Bolsonaro tem medo de si mesmo

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24 Abril 2020

"Bolsonaro é o inimigo número um de si mesmo. Sua presença destila o tempo todo violência, confronto e agressividade", escreve pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM. 

 

Eis o artigo.

 

O presidente Jair Bolsonaro tornou-se um verdadeiro vírus no trágico contexto da pandemia Covid-19, em nível global. O capitão tem medo de ficar só, de se encontrar com os próprios fantasmas espectrais. Tem um medo instintivo da quarentena, ou seja, do deserto, do silêncio e da solidão. Na medida em que vive provocando ruídos no próprio governo, teme encontrar o rumor estridente que grita no próprio íntimo. Isso que explica sua incapacidade absoluta de permanecer algumas horas a sós consigo mesmo. Teme o encontro com o ruído da inveja, do ciúme e da intriga que habita o seu coração; teme defrontar-se com o pensamento hostil e belicoso que atormenta a sua mente; teme dialogar com as emoções raivosas e contraditórias que ocupam sua alma. Bolsonaro é o inimigo número um de si mesmo. Sua presença destila o tempo todo violência, confronto e agressividade.

Toda pessoa acometida por esse gênero de sentimentos adversos, escrava mesmo de uma postura sempre combativa e à flor da pele, torna-se para si mesmas a companhia mais inoportuna e insuportável. Efetivamente, não é fácil conviver com as sombras criadas por uma imaginação doentia, que vê perseguição em cada esquina e em cada opositor. Jornalistas e opositores críticos, ambientalistas e ativistas em ação, renomados expoentes da ciência e da pesquisa, professores e estudantes acadêmicos, até mesmo seus colaboradores imediatos que porventura tenham se destacado na função a que foram chamados – em geral aparecem todos como comunistas e esquerdistas, espectros a serem banidos do mapa, porque “viram estrelas e estão se achando”, mas “minha caneta funciona”.

E tudo isso num momento histórico em que o muro de Berlim foi demolido há mais de três décadas. Desse convívio fantasmagórico e obcecado, decorre que o conceito de deserto, retiro silencioso e solitário – ou isolamento social – representa uma coisa intolerável para o chefe supremo da nação. Não é à toa que, com frequência inusitada, ele tem que relembrar com insistência: “Eu sou o presidente, tenho mais 50 milhões de votos, a última palavra é minha”! Quando o presidente precisa, a todo instante, afirmar e reafirmar sua autoridade, é porque no fundo já a perdeu. A verdadeira autoridade dispensa o autoritarismo. Este último, aliás, se impõe com a força bruta apenas e tão somente, tentando dissimular a ausência de uma governabilidade séria, sólida e serena. São as atitudes, não os gritos, que conferem autoridade. A mera imposição autoritária é sinal da falta de razão ou do desvario.

Voltando, porém, ao terror de Bolsonaro diante da possibilidade de encontrar-se com a própria imagem, ele precisa evitar isso com todas as ferramentas de que dispõe. Em primeiro lugar, torna-se imperativa a necessidade de uma presença continua dos outros junto ao nosso capitão, sejam esses outros amigos ou inimigos, partidários ou opositores. Os outros, em ambos os sentidos, consciente ou inconscientemente, cumprem um serviço duplo e dúbio ao presidente que é incapaz de ficar só. Por um lado, podem servir para uma manifestação de apoio (seria mais exato falar de bajulação) entre os companheiros incondicionais da ideologia de extrema direita. Por outro lado, servem para manter acesa a chama do combate com os adversários a serem abatidos, sempre de armas em punho e com muito barulho e agressividade.

Essa absoluta necessidade da presença dos outros, portanto, tem claramente duas direções, aparentemente opostas, mas complementares. De uma parte, Jair Bolsonaro criou e nutre uma espécie de “bolha do ódio” junto ao Planalto. Na medida em que destila e respira o veneno da agressividade permanente, a “bolha do ódio” precisa cultivar inimigos, da mesma forma que uma pessoa melancólica cultiva mágoas, ou como um colecionista cultiva borboletas, quadros, flores, armas, selos, animais, e assim por diante. Dessa bolha fazem parte, além do clã familiar, os partidários mais radicais, da direita saudosista e plasmados pela ideologia do nacionalismo populista. As redes sociais, e às vezes a rua, são os lugares privilegiados para as acusações e os combates. Não suportando olhar-se no espelho da própria vida, cada um desses fanáticos, cego e surdo ao contexto histórico e aos fatos e números, se apoia no outro para escapar do encontro com a realidade que o circunda e com a própria personalidade mórbida. No fundo, dá até para entender a obsessão perversa e nociva pelo confronto e pelo duelo sem tréguas. Afinal, não é fácil conviver, dia-a-dia ou minuto a minuto, engolindo a própria saliva envenenada. Se a pessoa em questão não o injetar o veneno em alguém ou não contaminar outros, ele tende a corroer as próprias entranhas e, ao fim e ao cabo, o infectado por esse vírus do ódio raivoso pode se afogar nesse lago turvo, torvo e pantanoso.

