Igreja deve fortalecer a sinodalidade para enfrentar a pós-pandemia

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01 Junho 2020

O pró-secretário geral do Sínodo dos Bispos fala às mídias vaticanas sobre as perspectivas para a vida eclesial na pós-pandemia. Para o bispo de Malta, é preciso apontar para a sinodalidade, não apenas na Igreja, mas também na sociedade civil, como modelo para favorecer a fraternidade humana.

A reportagem é de Alessandro Gisotti, publicada por Vatican News, 31-05-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Um suicídio seria cometido se, depois da pandemia, voltássemos aos mesmos modelos pastorais de antes.” Assim escrevia, em uma carta aos sacerdotes da sua Diocese de Gozo, em Malta, Dom Mario Grech, pró-secretário geral do Sínodo dos Bispos, alguns dias atrás. Uma exortação muito forte, a partir da qual começamos uma conversa abrangente sobre os limites e recursos pastorais que surgiram neste período de confinamento forçado por causa da pandemia.

Trata-se de uma situação, destaca ele em um diálogo com o L’Osservatore Romano e o Vatican News, que “abalou os fundamentos que pensávamos que eram inabaláveis, como observamos no setor econômico, científico e político”. Uma situação inédita, que não podia deixar de atingir também a Igreja.

“O Papa Francisco – observa o prelado – constantemente faz um apelo sobre a necessidade da conversão pastoral.” E isso, acrescenta, foi claramente sentido durante a pandemia, quando surgiram novas “experiências que nos ajudam a contemplar o rosto de Cristo”.

Criatividade pastoral para evitar novos clericalismos

Dom Grech adverte contra o fato de se reduzir a uma “Igreja da sacristia, afastada das ruas ou que se contenta em projetar a sacristia nas ruas”. Portanto, ele observa que esses últimos meses de isolamento, sofrimento e dor também foram “uma oportunidade (um kairós) para a atualização e a criatividade pastoral”, e isso deve nos convencer de que não podemos voltar “às modalidades que empregávamos antes da pandemia”. Um período que, adverte, também levou ao surgimento, entre alguns cristãos, consagrados e leigos, de “um esquema de forte clericalismo”.

O prelado maltês cita as palavras de Georges Bernanos sobre o “cristianismo decomposto”. “De que vale a profissão de fé – pergunta-se – se depois essa mesma fé não se torna fermento que transforma a massa da vida?”

Redescobrir o valor da “Igreja doméstica”

A partir daí, a reflexão se move para a dimensão da “Igreja doméstica”, que teve um ímpeto renovado nesses últimos meses, caracterizados pelo confinamento.

Dom Grech observa que um certo clericalismo desgastou, desde o século IV, “a natureza e o carisma da família como Igreja doméstica. E isso apesar de o Concílio Vaticano II ter recuperado a noção da família como Igreja doméstica (LG 11, AA 11) e ter desenvolvido o ensinamento sobre o sacerdócio comum (LG 10)”.

Para o pró-secretário do Sínodo, “assim como era nos primeiros séculos, também hoje a família poderia ser uma fonte de vida cristã”. Além disso, “como estrutura básica e permanente da Igreja, deveria ser restituída à família, domus ecclesiae, uma dimensão sagrada e cultual”.

Ele lembra que tanto Santo Agostinho quanto São João Crisóstomo ensinaram, no rastro do judaísmo, que “a família deve ser um ambiente em que a fé possa ser celebrada, refletida e vivida. É dever da comunidade paroquial ajudar a família a ser escola de catequese e sala litúrgica onde o pão possa ser partido sobre a mesa familiar. Os pais, em virtude da graça do sacramento do matrimônio, são os ‘ministros do culto’, que, durante a liturgia doméstica, partem o pão da Palavra, rezam com ela, e assim ocorre a transmissão da fé aos filhos”.

