Movimento “Q”: os linhas-duras políticos e religiosos no coração do governo Trump

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12 Junho 2020

Mais uma prova do gosto dos estadunidenses pelos cultos e pelas conspirações: os seguidores do enigmático movimentoQ” incluem conselheiros próximos do presidente Trump – e alguns membros das alas conservadoras da Igreja Católica.

O comentário é de James Roberts, editor assistente da revista The Tablet e coautor do livro “Trump and the Puritans” [Trump e os puritanos], que será lançado nos EUA nesta semana, em artigo publicado por The Tablet, 11-06-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Em agosto de 2018, durante a visita do Papa Francisco à Irlanda, o arcebispo Carlo Maria Viganò, ex-núncio vaticano em Washington, publicou um “testemunho” de 11 páginas, defendendo que Francisco e vários cardeais e arcebispos estadunidenses teriam se unido ao longo dos anos para acobertar abusos sexuais clericais e, em particular, fracassaram em enfrentar os crimes e os maus-feitos de Theodore McCarrick, que havia sido nomeado arcebispo de Washington em 2001, apesar de várias advertências sobre o seu comportamento.

O arcebispo Viganò culpou (e citou) várias lideranças da Igreja que haviam protegido uma “corrente homossexual” generalizada no Vaticano e disse que Francisco deveria renunciar. Um longo relatório vaticano sobre como McCarrick ascendeu tão alto na Igreja está aparentemente pronto para ser publicado.

Em meio aos confinamentos globais pela Covid-19 e aos protestos do “Black Lives Matter” e aos tumultos associados a eles nos Estados Unidos, precipitados pelo horrível assassinato, por parte de um policial, do afro-americano George Floyd em Minneapolis, no dia 25 de maio, Viganò irrompeu e percorreu seu caminho de volta para as manchetes. Primeiro, ele publicou um duro ataque pessoal contra o atual arcebispo de Washington, o afro-americano Wilton Gregory, que havia denunciado a visita de Donald Trump ao Santuário de São João Paulo II em Washington, como uma tentativa de manipular o simbolismo de um espaço sagrado para um objetivo partidário.

Viganò revidou, atacando o arcebispo Gregory e outros líderes religiosos dos EUA alinhados com ele como “subservientes ao Estado profundo, ao globalismo, ao pensamento alinhado, à Nova Ordem Mundial que eles invocam cada vez mais frequentemente em nome de uma irmandade universal que não tem nada de cristã, mas que evoca os ideais maçônicos daqueles que querem dominar o mundo expulsando Deus dos tribunais, das escolas, das famílias e talvez até das igrejas”. Viganò concluiu: “Não sigam [os falsos pastores], pois eles os levarão à perdição”.

Depois, no sábado passado, Viganò publicou uma notável – até mesmo para os seus padrões – carta aberta ao presidente Trump, pretendendo explicar as causas do atual mal-estar do mundo. O que está acontecendo, afirma ele, é uma tentativa do maligno “Estado profundo” de manter o poder por todos os meios possíveis, diante dos esforços concertados do presidente Trump para derrubá-lo. No fundo, a luta é espiritual. Uma elite está determinada “a demolir a família e a nação, explorar os trabalhadores (...) fomentar divisões e guerras internas, e acumular poder e dinheiro”. E, “assim como existe um Estado profundo, há também uma Igreja profunda que trai seus deveres e renuncia a seus devidos compromissos perante Deus. Assim, o Inimigo Invisível, contra quem os bons governantes lutam nos assuntos públicos, também é combatido pelos bons pastores na esfera eclesiástica”.

O mundo está em uma encruzilhada, a batalha precisa ser vencida, declara Viganò. “Atrevo-me a acreditar”, diz ele a Trump, “que nós dois estamos no mesmo lado dessa batalha, embora com armas diferentes”.

A carta aberta a Trump, datada de 7 de junho, domingo da Trindade, foi publicada primeiro no site ultraconservador católico LifeSiteNews às 11h59, horário da Costa Leste dos EUA, no dia 6 de junho. Às 2h32, horário da Costa Leste dos EUA, um link para o PDF da carta foi postado no quadro de mensagens do QAnon [grupo de extrema direita que alimenta uma teoria da conspiração que denuncia um plano secreto de um suposto “Estado profundo” contra o presidente Trump]. O link foi colocado acima de uma extensa citação de Efésios 6,10-18 – uma referência bíblica favorita dos Q’s – instando os seguidores a “vestirem a armadura de Deus”, já que a luta “não é contra o sangue e a carne, mas contra os principados, as potestades, os dominadores deste mundo tenebroso, os espíritos malignos espalhados pelo espaço”. Sentimentos que ecoaram estranhamente na carta de Viganò a Trump.

O que é o Q? Seus seguidores não sabem, mas muitos deles acreditam que Q é uma equipe de dez ou mais agentes de inteligência militar de alto nível que são informantes e conselheiros próximos de Trump. Desde que surgiu na internet, em outubro de 2017, o Q acumulou milhões de seguidores nos EUA e no exterior.

O que permeia as postagens do Q é uma aversão às mídias que não sejam conservadoras como a Fox News (embora nem sempre ela seja confiável); um desgosto visceral por Hillary Clinton, Barack Obama e todas as coisas democratas; e uma leitura evangélica cristã da batalha espiritual entre o bem e o mal no mundo.

Nos últimos meses, inevitavelmente, os seguidores do Q alegaram que o coronavírus pode não ser real; ou, se for, foi criado pela elite sombria que secretamente governa o mundo e agora está provocando um pânico na saúde pública, a fim de prejudicar as chances de reeleição de Trump.

A eventual destruição da cabala global é iminente, acreditam eles, mas só pode ser realizada com o apoio dos patriotas. Uma nova era do ouro se seguirá à “tempestade” em que estamos entrando, e um “Grande Despertar” está chegando e vencerá as forças do mal.

Parece que Viganò quer dizer ao presidente Trump, à equipe e aos seguidores do Q que ele é um deles. Uma das frases favoritas do Q é “Dark to Light” [trevas à luz]. Viganò fala sobre os “mercenários” que são “aliados dos filhos das trevas e odeiam os filhos da luz”, entre outras referências à luz-trevas. Ao se referir à tempestade prometida, o Q gosta de postar a cena do filme “Código de Conduta”, de 2009, em que Clyde Shelton (Gerard Butler) declara: “Vou derrubar toda a p*rra deste templo corrupto e doente sobre a sua cabeça. Será algo bíblico!”. Viganò usa o termo “bíblico” duas vezes e o coloca em itálico. E a controversa foto de Trump segurando a Bíblia do lado de fora da Igreja de São João foi imediatamente vista pelos seguidores do Q como uma promessa aos seus inimigos: “Será bíblico”.

Fala-se de motim em elementos das Forças Armadas dos EUA. Fortificações em torno da Casa Branca estão sendo construídas por medo de que possam ser invadidas. Mas os seguidores do Q – e, ao que parece, o arcebispo Viganò – acreditam que, liderado pelo seu defensor e salvador, Trump, o que vai cair não é o “templo” na Avenida Pennsylvania 1600, mas sim o próprio Estado profundo, com prisões e encarceramentos de seus principais agentes.

Essa improvável coalizão de trumpianos, evangélicos conservadores e católicos tradicionalistas está esperando ansiosamente para ver realizada a previsão de Clyde Shelton de que será “bíblico”. Uma das frases favoritas do Q é: “Aproveite o show”. Ela é entendida como uma referência a um apocalipse vindouro.

 

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