Daí a imperativa necessidade de criar uma válvula de escape. E então, vale tudo para fugir dos acontecimentos e de si mesmo: fake news, conspiração, difamações, ataques repetitivos, insultos, rebeldia gratuita e infantil e, de forma particular, a mentira. Ou melhor, no plural, as mais deslavadas e infundadas mentiras. A linguagem, além disso, costuma ser chula, rasteira, tosca, vulgar, sem qualquer respeito pelo opositor. Ao contrário, com ou sem fundamento, o mais importante é desqualificar quem pensa diversamente. No conflito aceso, o grito prevalece sobre o bom senso. A paixão desmedida e o instinto imediato, irracional, se sobrepõem ao diálogo, bem como a todo tipo de argumento. A “bolha do ódio” não hesita em atropelar os princípios fundamentais da moral, da ética e de toda e qualquer boa vizinhança. Entra em cena um fanatismo diabólico, o qual, ao longo da história, às vezes com o apoio desta ou daquela religião, acabou por revelar-se letal para milhões e milhões de pessoas. Predomina o dualismo maniqueísta entre os “bons” e os “maus”, os “nossos” e os “outros”, os de “dentro” e os de “fora”, os “fiéis” e os “infiéis” – o que pode levar a um processo de limpeza étnica, política, ideológica ou religiosa, quando não a uma aberta e absurda guerra santa.

Por outra parte, essa válvula de escape, de dentro para fora da bolha, não é suficiente. Quem se nutre de ódio necessita de espaço livre para espalhá-lo. Impossível viver sem inimigos. Se não existem, precisa criá-los. De resto, o inimigo externo também serve para escapar da imagem perturbadora refletida pelo espelho pessoal distorcido. Basta verificar, no decorrer dos séculos, quantas guerras foram inventadas para driblar a pressão dos opositores internos. Isso mesmo, os habitantes da “bolha do ódio” precisam, a todo custo, de uma guerra contínua. Não somente no tempo das eleições, mas também depois. De modo particular, a partir do momento em que o candidato toma posse da Presidência da República.

Tanto é verdade que o capitão, já instalado no Planalto, não consegue fazer o que quer e o que bem entende. Ou o que quer seu clã familiar e partidário. Em vez disso, tropeça o tempo todo, batendo de frente com os canais, instrumentos e mecanismos da democracia. Daí a obsessão pela “intervenção militar”, por um novo AI-5. A agressão torna-se o combustível de sua prática governativa. Os ataques não podem parar. A consciência irrequieta e cheia de veneno só é capaz de encontrar alguma calma em uma atitude continuamente belicosa. Impõe-se um dilema: ou a briga sem tréguas, como a de uma criança emburra e chantagista, ou o encontro com a realidade e consigo si mesmo. Mas este último, como vimos, causa terror e deve ser evitado. O enigma permanece: impossíveis a serenidade e a paz de espírito!

As contradições internas geram uma ambiguidade ímpar, e esta conduz a um contorcionismo imprevisto e imprevisível no modo de governar. O campo de batalha é conditio sine qua non, seja para fugir de si mesmo e do real, seja para lograr algum momento de paz. Mas uma paz sempre contaminada pelo vírus de ódio! Paz que nada ter a ver com atitude de abertura, de encontro e de diálogo. Em consequência, não pode trazer mudança e crescimento pessoal. Não se trata de quietude e contemplação, mas contínua atividade hostil e destrutiva. Por isso mesmo, ela logo será rompida por outro surto de intrigas, turbulências, distúrbios e inimizades. Daí porque os conflitos durante a campanha estendem-se por todo o decorrer do mandato, em vista dos processos eleitorais que haverão de suceder-se. Como diria James Freedman Clarke, o presidente está focado não tanto “nas próximas gerações, e sim nas próximas eleições”.

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