em frente, a China precisará encontrar uma maneira de ter uma política e uma economia livres, sem arruinar o que possui hoje. Algo do tipo pode ser feito? Talvez, sim. Mas essa é uma outra história.

No caso dos EUA, a análise é mais direta: há muito o que aprender com a China, tal como uma melhor infraestrutura física e não física (escolas, formação no estrangeiro) e melhores conexões com o restante do mundo.

A narrativa chinesa não tem a ver com a relação EUA e China; tem a ver com a tentativa histórica e constante chinesa de assimilar o mundo. Essa tentativa não pode dar certo porque não é possível reverter os 500 anos de ocidentalização progressiva em 50 anos aproximadamente.

Mas se os EUA não tiverem uma estratégia abrangente para lidar com a China, não um a um, mas como líder de uma coalizão, o Japão, o Vietnã e a Índia, mesmo sem a Austrália e os EUA, não vão ceder, mas entrarão em choque violento com os chineses. A China não pode lidar com o mundo ocidentalizado como o fez com a sua periferia durante três milênios. Os EUA não podem lidar com um mundo em que a China, a Índia, a Indonésia e a África emergem, tal como o país fez com a URSS ou com a Alemanha e o Japão durante a Segunda Guerra Mundial.

Ou seja, os EUA e a China estarão melhor preparados se realizarem reformas, e essas reformas podem evitar o crescimento atual de uma Guerra Fria. Eles farão? A esperança é que o livro de Goldman nos ajude a enxergar esta necessidade.

Notas de referência

[1] O texto, publicado em 1926, está disponível aqui, em inglês. On Being the Right Size, by J. B. S. Haldane.

[2] Em 31-05-2004, Liu Yazhou concedeu uma entrevista a um meio de comunicação chinês na qual fala do desenvolvimento do exército chinês durante Guerra do Iraque.

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