A religião necessita atualizar sua imagem de Deus, e deixar de responder com procissões ou outras rogativas. Artigo de Andrés T. Queiruga

Foto: Pixabay

30 Abril 2020

“O mal não é castigo, mas sim a passagem inevitável do crescimento em toda existência finita”, escreve Andrés Torres Queiruga, teólogo espanhol, em artigo publicado por Religión Digital, 28-04-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

De repente, um pequeno vírus sacode o mundo, transformando todos (pan-) em um único povo (-demos): pela primeira vez, uma “aldeia global”. Sacode os pilares, fazendo com que caiam, um por um, casas de papel, títulos ocos, preocupações superficiais. Descobre também o fundo mais verdadeiramente humano na inesperada explosão de generosidade fraterna que nos une diante do sofrimento e da morte. Impõe o reino do que a psicologia chama de princípio da realidade e, a milênios atrás, a Bíblia descreveu como a tentação de querer ser como Deus. Com uma diferença, a psicologia, pelo menos alguma psicologia, nos deixa indefesos contra o instinto de morte: o livro de Gênesis acende uma esperança de salvação para o futuro.

Mas a esperança, como Péguy sabia, é uma menina pequena e fraca. Precisa de cuidados. A humanidade está em uma encruzilhada onde tem uma nova oportunidade de aprender. A modernidade, em seu entusiasmo emancipatório, criou maus hábitos, típicos de toda a adolescência: os jovens, carregados de razão em protesto, exageram no que propõem; os antigos defendem um passado expirado, mas preservam valores que não devem ser abandonados (o último livro de Habermas, Auch eine Geschichte der Philosophie, com mais de 1.700 páginas, insiste nisso com a sabedoria dos noventa anos). Falando de teologia, isso implica que, diante do desafio do mal, todos, tanto a tradição religiosa quanto o protesto ateu, precisam aprender.

 

O que é urgente é unir-se na luta: através do diálogo crítico nas interpretações, aproveitando o que une na prática, antes de chegar a diferenças na teoria. Felizmente, os seres humanos são complexos, e muitas vezes praticamos o que ainda não sabemos. E algo novo está acontecendo. Na saúde, nos serviços, no ensino, na vizinhança... assistimos a um trabalho unido e conjunto, sem cartões de festa ou cartões de batismo, sem distinção de sexo e mesmo sem fronteiras na pesquisa. Perder-se em ataques ou acusações, transformar o mal em apologética defensiva ou acusar a “rocha do ateísmo”, representa uma reação estéril.

 

Além disso, reação culturalmente anacrônica. Porque as posições atuais participam, conservadoras e progressistas, no mesmo preconceito acrítico: acreditar na possibilidade de um mundo sem mal. Hoje sabemos que isso nada mais é do que um mito obsoleto, que sonha religiosamente com paraísos primitivos e freudianos com fantasias infantis de onipotência. Fora dos argumentos a favor ou contra a teodiceia, hoje todos sabemos que o mal é um produto inevitável de um mundo necessariamente finito.

 

Os filósofos sabem que, com Spinoza, eles ensinam que “toda determinação é uma negação” e, com Hegel, que a contradição é a lei de toda realização finita. E o senso comum sabe disso, ensinando que você não pode saborear, assar ou fazer tortilhas sem quebrar os ovos.

Ao não perceber, coloca-se, pelo pré-moderno, a armadilha invisível do famoso dilema de Epicuro: ou Deus pode e não quer, e então ele não é bom; ou ele quer e ele não pode, e então ele não é onipotente ... Mas se o mundo-sem-mal é um conceito impossível e contraditório, tirar conclusões dele seria equivalente a dizer que Deus não é bom porque ele não quer fazer círculos quadrados ou não é onipotente porque não produz ferros de madeira.


Imagem: Pixabay

Quando essas evidências são explicitadas, é tão anacrônico continuar acreditando em Deus admitindo que, se ele quisesse, poderia acabar não apenas com o coronavírus, mas com todo o sofrimento do planeta, como negar sua existência, apesar de reconhecer a autonomia do mundo e sabendo que tudo o que acontece nele sempre tem uma causa intra-mundana. A religião precisa atualizar sua imagem de Deus e parar de responder com procissões ou súplicas, que só fazem sentido supondo que um mundo-sem-mal seja possível. Pela mesma razão, o ateísmo precisa ser consistente e não negar a Deus, porque não interfere nas leis físicas ou não controla a liberdade humana.

Dar esse passo tem consequências importantes, claras para o nível prático, mas mais sombrias para o significado da vida e da história. No primeiro, estamos progredindo. Hoje o mundo é iluminado por uma onda quase gravitacional de solidariedade fraterna que une a nós todos contra o mal, o inimigo comum. Lição difícil, mas lição.

 

As diferenças aparecem no outro nível. Quem não acredita em Deus tem diante de si a tarefa de configurar sua vida e dar-lhe significado na simples imanência. Nele podemos vencer o coronavírus; mas devemos contar com o fato de que o mal continuará presente com outras faces, incluindo a última: a morte, “mestre absoluto”, de que Hegel falou.

 

Quem acredita em Deus tem a tarefa urgente de atualizar sua imagem. Um Deus que cria por amor e vive dedicado à sua criação, mas com uma presença que não pode ser evidente, porque funda e promove sem interferir, respeitando a autonomia das criaturas: a das leis físicas (Whitehead fala lindamente de Deus e "Poeta do mundo") como acima de tudo, as da liberdade.

 

O Evangelho, moldando a mais profunda saudade do coração humano, consiste em propor a descoberta de que Deus, porque ele é capaz de nos criar do nada, também tem o poder de não nos deixar cair, resgatando-nos da morte, tornando-nos assim o “último inimigo” a ser derrotado. Enquanto isso, acompanha ao longo do caminho: a história não é prova, mas condição de possibilidade de existência; e o mal não é castigo, mas o inevitável pedágio de crescimento em toda a existência finita.

A esperança é possível, apesar do mal. E a humanidade tem o direito de se sentir acompanhada. Também em Whitehead encontrei palavras que eu gosto e que valem a pena citar neste momento especialmente necessitado: “Deus é o grande companheiro, o camarada no sofrimento, aquele que entende”.

 

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