Qual Rahner é caro ao Papa Francisco? Uma pequena hermenêutica papal do teólogo alemão. Artigo de Andrea Grillo

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22 Mai 2020

Não há dúvida de que o Papa Francisco retoma indiretamente a lição das “segundas partes” da obra rahneriana, nas quais o teólogo se defronta com os detalhes da tradição e os relê com fidelidade e com criatividade. Esse Rahner certamente é uma das matrizes do poder reconstrutivo do magistério de Francisco, da sua liberdade fiel e da sua fidelidade criativa.

A opinião é de Andrea Grillo, teólogo italiano e professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma, em artigo publicado em Come Se Non, 21-05-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Em um saboroso artigo de Alfonso Botti, publicado nessa quarta-feira no Vatican Insider, propõe-se uma série de lúcidas críticas à abordagem falaciosa com que Ernesto Galli della Loggia levantou objeções pesadas e injustificadas contra o magistério do Papa Francisco.

Aqui, não me interessa considerar as justas reservas que o Prof. Botti move contra Galli della Loggia. Em vez disso, gostaria de me debruçar sobre a referência que ele dedica ao pensamento de K. Rahner, como “inspirador” do magistério de Francisco.

De fato, o autor faz bem em identificar um lado particularmente frágil das análises de Galli della Loggia, a falta de referências teológicas diferentes de De Maistre ou Maritain (com todas as diferenças entre os dois!). Por que, pergunta-se Botti, deveria ser “católico” se inspirar em De Maistre ou Maritain, e não o seria se referir a Rahner?

É evidente que K. Rahner é um autor que pede uma leitura atenta, irredutível a um único modelo. H. U. von Balthasar, em uma bela expressão não desprovida de reservas, disse assim: “Há muitos Karl Rahner”.

A tentativa de reduzi-lo a uma única figura (teólogo transcendental, teólogo da virada antropológica, teólogo da vulgata pós-conciliar...) está destinada ao fracasso e/ou à leitura ideológica. Então, é fundamental se perguntar em “qual K. Rahner” o Papa Francisco pode se inspirar.

Acho que não seria equivocado se orientar pelo menos de acordo com um mapa duplo, que tento formular aqui sinteticamente:

a) Em K. Rahner, todas as obras principais estão “divididas em duas partes”: por um lado, a unidade de ser e pensar fascina e dá vertigem; mas, por outro, a “diferença” e a “receptividade” são salvaguardadas e recuperadas. Os equívocos, junto com o fascínio quase irresistível, vêm sobretudo das “primeiras partes”.

Não há dúvida de que o Papa Francisco retoma indiretamente a lição das “segundas partes” da obra rahneriana, nas quais o teólogo se defronta com os detalhes da tradição e os relê com fidelidade e com criatividade. Esse Rahner certamente é uma das matrizes do poder reconstrutivo do magistério de Francisco, da sua liberdade fiel e da sua fidelidade criativa. Há aqui uma vocação ao “primado da realidade sobre a ideia” e “do tempo sobre o espaço”, que inerva profundamente esse lado do pensamento rahneriano e que às vezes parece desmentido pela tendência “idealizante” e “a-histórica” do primeiro lado das suas obras principais.

b) Mas K. Rahner, no seu centro, quis ser um “homem espiritual”. E esse é o caráter de muitíssimos dos seus escritos, que devem ser situados no espaço de uma tradição religiosa, espiritual e especificamente “jesuíta”. Uma tradição espiritual na qual o sentido urgente da história, mas também a relatividade da própria história se entrelaçam e se sobrepõem, com admirável equilíbrio.

O Rahner dos “retiros espirituais” talvez seja aquele que, sinteticamente, falou com as palavras mais fortes na experiência de J. M. Bergoglio. Escutemos algumas de suas passagens, retiradas do volume “Ritiri spirituali. Il rischio del cristiano” [Retiros espirituais. O risco do cristão] (Bréscia: Queriniana, 1975).

“O que é homem? Vou dizer com muita franqueza aquilo que penso: o homem é a pergunta sem resposta” (p. 9).

“Quão simples é, então, o cristianismo: a vontade de se render, no amor, à inaferrabilidade de Deus” (p. 18).

