Cardeal Peter Turkson: “A crise do Covid-19 ilustra o ensinamento do papa”

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30 Mai 2020

Presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz e prefeito do Dicastério Romano para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, o cardeal ganês Peter Turkson entrega a La Vie suas reflexões sobre a crise atual, por ocasião do quinto aniversário da encíclica Laudato si'.

A edição do texto é de Marie-Lucile Kubacki, publicada por La Vie, 20-05-2020. A tradução é de Benno Brod.

Eis a reflexão.

“A crise do Covid-19 começou como um problema sanitário, mas afetou de maneira drástica a economia, o meio ambiente, os empregos, os modos de vida, a segurança alimentar, a tecnologia digital e a segurança sobre Internet, a política, a governança e as políticas (quer elas sejam nacionalistas ou abertas e solidárias), a pesquisa e os pedidos de patentes. Quase nenhum aspecto da vida e da cultura humanas foi poupado. Como consequência, ela ilustra o ensinamento do Papa Francisco, segundo o qual, "tudo está interconectado" (Laudato si’, §70, 138, 240) e alude à missão do Dicastério de acompanhar o desenvolvimento humano de maneira integral: em todas as dimensões.

Atualmente, as crises são múltiplas: saúde, ecologia, alimentação, economia (comércio, empresa, comércio e mercado), etc. Mas a multiplicidade das crises, que convergem na situação atual e ilustram o ensinamento do Papa Francisco sobre a interdependência de tudo, explica também por que o ensinamento central de Laudato si’ é a "ecologia integral”. “Ecologia”, aqui não se refere simplesmente ao meio ambiente (ecologia natural). A noção alude igualmente à vida humana (ecologia humana), à vida social e à busca do bem comum (ecologia social), e mesmo à paz no mundo (ecologia da paz), assim como os Papas Paulo VI (Populorum Progressio), João Paulo II (Sollicitudo Rei Socialis) e Bento XVI (Caritas in Veritate) o têm ensinado de diversas maneiras, e que o Papa Francisco retoma agora na Laudato si’.

A ligação entre a saúde, a ecologia, a economia, os direitos humanos, etc. é a pessoa humana. Tudo é ligado por um fim comum: o serviço da pessoa humana. Quer seja como um jardim plantado no Éden (Gn 2), ou como um sistema ordenado (cosmos) em seis dias de trabalho (Gn 1), o mundo e tudo o que ele contém estava preparado para receber a pessoa humana. Como finalidade, para a qual tudo existe, a pessoa humana, contudo, não é um centro “autorreferencial”, nem o ponto de referência de tudo. Feita a partir da matéria terrestre inspirada pelo sopro de Deus, e mantida por seus frutos, a pessoa humana é a finalidade para a qual tudo existe e o elo entre todas as coisas, pois ela faz parte de tudo que existe, mesmo sendo seu ponto alto. Assim, tudo é confiado ao poder da pessoa humana, para que ela possa ser o guarda ou a guarda de tudo. É o reconhecimento deste fato sobre a pessoa humana que dá um sentido a sua vida; e é missão da Igreja sempre lembrar este fato à pessoa humana e de ajudá-la o reconhecê-lo, pois a preocupação pelo bem-estar da humanidade é um assunto ao qual a Igreja sempre volta e do qual ela faz sua principal preocupação desde o começo. De fato, nós, os seres humanos e nosso bem-estar, somos a principal preocupação de Deus desde as origens!

O ensinamento da Igreja católica sobre a pessoa humana (antropologia cristã) está em conformidade com o que ela crê ser a pessoa humana: um corpo e uma alma. O sentido de um crescimento ou de um desenvolvimento integral decorre do fato de que esses dois atributos ou aspectos da pessoa são bem visíveis. Assim, o Papa João XXIII queria que a educação cristã fosse “integral” (Mater et Magistra) e os Padres do Vaticano II também falaram de uma vocação integral da pessoa humana, de sua perfeição integral e de uma cultura integral (Gaudium et Spes). O Papa Paulo VI, ao se referir à compreensão da pessoa humana em termos de humanismo transcendental (Henri Bergson e Jacques Maritain), descreveu o verdadeiro desenvolvimento da pessoa humana como um desenvolvimento integral: não limitado só ao corpo, mas a seu espírito e a seus numerosos atributos. Essa compreensão do crescimento e do desenvolvimento da pessoa humana em termos de integralidade ou integridade tem sido uma característica dos ensinamentos papais até o dia de hoje.

