“A pandemia mudará a ordem e o sistema mundial, nossa tarefa é tentar que seja para melhor”. Entrevista com Augusto Zampini, da Comissão Vaticana Covid-19

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05 Mai 2020

A pandemia de coronavírus nos dá a oportunidade de ver a “Igreja que sai, que arregaça as mangas e se suja de barro, para dar esperança, abraçando a todos, especialmente aos mais pobres”. Esse é o desejo de Augusto Zampini, membro da comissão criada pelo Papa para estudar o “dia depois” da pandemia, quem em entrevista convoca a “colocar todas nossas forças em um novo mundo, mais justo, solidário e sustentável”.

A entrevista é de Hernán Reyes Alcalde, publicada por Religión Digital, 04-05-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis a entrevista.

 

Como o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano reagiu a esta pandemia?

Sob o auspício do Santo Padre e a liderança do cardeal Turkson, o Dicastério criou a Comissão Vaticana Covid-19 para responder, desde nossa fé e tradição social à pandemia, e também para antecipar as consequências socioeconômicas e político-culturais. A comissão, que é multidisciplinar e na qual trabalham distintos organismos da Santa Sé, está composta por cinco grupos de trabalho.

O primeiro grupo, em colaboração com a Cáritas Internationalis, interatua com as igrejas locais para entender como estão reagindo e quais são suas necessidades mais urgentes, proporcionando algum gesto simbólico de caridade em nome da Santa Sé. O Grupo de Trabalho 2 ocupa-se da análise sobre o mundo pós-Covid-19, levando em conta a dimensão ecológica, econômica (particularmente o trabalho), os sistemas de saúde, e a segurança (nacional, cibernética e alimentar), e alimenta os demais grupos com sua reflexão e linhas de ação concretas. Esse grupo colabora com a Academia Pontifícia para a Vida e para as Ciências junto com diversas organizações e especialistas que já cooperam com o Dicastério. O terceiro grupo, coordenado pelo Dicastério para a Comunicação, ocupa-se de informar sobre o trabalho da comissão. O quarto grupo, coordenado pela Secretaria de Estado, ocupa-se das relações com os países e os organismos internacionais. O quinto grupo encarrega-se de buscar financiamento para apoiar o trabalho da Comissão e a ajuda às igrejas locais.

Estamos trabalhando contra o relógio e na elaboração de propostas concretas para ajudar a mitigar as consequências mais urgentes da pandemia e a configurar o pós-Covid, futuro que se inicia agora e estará condicionado pelas decisões que tomaremos hoje. Queremos ajudar a todos os que tomam decisões, para poder juntos construir um mundo mais saudável, com gente saudável, instituições saudáveis e um planeta saudável.

Crês que é uma oportunidade global para colocar em prática essa “Igreja em saída” que clama o papa Francisco?

Sim, é uma oportunidade para a Igreja se tornar mais presente e acompanhar o mundo em meio a tantos sofrimentos: é a Igreja que sai, arregaça as mangas e se suja de barro, para dar esperança, abraçando a todos, principalmente os mais pobres. Como o Santo Padre afirma em Querida Amazônia, a Igreja não deve se retirar para sua própria identidade ou temer a interação intercultural e religiosa ou a conversão eclesial que eles possam produzir. Hoje queremos ajudar a enfrentar e superar essa multiplicidade de crises, saúde, econômico-social e político-cultural, com nossa fé e o melhor de nossa tradição, mas junto com a ciência, movimentos sociais e órgãos públicos em todo o mundo. A pandemia é terrível, mas traz consigo a oportunidade de construir uma sociedade mais inclusiva, pacífica e sustentável.

Mais além das consequências tremendas em termos sanitários, o mundo do trabalho sofrerá também consequências que, em forma momentânea, a OIT estimou no equivalente à perda de 195 milhões de postos de trabalho no mundo. Quais são as linhas de ação que pode assumir o Dicastério nessa direção?

