“Hoje você não pode acreditar em Jesus Cristo, sem assumir profundamente o cuidado da casa comum”, segundo Mauricio López

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21 Mai 2020

A Semana Laudato Si está promovendo muitos momentos de reflexão em todo o mundo, o que, dadas as circunstâncias atuais, permite o monitoramento de diferentes lugares por meios tecnológicos. Um deles ocorreu nesta terça-feira, 19 de maio, com um webinair organizado pela Caritas Chile, com o apoio da Conferência Episcopal do Chile, CELAM e Caritas América Latina e Caribe. Os participantes, mediados por Catherine Mella, foram Dom Luis Infanti, bispo de Aysén, Mauricio López, secretário executivo da REPAM, e a bióloga e professora Fernanda Salinas.

A reportagem é de Luis Miguel Modino.

Com o tema "Tudo está conectado", o encontro teve como objetivo refletir sobre as contribuições para a pandemia da encíclica Laudato Si', que neste 24 de maio completa 5 anos. Não podemos esquecer, como apontou Catherine Mella, que "a saída dessa crise também envolve todos nós, desde o compromisso com a ecologia integral". Temos que ter consciência, segundo ela, de que "estamos vivendo uma pandemia que ameaça a vida, nossa segurança, nossa saúde, uma pandemia que expõe as desigualdades que temos, que testa todo esse modelo de produção, que é insustentável, que não teve a capacidade de cuidar da vida".

No meio da pandemia que estamos enfrentando, ninguém pode esquecer, segundo Dom Luis Infanti, "a relevância desta encíclica neste momento histórico da humanidade”, que insistia em dois elementos-chave: os pobres e o poder. De fato, o bispo de Aysén afirma que "a encíclica não é neutra, tem uma perspectiva dos pobres e, por essa razão, é uma perspectiva global e abrangente dos gritos que chegam a Deus". O prelado lembrou a importância dos encontros do Papa Francisco com os movimentos populares, onde denunciou "os sistemas político-econômicos que acreditam possuir a terra, os bens, os povos e até a consciência do povo", especialmente elementos como os ídolos, o consumismo e a cultura do descarte, o que nos leva a questionar-nos sobre nossas necessidades e desejos.

Diante disso, Luis Infanti insiste na conversão a que o Papa nos chama, que condena o antropocentrismo, defendendo a comunhão e a não agressão com os bens da terra e dos irmãos, bem como novos estilos de vida, valorizando a cultura indígena e promover uma revolução cultural. Isso deve superar as atuais estruturas de poder, que enfatizam a privatização, apropriação de bens essenciais, mercantilizar os bens, endeusar a economia, privando muitas pessoas desses bens, e não matando, lista o bispo, que afirma que "isso está crescendo seriamente em nossa sociedade atual”. Por esse motivo, somos desafiados a "exigir justiça, não perguntar, porque a justiça não é solicitada, é exigida, porque é um direito das pessoas e da Mãe Terra serem respeitadas em sua dignidade e valor como tais".

Vivemos uma crise de fundo espiritual, algo em que Mauricio López insistiu: "estamos doentes de mistério, perdemos a capacidade de admirar a beleza transcendente em tudo o que é criado", lembrando uma frase de Gabriel Marcel, que nos diz que "posses nos devoram”, promovendo a lógica de descartar e esvaziar a nós mesmos. Portanto, devemos estar cientes, de acordo com o Secretário Executivo da Rede Eclesial Pan-Amazônica, que "essa pandemia nos confronta com nossa pequenez, com nossa vulnerabilidade, com o compromisso ético de cuidar da criação". Isso deve trazer à nossa vida a ideia de Theilard de Chardin, que nos diz que "não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais tendo uma experiência humana", o que exige que redimensionemos todos os nossos relacionamentos dessa perspectiva transcendente, para nos perguntarmos onde está o essencial.

Em muitos espaços eclesiais a encíclica não foi assumida, eles a veem como uma encíclica verde. Diante disso, Mauricio López é franco, "hoje em dia você não pode acreditar em Jesus Cristo, em seu Reino de justiça, sem assumir total e profundamente o compromisso de cuidar da casa comum". Essa afirmação deve nos levar a refletir sobre a necessária transformação das estruturas do pecado, começando com Laudato Si, que ele define como "o texto mais importante de nossa geração para toda a humanidade", apesar da perda de prestígio a que foi submetida, assim como o Sínodo da Amazônia, filha de Laudato Si, criticada por muitos setores como um sínodo pagão, com interesses econômicos e políticos de alto nível por trás, que não querem que 1,3 bilhão de católicos assumam a defesa da casa comum.

