Que fazer diante do agravamento da pandemia?

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17 Junho 2020

"Que aprendamos com o governo argentino e com seu povo antes que tenhamos que chorar a morte de 1,5 milhão de pessoas no nosso querido Brasil. E quem sobreviver a esta noite escura de pandemias sanitária, política, econômica, ambiental, racista, homofóbica... que se prepare para não voltar à “normalidade de antes” que foi exatamente a que nos impôs a dura realidade que hoje vivemos", escreve Gilvander Moreira, frei e padre da Ordem dos Carmelitas.

Eis o artigo.

“Que fazer?” Pergunta imprescindível em momentos de sufoco, de apuros; pergunta que as multidões, publicanos e soldados fizeram ao profeta João Batista enquanto ele participava de um grande movimento popular e religioso de luta pela superação das desigualdades sociais, econômicas e políticas. “Que fazer?” Título de livro de Wladimir Lenin, de 1902. Que fazer em nível pessoal, familiar, comunitário, social e político diante da escalada em progressão geométrica da pandemia do novo coronavírus, que no mundo já ceifou a vida de mais de 432 mil pessoas; no Brasil, mais de 44 mil mortos? A primeira coisa é buscar as melhores informações e análises que estejam em sintonia com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). Autoridades sanitárias e epidemiologistas idôneos nos informam que o Brasil está tendo o mais ineficaz e ineficiente combate à pandemia. Até mesmo o antipresidente dos Estados Unidos, Trump, já disse que se os Estados Unidos estivessem seguindo a forma irresponsável, criminosa e genocida que o desgoverno federal brasileiro tem adotado, já teriam lá mais de 2 milhões de mortos. Nas entrelinhas, observando a diferença de população, Trump alertou que no Brasil o número de mortos poderá ultrapassar 1 milhão. Pesquisas mostram que aqui a letalidade está sendo uma das maiores do mundo: de 5,3 a 10% de quem contrai o coronavírus está morrendo. Isso mostra que o número de mortos no Brasil poderá, lamentavelmente, chegar a 1,5 milhão de mortos, conforme já alertado por pesquisas científicas. Criminosa também é a política de grande subnotificação e a baixíssima política de testagem via métodos sérios. Pesquisas indicam que o número de mortos e de contaminados pode ser 5 ou 6 vezes maiores. “Multiplique por 5 ou 6 os números oficiais”, alertam epidemiologistas.

Já está demonstrado em muitos países que manter o distanciamento físico e o isolamento social são posturas necessárias e vitais, porque sem vacina ou medicação que salve as pessoas contaminadas pelo coronavírus, o “remédio” para evitar contrair a COVID-19 é interrompermos o contágio comunitário. Não podemos aceitar a mentira posta pelos grandes empresários e pelo antipresidente: salvar vidas ou salvar a economia. Esta é uma falsa polarização. A melhor economia é aquela que salva vidas e essa deve ser a prioridade política absoluta.

Atenção quem, movido por crenças religiosas intimistas, mágicas e dualistas, diz assim: “Deus está no comando”, “Jesus me protege” e similares! Quem acredita que “só Deus” e “só Jesus” nos livrará da COVID-19 e, por esse tipo de fé, não leva a sério as medidas de precaução, morrerá por ignorância religiosa e disseminará o vírus e levará à morte de muita gente, sem perceber que o modelo econômico que violenta a vida da classe trabalhadora é idolátrico e satânico. Enfim, o (neo)pentecostalismo com suas mediocridades religiosas poderá aumentar em muito o número de mortes durante a pandemia.