“O cristão é o verdadeiro cético, o mais radical. Crendo na incompreensibilidade de Deus, ele está convencido de que nenhuma verdade única é realmente verdadeira fora desse movimento (que lhe é essencial), no qual ela se supera em uma pergunta destinada a permanecer sem resposta, porque é uma pergunta sobre Deus e sobre a sua inaferrabilidade” (p. 18).

“Vida e pensamento me levam continuamente a situações de perplexidade que nunca podemos liquidar (...) Então encontro a esperança. Ela condensa toda a experiência da vida em duas palavras: mistério e morte. Mistério fala dessa perplexidade da esperança. Morte ordena a não dissimular a perplexidade, mas a enfrentá-la. Olho para Jesus crucificado e sei que nada me será poupado. Entrego-me à sua morte e espero que essa morte seja a aurora do bem-aventurado mistério. Mas, nessa esperança, a vida emerge na sua beleza, até mesmo no meio das trevas, e tudo se torna promessa” (p. 29).

Parece-me que a teologia do Papa Francisco – do modo como ele mesmo a caracteriza com os “três Is” da “inquietação”, “incompletude” e “imaginação” – retoma esse poderoso filão de reflexão radical e exigente, que podemos descobrir com gratidão e com comoção na página rahneriana.

Mas esse lado do pensamento rahneriano permanece cheio de novidade e de promessa. Representa uma “possibilidade” de recepção do Concílio Vaticano II como “início de um início”. A sua linguagem franca, direta, até mesmo crua, contrasta com a imagem de um Rahner abstruso, intrincado e sempre abstrato...

Trata-se de lugares-comuns que distorcem o autor e que hoje podem ser superados, se formos capazes de oferecer uma leitura sintética e clarividente dele.

Rahner, mesmo com todos os seus limites, pensou radicalmente a tradição e ofereceu releituras poderosas, precisas, iluminadoras dela. Não é de se surpreender que aqueles que criticam Francisco nunca leram Rahner realmente na sua urgência e na sua desarmante profundidade.

Quase poderíamos dizer que, se, por um lado, Rahner pôde inspirar Francisco, hoje Francisco, com o seu magistério, nos mostra novas possibilidades de interpretação de Rahner.

É singular que hoje, na Igreja, exista um papa que sabe em que fontes beber com largueza a sua inspiração, enquanto uma parte da Igreja permanece encastelada em formas “antimodernistas” de leitura da tradição, que, obviamente, misturam tudo em uma coisa só e colocam modernistas, Rahner e Francisco indistintamente no mesmo “saco”.

Galli della Loggia também não escapou dessa “prova de incompetência”. Uma Igreja que lê K. Rahner com inteligência pode compreender com profundida a própria história dos últimos 100 anos e também o seu papa atual. Caso contrário, se ela se deixar distrair por outras preocupações e por antigas desconfianças, poderia cair na mesma armadilha com que, há 100 anos, a cultura “laica” apoiou o antimodernismo eclesial, como nos lembra o Prof. Botti na conclusão do seu artigo:

“Entre os séculos XIX e XX, quando a Igreja Católica foi sacudida pelo movimento reformador modernista, a cultura idealista italiana aplaudiu com entusiasmo a sua condenação por parte de Pio X na encíclica Pascendi (1907). Enquanto estavam em gestão os acordos clérigo-moderados, de fato, o catolicismo ia bem assim como estava, ou seja, como fator de estabilidade dos equilíbrios sociais existentes. É preciso se perguntar se, mais de um século depois, Galli della Loggia não é um epígono, não digo daquela linha, mas sim daquela atitude. No mínimo pela contribuição que ele deu (inconscientemente?) à ofensiva integralista contra o Papa Francisco.”

Uma das tarefas que nos é dada hoje, como teólogos, é reler com inteligência o pensamento dos grandes autores do século XX, para libertá-lo das leituras ideológicas e incompetentes que muitas vezes obscureceram a sua autoridade: o “dispositivo de bloqueio” também passa por uma “censura prévia” que impede os autores de falar.

Mas, hoje mais do que nunca, precisamos da “parrhesia” de Rahner, do seu olhar lúcido, até mesmo dos seus enganos.

Os seus textos, a distância de muitas décadas, ainda podem inspirar não apenas papas inteligentes e sensíveis, mas também todos os cristãos que estejam dispostos a considerar a tradição mais como um jardim a ser cultivado do que como um museu a ser conservado.

 

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