Um crescimento integral nunca pode opor o desenvolvimento individual ou pessoal ao do grupo ou da comunidade, porque o desenvolvimento integral se refere ao desenvolvimento de tudo, para a pessoa e para todos. No sentido cristão subjacente da unidade da família humana, o desenvolvimento não é integral e completo, enquanto houver um indivíduo, em qualquer lugar, que vive subdesenvolvido. Eis por que os Papas indicam o desenvolvimento integral como sendo a vocação da pessoa humana.

Naturalmente, a maior preocupação do Santo Padre em relação ao mundo é que ele seja poupado dessa terrível aflição e desse contágio, e de todos os sofrimentos. Nessa intenção, o Santo Padre pede todos os dias; mas ele também faz sugestões para conseguir quatro outras coisas:

1. Consolar os aflitos e aqueles que, numerosos, gemem sob a dor do luto, tornado ainda mais cruel pela impossibilidade de acompanhar os próximos condenados a morrer.

2. Acender, dentro e diante de um mundo aflito, um raio de esperança, que as celebrações da Páscoa transformaram em chama de luz brilhante. Vale a pena observar como as celebrações de Páscoa ofereceram ao Santo Padre ricos símbolos para animar todos os espíritos aflitos. Jesus, que foi sepultado às pressas e sem grandes cerimônias, por causa do sábado, era um ponto de referência para os enterros apressados dos mortos do Covid-19. O Círio de Páscoa, que iluminou a escuridão para marcar a proclamação de Jesus ressuscitado, foi comparada pelo Papa Francisco ao “contágio” de um vírus, que não se propaga como uma doença, mas como a mensagem de luz e de vida nova em Cristo.

3. Exorcizar o mundo e seus dirigentes do pavor e da ansiedade perante a pandemia, que pôs de joelhos tudo que este mundo e seus habitantes apreciam: o desenvolvimento, o crescimento e o progresso tecnológico.

4. Exortar o mundo e os povos a não ceder à indiferença, à inércia e ao egoísmo, mas a despertar neles um sentimento de solidariedade, de amor fraterno e de espírito coletivo, para se entreajudar e socorrer particularmente os necessitados e os pobres, e para abrir numerosos caminhos nos campos da economia e das finanças, da saúde, do emprego e da segurança alimentar, por onde se possa ir no mundo pós-Covid-19.

Pouco antes da Páscoa, o Papa Francisco pediu ao nosso Dicastério (para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral) de criarmos uma Comissão Vaticano Covid-19, para representar e expressar a solicitude e a solidariedade do Papa e da Santa Sé para com a humanidade, prostrada pelo Covid-19. Mais uma vez, como tive ocasião de o explicar por ocasião de uma conferência de imprensa no Vaticano, o nome e a missão do novo Dicastério eram bem apropriados para fazer dele um órgão da Santa Sé encarregado de se ocupar das múltiplas facetas da pandemia do Covid-19. Assim, a pandemia mostrou, de maneira particular, as atividades do Dicastério e um campo prioritário “ad tempus”, que traz o nome de Comissão Vaticana Covid-19, criada no mesmo tempo. A Comissão age através de quatro grupos de trabalho. Um grupo ouve as Igrejas locais, com a Cáritas Internacional, para ajudar a enfrentar a pandemia. Um segundo grupo organizou equipes de peritos e profissionais para trabalhar sobre economia, ecologia, saúde, trabalho e segurança alimentar num mundo pós-Covid-19. O terceiro grupo se ocupa da comunicação vaticana. Enfim, o quarto grupo, reconhecendo o estatuto do Estado do Vaticano, faz intervir outros organismos nacionais e internacionais na defesa dos projetos comuns para o futuro.

 

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