As linhas propostas pela Comissão em estudos e análises sérias, vão desde sugestões a organizações ou nações internacionais, até diretrizes de ação para a Igreja, sempre considerando as particularidades de cada região do planeta. O grupo de economia está atualmente trabalhando no tema do trabalho, analisando-o sob diferentes ângulos. Partimos de quem são os grupos mais vulneráveis e afetados pela crise do coronavírus e depois estudamos quais ferramentas – em questões financeiras e provisão de serviços, por exemplo – podem ser disponibilizadas para superar a pandemia, como a redução ou cancelamento de dívidas ou algum mecanismo salarial básico universal.

Mas o grupo também trabalha no problema sistêmico da economia atual, como a desigualdade, ou uma economia baseada em valores financeiros distantes dos valores sociais, ou uma economia que incentiva o crescimento que causa danos irresponsáveis ao meio ambiente, hipotecando o futuro de todos. A recuperação da pandemia deve incluir a geração de empregos, é claro, mas é hora de gerar empregos “geradores” de vida, de vida digna para quem trabalha, de vida saudável para o resto e para a criação. E sim, se pode. Nada de nos deixarmos ser vencidos pela tentação de acreditar que isso é utópico. Estudos científicos, econômicos e sociopolíticos mostram que isso pode ser feito. Existem também iniciativas concretas. Requer apenas a união de forças para despertar desse pesadelo do coronavírus e colocar todas as nossas forças em um novo mundo mais justo, cuidadoso e sustentável.

No mundo afloram tanto reações de solidariedade entre países, com envios de ajuda humanitária às vezes de um continente a outro, com outras posturas mais do estilo “salve-se quem possa”. Segundo sua opinião, temos que pensar em que a pós-pandemia produzirá mais reações de solidariedade ou fomentará a construção de mais pontes que muros?

Sem dúvida, a pandemia de covid-19 mudará a ordem e o sistema mundial. Nossa tarefa é tentar que seja para melhor. Antes do início da crise, já era evidente um cenário mundial complexo, contrário ao multilateralismo e favorável aos nacionalismos, mais muros e menos pontes; o risco é que estes se tornem mais agudos.

É verdade que em uma crise sempre surgem os piores e os melhores. Estamos testemunhando muitos gestos de solidariedade, tanto de indivíduos como de organizações e países. Muitas pessoas, com o distanciamento social, estão descobrindo o quanto precisamos de nossos relacionamentos. As pessoas estão mais conscientes de seus vizinhos que moram sozinhos, dos idosos que não podem ir às compras, daqueles que trabalham para nós para manter nossa sociedade funcionando, especialmente os profissionais de saúde. Muitos outros estão redescobrindo o valor da natureza, mesmo aqueles que vivem nas grandes cidades – ouvimos o canto dos pássaros, respiramos um ar mais puro, vemos pequenos animais retornando sem medo. Países inteiros preferiram priorizar a saúde de seus cidadãos sobre outros valores, algo muito nobre.

Todos esses gestos nos dão esperança, não devemos subestimá-los. A força do amor é sempre mais forte que a do ódio. E o amor e a solidariedade também são contagiosos. Como o papa Francisco disse em sua mensagem de Páscoa, não é hora de indiferença, divisão, egoísmo ou esquecimento, porque o mundo inteiro está sofrendo e devemos nos unir para enfrentar esta crise. Daqui, não sairemos se não for juntos.

A pandemia de coronavírus encontra o Dicastério durante uma importante produção teórica, acumulada pelas experiências em Davos e outros foros, e de cara ao encontro sobre a “Economia de Francisco” que seria realizado em março, na cidade de Assis. Em relação também com a pergunta anterior, pensas que a pandemia gerará uma oportunidade de pensar em concretizar algumas dessas abordagens?

