“A psique precisa de apoio social”. Entrevista com Itzhak Levav

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22 Mai 2020

Estudos epidemiológicos da Organização Pan-Americana da Saúde estimam que na América Latina os sofrimentos mentais ocupem 21% da carga mórbida. E com isso, a depressão, a ansiedade e os vícios aparecem como um dos correlatos mais próximos ao que virá pela pandemia. Tanto é assim que a Organização Mundial da Saúde (OMS) advertiu que já está trabalhando na elaboração de recomendações e guias técnicos para que os sistemas de saúde dos países possam dar uma resposta.

Itzhak Levav é um psiquiatra argentino-israelense que durante muitos anos esteve à frente do programa da OMS dedicado a esta área na região. Iniciou sua carreira nos anos 1960, quando após terminar seus estudos na Universidade de Buenos Aires passou a trabalhar com Mauricio Goldemberg, uma das mais importantes referências que a psiquiatria já teve em nosso país [Argentina], promotor das práticas comunitárias e enfoques alternativos. Depois de uma estadia no Canadá e um mestrado na Universidade Columbia, Levav passou a dirigir o departamento de psiquiatria social no Hospital Evita de Lanús.

Esta conversa com a revista Ñ começou durante sua passagem por Buenos Aires, quando as possibilidades de uma pandemia ainda eram um fantasma difuso, e continuou por esses dias através de uma conversa telefônica, de Jerusalém, onde reside atualmente.

A entrevista é de Carolina Keve, publicada por Clarín-Revista Ñ, 21-05-2020. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Quais podem ser as consequências do isolamento sobre a saúde mental?

Acredito que estamos diante de duas situações que são muito sérias. Uma delas se dá pelo medo da doença e o medo da morte. Mas, depois, vem o tema do desemprego e a angústia do que será o retorno a essa vida cotidiana. Neste sentido, é importante favorecer a confiança das pessoas, e para isso os estados devem trabalhar para garanti-la.

O isolamento, estar recluso na casa durante semanas, é uma situação muito excepcional, que pode ocorrer diante de um desastre telúrico ou produzido por uma guerra. Mas acredito que pode ser atravessada. É importante notar que a pessoa não entra em colapso diante de qualquer desafio, temos uma capacidade de resiliência maior do que pensamos. É preciso enfrentar o perigo apelando aos recursos que se tem, e um dos mais importantes é o apoio social.

Mas como esse apoio pode ser operacionalizado?

Aqui em Israel, por exemplo, existe um serviço de assistência psicológica telefônica, realizada por instituições, em geral, voluntárias. Sem ir muito longe, minha esposa é diretora de um serviço de psicologia evolutiva infantil e, nesses dias, sistematicamente telefonou para todos os pais de crianças que foram pacientes, durante os últimos cinco anos, para conhecer a conduta das crianças, mas também para estabelecer uma conversa, um vínculo.

E que papel o Estado pode assumir?

Bom, na Argentina, tem uma lei muito boa de saúde mental.

Que continua sendo combatida por muitos setores...

As associações de psiquiatria estão presas à história passada, não podem se separar dela e não podem superar a história. Durante um tempo, trabalhamos na Guatemala para mudar a orientação da formação. Lá, havia umas 40.000 pessoas com transtornos psiquiátricos severíssimos, mas os hospitais acolhiam um total de 1.000 pacientes, não mais.

Neste contexto, tentamos motorizar uma reforma, com os psiquiatras indo para as comunidades ensinar em clínicas gerais e organizações comunitárias. E sabe o que me responderam? “Assim como fomos ensinados e pudemos mudar de ideia, queremos que os novos passem pelo mesmo processo”. Era um absurdo, repetir o mesmo modelo para mudá-lo?

E que países podem ser tomados como modelos?

Exemplos daqueles que fazem as coisas bem em matéria de saúde mental podem ser a Escandinávia, em alguns lugares da Itália e Espanha. Por exemplo, em Andaluzia e Navarra não há hospital mental. Uma pérola é Belize: tinha um hospital psiquiátrico cruel, mas já não possui mais, toda a assistência foi transferida para o hospital geral. Como conseguiram isso? Sem psiquiatras, dividindo sete zonas sanitárias com enfermeiras que foram formadas para desempenhar funções semelhantes à de um psiquiatra.

O caso da Argentina é interessante para pensar a efetividade ou não do sistema. Somos um dos países com o maior número de psicólogos por habitante e consumo de psicofármacos, e a atenção, no entanto, é qualificada como insuficiente. Por quê?

A diferença que existe entre o número de profissionais versus a porcentagem de assistência expressa a lacuna no atendimento e, no entanto, boa parte dos esforços na Argentina seguem dedicados ao setor privado, quando há terapias cujos resultados são inquestionáveis, como a terapia cognitiva comportamental para o tratamento da depressão. Então, claramente se trata de uma necessidade de transformar o enfoque. Penso isto em nível universal. O que surpreende é a orientação para a cura, que é quase exclusiva. É uma pobreza em matéria de modelos de atendimento psiquiátrico.

Por quê?

Porque sob este modelo boa parte da população não acessa os serviços. A ênfase na cura é fechada. As ações de cura não sanam toda a situação, e se tivesse algum grau de conquista, nunca seria completo. Ficam no imediato. E se lemos as estatísticas, uma boa leitura mostra que esse não é o caminho.

O que dizem esses números?

Por exemplo, demonstrou-se que nem todos os tratamentos farmacológicos são exitosos. O que acontece com o que não é tratado, com o que não se atende? Porque os programas sob esta orientação não oferecem resposta às necessidades preventivas ou, por exemplo, aos problemas suscitados por um transtorno que deixa sequelas e que demanda outra resposta, uma reabilitação mais do tipo psicossocial. Além disso, o que os resultados dos levantamentos apontam é que o problema é ainda mais severo: o modelo de atendimento é restrito e se efetiva à custa de ações preventivas, promocionais e em alguma medida de reabilitação.

Há uma enorme parcela da população que não está recebendo atendimento. Ou seja, o que os números retratam se refere apenas a esse 15% da população que está institucionalizada, sendo atendida. Contudo, existem 85% que não sabemos quem são. A transformação do sistema manicomial tem a ver com a permissão de acesso a essa enorme parcela da população.

Quais deveriam ser, então, as premissas que orientem as políticas públicas nesta matéria?

Vou lhe dar um exemplo: ninguém espera que o sistema trate todas as pessoas que sofrem o problema do HIV. O que queremos é prevenir que as pessoas tenham a possibilidade de se contagiar. Às vezes, para isso são necessárias apenas ações muito simples, como o uso do preservativo. Hoje, ninguém espera que as pessoas tenham varíola, previne-se antes... São medidas que são viáveis quando se tem uma política comunitária.

Não há ação mais devastadora para a saúde mental que o abuso e, no entanto, que recursos os estados aplicam para a redução desta prática? O abuso mata e adoece por toda a vida, mas o investimento é quase nulo. O enfoque comunitário é preventivo, começa com o atendimento a uma mãe grávida. Mas, sobretudo, não acredita em conhecimentos absolutos.

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