Pessoalmente, na família e nas relações comunitárias e sociais, que fazer? [1] Manter a quarentena com distanciamento físico de pelo menos 2 metros entre as pessoas; não cumprimentar ninguém pegando na mão (não abraçar e nem beijar); lavar as mãos com frequência e corretamente, com água e sabão, cuja eficiência é maior, e, na impossibilidade de lavar com água e sabão várias vezes ao dia, usar álcool em gel; na impossibilidade destas últimas medidas, pelo menos higienizar as mãos com álcool comum; evitar levar as mãos ao rosto; manter-se hidratado e alimentar-se bem para elevar a imunidade e a resistência corporal; ficar em casa, só sair de casa em caso de extrema necessidade; ao chegar de viagem de qualquer lugar, ficar isolado em casa durante sete dias; ao chegar de viagem de lugar epidêmico, ficar isolado em casa durante 14 dias; cuidado especial com as pessoas idosas que devem ficar em casa para não se exporem à contaminação pelo coronavírus. Nada de visitas dos netos que estão sem aulas ou de familiares. Idosos devem evitar cuidar de crianças. Nesse tempo, a comunicação com os idosos deve ser feita por telefone, celular ou de forma virtual. Os idosos devem manter a casa arejada; pessoas com câncer, HIV, diabete, tuberculose, doenças cardíacas e outras doenças devem se proteger ainda mais; não participar de reuniões, nem de encontros, nem de seminários, de nenhuma aglomeração de pessoas; manter a suspensão da celebração de missas e cultos, o que é correto e necessário.

Além das cautelas de evitar o contágio a partir do externo a nós, precisamos fortalecer nossas forças e energias internas. É hora de ouvirmos profissionais da nutrição, da medicina naturista e místicos, que dizem: alimentar-se bem evitando produtos transgênicos, envenenados por agrotóxicos ou enlatados; alimentar-se com alimentos saudáveis vindos da agricultura familiar com agroecologia; orar pelo menos 30 minutos por dia; meditar todos os dias, ler ou ouvir poesias e músicas inspiradoras; fazer exercícios físicos e trabalhos manuais; evitar o sedentarismo; exercer cotidianamente a solidariedade. Isso e muito mais para elevar a própria imunidade, reforçando nossas forças e energias vitais.

Politicamente, todo o povo precisa lutar de mil formas para que o Estado, nos seus vários níveis e passando pelos três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), governe implementando políticas públicas que garantam o bem estar de toda a população. As Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo e os Movimentos Sociais Populares [2] já apresentaram aos governos centenas de propostas justas e sensatas para enfrentarmos a noite escura da pandemia do novo coronavírus, aí se incluindo a medida imprescindível: Fora, Bolsonaro e todo o desgoverno federal, que tem sido genocida e fomentador da escalada de mortes no meio do povo. A estarrecedora reunião ministerial de 22 de abril de 2020 demonstrou a podridão do desgoverno federal. Não bastam migalhas, como 600 reais de auxílio emergencial. É preciso renda mínima justa para todas as pessoas e famílias. É preciso revogar a Emenda Constitucional 95 (PEC 95) que congelou por 20 anos os investimentos em saúde e educação. Não podemos mais tolerar a não realização de Auditória Cidadã da Dívida pública – prescrita pela Constituição de 1988. É fundamental que o Governo pare de pagar 1 trilhão de reais por ano (quase 50% do orçamento) para banqueiros em juros e amortização dessa famigerada dívida pública. Quantos hospitais poderiam ser construídos com esse dinheiro? Quantos profissionais de saúde poderiam ser contratados? Como seria a expansão do coronavírus se esses recursos fossem investidos em prevenção? Continuar a sangria de recursos públicos para os banqueiros significa continuar matando de muitas formas o povo por meio de uma política genocida.

A Argentina está dando de 10 a 0 no Brasil no enfrentamento à pandemia. Vivendo há mais de três meses na Argentina, Julieta Amaral nos informa: “Na Argentina, desde o início da pandemia do novo coronavírus, houve um esforço conjunto, independente de posições políticas, para enfrentar a pandemia. A defesa da vida em primeiro lugar foi o caminho escolhido, mesmo com a preocupação com a economia que aqui é mais precária que a do Brasil, sobretudo por causa da monumental dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI) contraída pelo desgoverno Macri. Antes da chegada da pandemia, o povo argentino estava divido politicamente, mas se uniu para salvar as vidas e a economia. O presidente Alberto Fernández, em coletiva de imprensa, sempre informa a situação, comunica decisões e anima o povo a continuar a luta contra o coronavírus a partir do esforço de todos. Na televisão, o presidente aparece sempre acompanhado de diferentes lideranças, do governo e da oposição, na busca de melhores caminhos de salvação da vida do povo argentino, especialmente dos mais vulneráveis. Em sua maioria, as posições, são consensuais e contam sempre com o assessoramento técnico nas várias áreas: saúde, educação, economia, desenvolvimento social etc. O Presidente é excelente mediador, equilibrado, sensato, humano e preocupado também com o futuro econômico do país.

