Os Acrobatas. Vinicius de Moraes na oração inter-religiosa desta semana

Foto: Unsplash

08 Mai 2020

Neste espaço se entrelaçam poesia e mística. Por meio de orações de mestres espirituais de diferentes religiões, mergulhamos no Mistério que é a absoluta transcendência e a absoluta proximidade. Este serviço é uma iniciativa feita em parceria com o Prof. Dr. Faustino Teixeira, teólogo, professor e pesquisador do PPG em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora – MG.

Os Acrobatas

Subamos!
Subamos acima
Subamos além, subamos
Acima do além, subamos!
Com a posse física dos braços
Inelutavelmente galgaremos
O grande mar de estrelas
Através de milênios de luz.

Subamos!
Como dois atletas
O rosto petrificado
No pálido sorriso do esforço
Subamos acima
Com a posse física dos braços
E os músculos desmesurados
Na calma convulsa da ascensão.

Oh, acima
Mais longe que tudo
Além, mais longe que acima do além!
Como dois acrobatas
Subamos, lentíssimos
Lá onde o infinito
De tão infinito
Nem mais nome tem
Subamos!

Tensos
Pela corda luminosa
Que pende invisível
E cujos nós são astros
Queimando nas mãos
Subamos à tona
Do grande mar de estrelas
Onde dorme a noite
Subamos!

Tu e eu, herméticos
As nádegas duras
A carótida nodosa
Na fibra do pescoço
Os pés agudos em ponta.

Como no espasmo.

E quando
Lá, acima
Além, mais longe que acima do além
Adiante do véu de Betelgeuse
Depois do país de Altair
Sobre o cérebro de Deus

Num último impulso
Libertados do espírito
Despojados da carne
Nós nos possuiremos.

E morreremos
Morreremos alto, imensamente
Imensamente alto. 

 

Fonte: Vinícius de Moraes. In: Eucanaã Ferraz (Org). Vinícius de Moraes. v. 1 – Música, poesia, prosa e teatro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017, p. 193-194

Vinicius de Moraes nos anos 1970 (Foto: Ricardo Alfieri | Wikimedia Commons)

Vinicius de Moraes (1913 - 1980): Famoso por sua presença na Música Popular Brasileira - MPB, além de músico, foi poeta, dramaturgo, jornalista e diplomata fluminense. Sua poesia é marcada pelo lirismo, já em 1932 publicou seu primeiro poema, “A transfiguração da montanha”, na revista A Ordem. Seu primeiro livro vem logo em seguida, em 1933, com a obra O caminho para a distância. Entre 1934 e 1955 trabalha em diversos jornais e atua em cargos diplomáticos representando o Brasil, além de publicar outros livros. 1956 é marcado como o ano em que conhece seu maior parceiro musical, Antônio Carlos Jobim, com quem, dois anos depois, lançaria um dos mais importantes movimentos musicais brasileiros, a Bossa Nova. O lançamento do álbum Canção do Amor Demais marca o período. Com Tom Jobim escreveu e musicou diversas letras, mas a mais famosa de todas é Garota de Ipanema. Outro grande parceiro musical foi o cantor e compositor Toquinho, com quem lançou diversos álbuns durante sua última década de vida. 

 

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