‘Papa forasteiro’ enfrenta resistência enquanto tenta reformar a Igreja, diz autor

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30 Abril 2020

Qualquer que seja a nossa opinião sobre o Papa Francisco, todos concordamos que o termo “disruptor” aplica-se a ele.

Em seu novo livro, intitulado Outsider: Pope Francis and His Battle to Reform the Church (Forasteiro: o Papa Francisco e sua batalha para reformar a Igreja, em tradução livre), Christopher Lamb sustenta que muitos dentro do próprio Vaticano resistem às iniciativas do papa de transformar a maneira como a Igreja funciona.

Livro 'Outsider: Pope Francis and His Battle to Reform the Church'

Correspondente em Roma da revista católica inglesa The Tablet, Lamb diz que muitos dos críticos de Francisco “o consideram político demais e [o veem] como se estivesse afastando a Igreja da defesa de certos ensinamentos morais”.

“Os ataques teológicos contra Francisco estão cada vez mais politizados, junto daqueles que manifestam preocupações doutrinárias quanto ao magistério do papa, pessoas em geral alinhadas com pautas políticas nacionalistas contrárias a tudo o que este pontificado representa”, disse ele a Crux.

No entanto, Lamb explica que não podemos definir Francisco com base nas categorias dos movimentos políticos contemporâneos.

“Para os progressistas, Francisco é demasiado conservador, para os conservadores, ele é demasiado progressista. O papa é um jesuíta antiquado que não pode ser posto dentro de uma categoria fechada”, disse ele.

A entrevista é de Charles Collins, publicada por Crux, 29-04-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis a entrevista.

Você escreve que “Francisco não foi eleito, como alguns dizem erroneamente, para reformar a Cúria Romana, mas para uma missão bem mais ampla, e as suas iniciativas devem ser interpretadas sob a perspectiva das reformas do Concílio Vaticano II (…) que definiram a missão da Igreja contemporânea”. Embora, sem dúvida, Francisco esteja buscando uma conversão missionária, com certeza há ainda muitas reformas institucionais práticas necessárias, não?

Sim, há. Mas o papa quer que todas as reformas institucionais venham sob a bandeira da conversão missionária. Para que alguma reforma seja eficaz, é preciso haver uma visão clara, para que ela se incorpore à cultura interna. Penso ser aqui onde Francisco tem concentrado grande parte do seu foco, e não em mudanças superficiais.

Um fator-chave na eleição de Francisco foi o seu discurso aos cardeais antes do conclave, advertindo contra uma Igreja “autorreferencial”, onde Jesus está trancado pelo lado de dentro e pede para ser libertado. Jorge Bergoglio não se elegeu porque os cardeais queriam um novo líder para a equipe de gerenciamento das mudanças na Cúria Romana, mas porque desejavam um Sucessor de São Pedro que representasse um comando convincente à Igreja no início do terceiro milênio.

Dito isso, não acho que o foco missionário de Francisco possa ser usado como desculpa para ignorar as reformas práticas e institucionais – ainda há muito a fazer. Vejo esse papado como uma jornada inacabada: o pontificado de Francisco está preparando a pista para que o avião da evangelização missionária no século XXI possa, de fato, decolar.

A seu ver, grande parte da resistência a Francisco vem dos países de língua inglesa. Por que isso?

Alguns acham difícil se adaptar ao “Papa Disruptor”, do sul global, que tem um estilo informal e se dispõe a contornar o protocolo. As missas matinais deste papa, na Casa Santa Marta, onde elabora diagnósticos com palavras duras sobre os males da Igreja, também perturbaram certos setores do mundo católico de língua inglesa.

Penso que muitos se esforçam para conectarem-se com Francisco, mas desanimam por com sua defesa franca dos migrantes e seu foco na proteção do meio ambiente. Eles o consideram político demais e como se estivesse afastando a Igreja da defesa de certos ensinamentos morais.

A maior parte desta resistência vem dos establishments clericais e não clericais, grupos determinados a enfraquecer o atual pontificado. Estas pessoas se sentem excluídas dos espaços de poder e incapazes de influir nas tomadas de decisão da Igreja, como faziam no passado.