Os seguintes itens foram consensuados e estão sendo implementados na Argentina: 1) Quarentena obrigatória, vigiada e com punição educativa dos irresponsáveis que não a cumprem (O isolamento imposto tem sido extenso e rigoroso; há mais ou menos um mês que começaram os protocolos provinciais e locais para afrouxamento do isolamento ‘social’, particularmente onde há poucos ou nenhum caso de contágio. Na região de Buenos Aires e de algumas outras províncias/estados, continuam as regras rígidas do início; 2) Cuidado especial com as pessoas idosas; 3) Manutenção dos serviços essenciais com todos os cuidados necessários para evitar contágio (a população se envolve para denunciar abusos e supervisionar as entradas das cidades); 4) O governo proibiu demissões, liberou um salário mínimo para as famílias comprovadamente em situação precária, facilitou empréstimos para empresas pagarem salários e não demitirem os trabalhadores, possibilitou atraso nas contas de serviços básicos como água, energia e gás para famílias de baixa renda, proibiu aumento dos alugueis e supervisiona os preços nos supermercados e comércio em geral.

Até o dia 15 de junho de 2020, na Argentina foram contabilizadas 842 vítimas fatais pela COVID-19 e 31.577 casos positivos em todo o país, sendo que 88% estão na capital e região metropolitana. O resultado tem sido a relativa tranquilidade da população, a manutenção da curva de contágio pelo coronavírus sem ascensão brusca, o não colapso do sistema de saúde e o reconhecimento da posição sábia do governo, apesar dos conflitos que não deixam de existir e da preocupação com empregos e com a retomada das atividades econômicas em geral.”

Que aprendamos com o governo argentino e com seu povo antes que tenhamos que chorar a morte de 1,5 milhão de pessoas no nosso querido Brasil. E quem sobreviver a esta noite escura de pandemias sanitária, política, econômica, ambiental, racista, homofóbica... que se prepare para não voltar à “normalidade de antes” que foi exatamente a que nos impôs a dura realidade que hoje vivemos. A humanidade só terá futuro se conseguir se libertar de todas as seduções do sistema de morte que é o capitalismo e aprender a viver de forma simples e austera em harmonia com todos os seres vivos e com a natureza, como vivem os nossos parentes indígenas, quilombolas e o campesinato. [3]

Notas:

[1] Confira também texto de frei Gilvander aqui.

[2] Disponível aqui.

[3] Gratidão à Carmem Imaculada de Brito, doutora em Sociologia Política pela UENF, que fez a revisão deste texto.

Obs.: Os vídeos nos links, abaixo, ilustram o assunto tratado acima.

1 - 1º de Maio e as Pandemias do Coronavírus e Política: Luta pela Vida, por frei Gilvander - 30/4/2020.

2 - Frei Gilvander: "O que a quarentena nos ensina?" - Na luta por direitos - 2a Parte - 24/4/2020.

3 - Frei Gilvander: Sem Quarentena, quem vai morrer? - 1ª Parte/Na luta por direitos - 23/4/2020.

4 - Homem invade ato pacífico no RJ por mortes pela Covid-19 e derruba cruzes/Fantástico/Globo/14/6/2020.

5 - Argentina dá de 10 a 0 no Brasil no enfrentamento à pandemia: Julieta Amaral e Frei Gilvander.

6 - Em 2 meses, Carmem fez e doou 1.320 máscaras para evitar o novo coronavírus. Mãos à obra pela vida.

7 - OMS atualiza orientações sobre o uso de máscaras - Jornal Nacional - 05/6/2020.

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