Claro, a pandemia revelou as fraquezas e desigualdades inerentes em nossas estruturas sociais e econômicas que foram discutidas repetidamente em fóruns como os mencionados, o que aumenta nossa urgência em erradicá-las. Como o Papa disse em sua mensagem em 27 de março: “A tempestade desmascara nossa vulnerabilidade e revela aquelas garantias falsas e supérfluas com as quais construímos nossas agendas, nossos projetos, rotinas e prioridades”. Em Davos 2020, houve muita conversa sobre a transição de uma economia de “shareholders” (acionistas que procuram dividendos) para uma das “stakeholders” (um crescimento que leva em consideração todos os agentes afetados por uma determinada atividade econômica). Muito se falou da transição energética, de uma economia baseada em combustíveis fósseis para uma baseada em energia renovável. Agora é a hora de ajudar essas “etapas” ou transições a ocorrer. É hora de mais ação e menos discussão. É hora de começar esta década de mudanças radicais e sistêmicas, para o bem da humanidade e das gerações que nos seguem. Os jovens que iam ao encontro da Economia de Francisco estão trabalhando plenamente nessas questões, contribuindo com suas ideias e paixão por uma economia inclusiva e que respeite a Casa Comum.

Em razão da liderança moral que exerce o papa Francisco no mundo, reforçada nesses momentos, segundo a maioria dos analistas a partir do silêncio de muitos organismos multilaterais e de blocos regionais, crês que é o Vaticano um ator com poder para se sentar para falar “de igual para igual” com os poderes fáticos econômicos (privados, estatais ou empresariais) para tratar de impulsionar a “economia para servir”?

Historicamente, a Igreja tem promovido a cooperação internacional e exercido alguma liderança moral no mundo. Por exemplo, o papel da Igreja ajudou a impedir guerras (por exemplo, a da Argentina e do Chile na década de 1970) ou a defender os trabalhadores explorados na primeira revolução industrial. Hoje temos a liderança de Francisco, que é muito importante, tanto que muitas pessoas, dentro e fora da Igreja, querem colaborar e apoiar para criar uma economia que sirva e não mate. A luta contra o vírus nos ajuda a valorizar a vida e, portanto, nossas atitudes, instituições e sistemas (incluindo o econômico) devem – e podem – se concentrar em privilegiar o valor da vida. A Comissão do Vaticano para a Covid-19 certamente tentará gerar sinergias entre vários atores sociais ao redor do mundo para promover o bem comum.

A pandemia, e a de algum modo “reconstrução” que poderia gerar em algumas relações a nível global, parece ser também uma oportunidade para incorporar a todo o debate econômico que virá, de uma vez por todas, a faceta ambiental, seguindo a linha da “integralidade” que marca o Santo Padre desde Laudato Si’. Crês que é o momento de incorporar essa visão?

O tempo que vivemos se apresenta para nós como uma oportunidade para promover a “ecologia integral”, explicada na Laudato Si’, isto é, para abordar integralmente o que está unido, os temas sociais e ambientais. A atual não é somente uma crise de saúde, mas também uma crise econômica, ecológica, de segurança – alimentar, ciber-segurança – e política. E por ser uma crise integral não há uma simples solução. O único modo de abordá-la é reconhecendo sua complexidade e, portanto, fazê-lo de maneira integral. Se a resposta à covid não emerge desde uma metodologia e perspectiva integral, seguramente nos esperam mais crises similares a esta até que aprendamos a nos cuidar a e a cuidar da Casa Comum. Há esperança. O povo está compreendendo que se pode viver de forma simples, e que as mudanças radicais são possíveis – tanto que países inteiros se fecharam. Também estamos compreendendo que nosso destino depende da saúde do ecossistema global. Uma família global saudável requer um planeta saudável. E gente saudável em um planeta saudável pode desenhar ou moldar instituições saudáveis. A problemas novos, soluções novas: vinho novo em odres novos, diz a Bíblia. A ecologia integral é um desses odres novos.

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