No campo científico, Fernanda Salinas, nos faz ver que "colocar o crescimento econômico em primeiro lugar desencadeia essa crise, que gera pobreza", ao que debe se contrapor o "cuidado das pessoas e da natureza, respeitar a identidade de cada um, lutando contra a homogeneização que este mundo globalizado nos impõe”. Isso implica, segundo a bióloga, "reconhecer as visões locais dos povos originários, permitir a descolonização", promover uma ecologia da vida cotidiana, ecologia humana a partir do reconhecimento do próprio corpo, entender seu funcionamento e descobrir a necessidade de cuidar de nós mesmos, para cuidar dos outros. Também deve nos levar a questionar nosso papel no mundo: "o que queremos deixar para trás, qual é o significado de nossa própria existência?"

A situação em que vivemos deve nos levar a entender que "quando maltratamos a natureza, ela reage, na medida em que maltratamos a Mãe Terra, ela reage com essas saídas que afetam a todos nós", segundo o bispo de Aysén. Alguém que é um dos grandes defensores do acesso universal à água no Chile reconhece que "aqueles que não têm água são os mais afetados pelo coronavírus", algo que questiona nosso sistema político e econômico, nossa estrutura de poder. Nesse sentido, "esse vírus nos obriga a repensar o mundo que queremos construir", segundo Dom Luis Infanti, que vê a privatização da água como algo inaceitável no Chile, pois "isso significa pobreza e morte de muitas pessoas", o que exige de solidariedade.

A incerteza que nos faz viver essa pandemia é algo que deve nos questionar, segundo Fernanda Salinas, que afirma que "há muito tempo procuramos espremer a natureza, pensamos que a ciência nos torna capazes de dominar a natureza, mas essa crise nos faz ver que só entendemos algumas coisas sobre o funcionamento extremamente complexo da natureza”. De fato, de acordo com a professora, "a natureza deve manter uma certa integridade para manter seu papel regulador", o que exige "retornar à produção e consumo local, à autodeterminação local, perguntar-se sobre nossas motivações, olhar além, reconhecer que existem necessidades que outros têm e que não são atendidas. Isso deve nos interessar, resolver agora a desigualdade”, algo que se manifesta no exemplo da pandemia da fome que afeta parte da humanidade há muitos anos.

Um ponto fundamental para entender o Sínodo, Querida Amazônia e Laudato Si', é que a periferia é o centro, como afirmou Mauricio López. Nesse sentido, ele insiste que "tudo o que foi considerado descartável, em segundo plano, indesejável, agora se torna, e nada mais evangélico do que isso, como fonte de vida". O secretário executivo da REPAM destaca que “os povos indígenas, tantas vezes considerados atrasados, fora do progresso, que precisavam ser civilizados, colonizados, evangelizados de maneira impositiva, hoje se tornam uma fonte de vida, também diante da pandemia e da crise ambiental. "

Esses elementos estão reunidos na Querida Amazôna, que ninguém pode esquecer, Mauricio insiste, ela é magistério universal. Na análise dos sonhos, “a interculturalidade, se enriquecer a partir das culturas específicas, em diálogo que amplia o Mistério do Reino, o projeto de Deus”. Da exortação papal também decorre a necessidade de “comunidades cristãs em saída, em diálogo, que se encarnam e se comprometam na realidade”, embora, na realidade, Mauricio reconheça que estamos longe desses sonhos, o que exige uma “conversão abrangente , radical, uma metanoia”, como algo que surge do Sínodo.

Em uma sociedade em que "somos manipulados pela propaganda para ser um consumidor, mais do que uma pessoa", na opinião de Luis Infanti, somos desafiados a "ser um exemplo de vida, de conversão, facilitar a conscientização, exigir, não pedir, mudanças estruturais em diferentes níveis”. O bispo recolhe as palavras do Papa Francisco, que "nos chama para sermos protagonistas", algo que, segundo o bispo Infanti, foi visto no Sínodo da Amazônia, que ele vê como "um exemplo de metodologia, conteúdo e participação significativa de nossos comunidades”.

Esse momento em que vivemos deve nos levar a entender, de acordo com Mauricio López, que "queríamos estabelecer um modelo único de desenvolvimento, de consumo, que excede a capacidade de regenerar o planeta, hipotecando as gerações futuras, hipotecando os ativos da Criação". A razão para tudo isso é que os interesses de muito poucos foram impostos e isso é percebido mesmo neste período de pandemia, com leis que favorecem os poderosos. Por esse motivo, o secretário executivo da REPAM considera essencial "voltar aos princípios de redistribuição, reciprocidade e solidariedade, à feliz sobriedade proposta por Laudato Si', o que precisamos para viver e para que outros possam viver".

Um dos desafios que o mundo de hoje apresenta em referência a essas questões é como tornar essa mensagem atraente para crianças e jovens. Diante disso, Fernanda Salinas destacou a importância da educação e a necessidade que todos temos de aprender muitas coisas. A professora afirmou que "a educação foi segmentada, carece de abrangência", o que exige, em sua opinião, "aprender com a experiência, educar os profissionais para que eles possam mudar o mundo, e não para se colocar a serviço das corporações transnacionais, transformando desde nossa vida cotidiana".

 

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