Papa Francisco: a missão não é “autopromoção” dos sistemas eclesiais

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22 Mai 2020

Existem "características genéticas" que o próprio Espírito Santo transmite à obra missionária da Igreja, tornando a confissão da fé cristã "outra coisa" em comparação a qualquer forma de "proselitismo político ou cultural, psicológico ou religioso". Esses traços originários devem poder ser encontrados na fisionomia e nas concretas modalidades operacionais de todos os organismos eclesiais, a partir daqueles diretamente comprometidos com a missão e a proclamação do Evangelho, se não quiser se alimentar o mecanismo absurdo de um "espírito missionário autorreferencial", que passa o tempo "a contemplar e se auto-incensar por suas próprias iniciativas","criar mundos paralelos” ou "construir bolhas midiáticas para repercutir seus slogan", em um frenesi de autopromoção permanente.

A reportagem é de Domenico Agasso, publicada por Vatican Insider, 25-03-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Esta é a "mensagem na garrafa" contida no longo texto hoje dirigido pelo Papa Francisco às Pontifícias Obras Missionárias, o "braço operativo" da Congregação da Propaganda Fide, na solenidade da Ascensão do Senhor. "Jesus, antes de partir", escreve o papa no início de sua longa mensagem, inspirando-se no feriado cristão de hoje, "disse a seus discípulos que lhes enviaria o Espírito, o Consolador. E assim também entregou ao Espírito a obra apostólica da Igreja, para toda a história, até seu retorno".

O próprio Cristo, com o seu Espírito - insiste o Papa, mais uma vez indicando o verdadeiro "protagonista" da obra apostólica - "testemunha a si mesmo através das obras que realiza em nós e conosco". E o primeiro "efeito" de sua obra é a alegria dos apóstolos entre as tribulações, a "grande alegria" das pobres mulheres que "encontraram Jesus ressuscitado na manhã da Páscoa e correram para contar aos outros". Tal alegria "ninguém consegue sozinho", observa o Papa. E o problema é que, na Igreja, o chamado à verdadeira operação do Espírito Santo "permanece apenas como um postulado teórico, uma fórmula abstrata". Uma espécie de "’homenagem formal’ à Santíssima Trindade, uma fórmula introdutória convencional para intervenções teológicas e planos pastorais".

No novo documento, o Papa mostra como esse reconhecimento da realidade oferece critérios objetivos e concretos para configurar e orientar as escolhas e o modus operandi dos sistemas eclesiais. Com flexibilidade, sem rigidez.

No texto, o Papa repropõe de maneira sintética os traços que denotam o dinamismo missionário da Igreja, já expostos na Exortação Apostólica "programática" Evangelii Gaudium. O pontífice repete que nos tornamos cristãos por atração, não por proselitismo; lembra que apenas o mistério do encontro com Cristo pode levar a proclamar seu Evangelho, e que esta obra "só pode começar por um impulso de alegria, de gratidão", marcada pelo crisma da gratuidade, e, portanto, não deve ser concebida como "uma espécie de ‘obrigação contratual’ dos batizados”.

Ele menciona que aqueles que seguem Jesus imitam o quanto ele é "manso e humilde de coração" e, portanto, é aberrante pensar em difundir o cristianismo "exercendo arrogância como indivíduos e através dos aparatos". Por essa razão - repete o Papa - a Igreja não pode ser um "dogma espiritual", e não se devem "adicionar pesos inúteis" ou impor aos outros "percursos de formação sofisticados e trabalhosos para usufruir daquilo o que o Senhor concede com facilidade".

Fora de qualquer abstração intelectual ou espiritualista, o Bispo de Roma salienta que o horizonte da missão da Igreja é o caráter ordinário da vida cotidiana, e não os cenáculos elitistas, e que o próprio Cristo tocou o coração de seus primeiros discípulos nas margens do mar da Galileia, enquanto estavam trabalhando, e "não os encontrou em uma conferência, ou em um seminário de formação, ou no templo". Uma imagem proposta para evidenciar que o encontro real com Cristo geralmente ocorre na vida em ato, e não em eventos organizados ou nas mobilizações nos quais os "militantes" são forçados.

Para a rede missionária das POMs, o Papa Francisco não indica o caminho de reformas flagrantes ou mudanças de direção. O convite é "fazer bem o vosso trabalho", e não complicar o que é simples, oferecendo-se como uma ferramenta a serviço do Papa e das igrejas locais, sem "fazer conjecturas e teorizar sobre super estrategistas ou ‘centrais diretivas’ da missão, à qual delegar, como supostos e indecentes "guardiões" da dimensão missionária da Igreja, a tarefa de despertar o espírito missionário ou conceder licenças missionárias a outros".

Para os membros das Pontifícias Obras Missionárias, o Papa indica antes o caminho de um "retorno às fontes", em sinal de elementaridade evangélica. As POMs – lembra o Papa - "nasceram espontaneamente, do fervor missionário expresso pela fé dos batizados. Existe e permanece uma consonância íntima, uma familiaridade entre as Obras Missionárias e o sensus fidei infalível no acreditar do Povo fiel de Deus”. É por isso que é conveniente que as POMs voltem a encontrar sua matriz "popular", renovar sua "imanência" ao Povo de Deus "também cuidando ou tentando reintegrar a capilaridade da ação e dos contatos das POMs, em seu entrelaçar-se com a rede eclesial (diocese, paróquias, comunidades, grupos)".

Para o Papa, é necessário entrar na realidade para “dar respostas a perguntas e necessidades reais, em vez de formular e multiplicar propostas. Talvez no corpo a corpo com a vida em ato, e não nos cenáculos fechados, ou nas análises teóricas de sua dinâmica interna - adverte o Papa -, possam surgir também intuições úteis para mudar e melhorar seus procedimentos operacionais, adaptando-os a diferentes contextos e diferentes circunstâncias".