Os ataques teológicos contra Francisco estão cada vez mais politizados, junto daqueles que manifestam preocupações doutrinárias quanto ao magistério do papa, pessoas em geral alinhadas com pautas políticas nacionalistas contrárias a tudo o que este pontificado representa.

Embora os maiores apoiadores de Francisco tenham vindo da ala “progressista” da Igreja, ele às vezes os decepcionou. O papa fez isso recentemente, quando não levantou a bandeira da ordenação de mulheres ou da ordenação de homens casados em seu documento após o Sínodo para a Amazônia. Por que acha ser tão difícil classificar Francisco nestas categorias?

Para os progressistas, Francisco é demasiado conservador, para os conservadores, ele é demasiado progressista. O papa é um jesuíta antiquado que não pode ser posto dentro de uma categoria fechada. Num momento, Francisco chama os sem-teto para uma visita privada ao redor da Capela Sistina, no momento seguinte anota os seus problemas em um pedaço de papel e os põe sob a estátua de São José dormindo. Ele representa a ideia do “tanto uma coisa quanto outra” do catolicismo, ao combinar uma missão junto aos marginalizados com o amor da piedade popular.

No livro, há uma avaliação bastante positiva destes sete anos de papado. Porém, você tece críticas quando se trata da maneira como Francisco lidou nos casos de abusos sexuais clericais, especialmente no caso do Chile. Por que acha que ele errou aqui?

Acho que o papa demorou a encarar o problema, enquanto o seu estilo de governança o tornou vulnerável aos abusos e à obtenção de informações precárias. Contornar os filtros institucionais é o que faz Francisco ser popular, mas nos casos de abusos sexual clericais e de encobrimento potenciais, seguir os procedimentos claramente definidos é de importância crucial.

Há alguma outra área onde acha que Francisco pode melhorar?

O grande desafio é traduzir a visão reformista deste pontificado em estruturas, procedimentos de rotina e normas canônicas. Muito se alcançou, mas precisamos ver mais mulheres em postos de liderança, enquanto a reforma das finanças vaticanas é uma batalha em curso. Francisco quer que a Cúria Romana esteja a serviço do papa e dos bispos ao redor do mundo: ele tem conseguido, mas precisa de tempo.

A seu ver, qual o objetivo de longo prazo daqueles que você descreve como resistentes a Francisco?

Não sei se existe um plano estratégico, mas alguns já manifestaram o desejo de tentar remover Francisco de seu ofício, enquanto outros querem frustrar este seu pontificado para que ele seja julgado como um fracasso. O objetivo é garantir que o próximo conclave eleja um papa que volte atrás na direção dada por este pontificado, ou que desacelere tudo. No entanto, o problema para os que resistem é que atacar um papa, de forma pública e incisiva, acaba se tornando um ato de automutilação clerical, já que enfraquece o ofício papal.

O papa forasteiro, como você o descreve, deu a entender que a Igreja não pode sair desta pandemia da mesma forma como era antes, seja em termos espirituais, seja em termos institucionais. O que acha que ele quer dizer com isso?

A Covid-19 acrescentou uma urgência à visão do papa, de uma Igreja que sai da zona de conforto da sacristia e vai para o mundo. Penso que esta pandemia verá uma mudança nas estruturas eclesiais e um foco no essencial para a missão de difundir o Evangelho. Francisco disse que uma instituição diferente surgirá, uma instituição mais estreitamente moldada nas primeiras comunidades cristãs, conforme descrito nos Atos dos Apóstolos.

Para o papa, não é um jogo de números. Acho que, em alguns países, veremos uma Igreja menor, institucionalmente, mas também sendo uma testemunha mais eficaz: uma minoria criativa, como diz Bento XVI. Dada a devastação econômica causada pelo coronavírus, uma Igreja pobre para os pobres pode se colocar ao lado dos mais afetados por essa catástrofe. Chamo Francisco de “o papa forasteiro”, porque ele associou o seu papado a pessoas de fora – aquelas que foram deixadas nos lixões da vida.

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