O administrador apostólico de Gozo espera que o Senhor multiplique os muitos exemplos de famílias “criativas no amor”, prontas para a “criação de espaços para a oração, assim como para a disponibilidade em relação aos mais pobres”.

Serviço ao próximo, via mestra do amor cristão

Igualmente importante na pós-pandemia, segundo Dom Grech, será “o ministério do serviço”, a diaconia também como “nova” via de evangelização. “O partir do pão eucarístico e da Palavra – adverte – não pode ocorrer sem o partir do pão com quem não o tem, ‘os pobres são teologicamente o rosto de Cristo’”.

A diaconia, continua o prelado maltês, “é a via mestra para experimentar o amor cristão. O Evangelho é comunicado não só com a pregação, mas também com o serviço. A aproximação de muitos à Igreja não ocorre graças ao catecismo, mas sim por meio de uma experiência diaconal significativa. Como diz o papa, se descermos entre os pobres, descobriremos Deus”.

Dom Grech compartilha o que lhe foi escrito por um agente humanitário após o resgate de um grupo de migrantes no mar, graças ao empenho da sua diocese. “Infelizmente – afirma a mensagem recebida – muitas vezes, no passado, vimos incompreensões entre a Igreja e as pessoas, até mesmo não cristãs, de boa vontade. Hoje, as coisas estão mudando, e estas sentem a Igreja como amiga porque ela escuta o grito dos pobres e tenta socorrê-los.”

Em tempos de crise, Igreja deve anunciar a alegria do Evangelho

Nessa “mudança de época”, segundo Dom Grech, “a contribuição que a Igreja pode ou, melhor, deve dar a essa sociedade é anunciar Jesus Cristo, a alegria do Evangelho”. E isso, como lembrado pelo papa no discurso à Cúria Romana para as saudações natalícias do dia 21 de dezembro passado, levando em consideração ainda mais que, na Europa e em grande parte do Ocidente, a fé cristã “não é mais um pressuposto óbvio da vida comum, ao contrário, frequentemente é negada, zombada, marginalizada e ridicularizada”.

Grech retoma a célebre observação de De Lubac em “O drama do humanismo ateu”, segundo o qual “não é verdade que o homem [...] não pode organizar o mundo terreno sem Deus. É verdade, porém, que, sem Deus, no fim das contas, ele só pode organizá-lo contra o homem”.

Ao mesmo tempo, ele destaca que, nessa pandemia, às vezes, “as considerações econômicas e financeiras prevaleceram sobre o bem comum”. Uma dinâmica que deve ser corrigida.

Fortalecer o estilo sinodal, verdadeiro antídoto contra o fechamento

No diálogo com as mídias vaticanas, Dom Grech se concentra, por fim, no “dom da sinodalidade como estilo de vida eclesial”. Dom feito pelo Espírito Santo à Igreja.

“O caminho sinodal – afirma ele, retomando o Papa Francisco – é o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milênio” e sublinha que, “como dinamismo de comunhão, a sinodalidade é acima de tudo uma integração afetiva de todos os participantes; no espírito do diálogo, todos podem contribuir para chegar às convergências”.

Para o pró-secretário do Sínodo dos Bispos, “embora seja um termo pertencente ao léxico eclesiástico, a sinodalidade também pode ser proposta à sociedade civil. Adotada como princípio operacional pelo mundo laico, a sinodalidade poderia ser um estilo que corrobora as relações interpessoais e a fraternidade humana. A sinodalidade é um antídoto contra o fechamento e nos ajuda a apreciar a beleza da comunidade”.

É claro, admite ele, “caminhar juntos não é uma tarefa muito fácil, tanto na Igreja quanto na sociedade. Todos precisamos nos treinar nesse exercício tão vital para o futuro”. E, olhando para o próximo Sínodo, focado precisamente no tema da sinodalidade, Dom Grech espera que “tanto a reflexão anterior à celebração do Sínodo quanto o trabalho dos Padres sinodais possam oferecer uma contribuição nessa direção”.

 

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