Outra sugestão fundamental é a de preservar a "estrutura essencial das POMs" vinculada "às práticas de oração e à coleta de recursos para a missão, preciosa e apreciada justamente por sua natureza elementar e concretude. Ele - ressalta o Papa - "expressa a afinidade da POMs com a fé do povo de Deus: orações ao Senhor para que ele abra seus corações ao evangelho e súplicas a todos, para que também apoiem concretamente a obra missionária". Uma simplicidade e concretude ainda mais oportunas "no tempo presente, onde, mesmo nas circunstâncias do flagelo da pandemia, pressente-se em toda parte o desejo de encontrar e permanecer próximo de tudo o que é simplesmente Igreja".

De acordo com o atual Sucessor de Pedro, o vínculo especial que une as Obras Pontifícias ao Bispo de Roma também deve ser preservado como bem precioso, também porque constitui um apoio de liberdade para as POMs, "que ajuda a todos a escapar de modismos fugazes, achatamentos em escolas de pensamento unilateral ou homologações culturais de viés neocolonialista”.

As POMs, espalhadas pelos cinco continentes, refletem a riqueza plural das Igrejas locais e, na opinião do Papa, é necessário rejeitar a tentação de "padronizar a forma do anúncio, talvez focando inteiramente em clichês e slogans que estão na moda em certos círculos de determinados países cultural ou politicamente dominantes". O vínculo especial que une as POMs ao Papa deve, contudo, ser expresso na forma de serviço e da gratuidade, como participação na missão do "servo dos servos de Deus", e não deve ser usado para reivindicar primazias ou "marcar os próprios territórios".

Sobre a coleta de recursos para ajudar a missão, o Papa recorda o perigo de transformar as POMs em uma ONG, mas também ressalta que tudo "depende do coração com o que são feitas as coisas, e não das coisas que são feitas". Em alguns casos "certamente pode ser aconselhável e até apropriado usar com criatividade inclusive metodologias atualizadas para obtenção de financiamentos de potenciais e beneméritos subvencionadores". Mas se em algumas áreas a coleta de doações faltar, também devido ao esmorecimento da memória cristã, "o sofrimento pela perda da fé e também pela diminuição dos recursos não deve ser removido, mas colocado nas mãos do Senhor. E, de qualquer forma, é bom que o pedido de ofertas para as missões continue sendo dirigido principalmente a toda a multidão de batizados", porque "a Igreja sempre continuou a ir em frente graças ao óbolo da viúva, da contribuição de todas aquelas pessoas que se sentem curadas e consoladas por Jesus e que por isso, através do transbordamento da gratidão, doam o que têm”.

O Papa convida a não ceder "a complexos de inferioridade ou tentações de emulação em relação àquelas organizações super funcionais que arrecadam fundos para causas justas, depois usadas em boa porcentagem para financiar a própria estrutura e fazer publicidade de sua marca". No que diz respeito aos procedimentos estruturais do funcionamento das Obras Missionárias, a mensagem pontifícia convida a ter em mente que "a centralização excessiva, em vez de ajudar, pode complicar a dinâmica missionária. E mesmo uma articulação puramente nacional das iniciativas põe em risco a própria fisionomia" da rede das POMs, obscurecendo "a troca de dons entre igrejas e comunidades locais, vivida como fruto e sinal tangível de caridade entre os irmãos, em comunhão com o Bispo de Roma”.

A mensagem do Papa assume tons prementes quando indica as patologias que podem se se incrustar nos sistemas eclesiais quando a invocação ao Espírito Santo é reduzida "a um postulado estéril e redundante de nossas reuniões e homilias". O pontífice refere-se à autorreferencialidade de entidades eclesiásticas sempre orientadas "à sua própria autopromoção e à celebração em chave publicitária de suas próprias iniciativas", a forma de dirigir de "organismos criados para ajudar as comunidades eclesiais" que, com o tempo, pretendem "exercer supremacia e funções de controle sobre as comunidades que deveriam servir".

O documento pontifício detém-se sobre o perigo de grupos se perceberem como parte de "uma classe superior de especialistas que procuram ampliar seus espaços em cumplicidade ou em competição com outras elites eclesiásticas". Ou as doenças do funcionalismo e da abstração, nas quais caem aqueles que multiplicam "lugares inúteis de elaboração estratégica, para produzir projetos e diretrizes que servem apenas como ferramentas de autopromoção daqueles que os inventam".

"É evidente, pela mensagem às POMs - escreve no Vatican News Andrea Tornielli, diretor editorial das Mídias da Santa Sé - a intenção do Papa de desconstruir e possivelmente arquivar a tendência de considerar a missão como algo elitista, a ser orientada e dirigida através de programas formulados em gabinete aplicando estratégias que obtêm uma "conscientização" por meio de raciocínios, chamadas, militâncias e treinamentos. É igualmente evidente - acrescenta Tornielli - que o bispo de Roma considera este um risco presente e, portanto, suas palavras têm um valor que vai muito além das Pontifícias Obras Missionárias, para as quais são direcionadas".

O serviço das POMs - escreve o Papa na parte final de sua mensagem - "é um serviço prestado ao fervor apostólico, ou seja, a um impulso de vida teologal que somente o Espírito Santo pode operar no povo de Deus. Vocês se preocupem em fazer bem o vosso trabalho, "como se tudo dependesse de vocês, sabendo que, na realidade, tudo depende de Deus" (Santo Inácio de Loyola)”.

 

Nota do Instituto Humanitas Unisinos - IHU: A íntegra da mensagem do Papa Francisco para as Pontifícias Obras Missionárias - POMs pode ser lida aqui.

 

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