Sobre Agamben e a pandemia. Diálogo de Andrea Grillo com Pietro Piro

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22 Abril 2020

Em seu blog Come Se Non, o teólogo italiano Andrea Grillo, 21-04-2020, escreve: “Eu tinha lido algumas coisas de Pietro e então telefonei para ele: ‘E se dialogássemos sobre e com Agamben?”. Os seus interesses, de estudo e de trabalho, insistem exatamente no mesmo ponto delicado levantado por Agamben: a desumanização radical do mundo e das relações”.

Grillo continua: “Disso surgiu este diálogo, rigorosamente construído ‘a distância’, mas cheio de frescor e vivo. Nós o propomos juntos como uma contribuição para a discussão sobre a ‘res’ da controvérsia, isto é, sobre o nosso destino pessoal e comunitário, marcado por este evento imprevisível e que nos pede para recorrer ao melhor daquilo que podemos ser, para nós mesmos e para todos os outros”.

Pietro Piro é um estudioso atento das dinâmicas de desumanização radical do nosso tempo. Ele publicou recentementeL’uomo nell’ingranaggio. Occasioni di critica [O homem na engrenagem. Ocasiões de crítica] (Edizioni La Zisa, 2019).

A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o diálogo.

Andrea Grillo – Caro Pietro, os filósofos, como é justo, também tomam a palavra sobre a crise que estamos vivendo. Entre eles, Giorgio Agamben assumiu uma posição singularmente dura, forte, afiada. Como você acha justo reagir às palavras dele?

Pietro Piro – Agamben é um filósofo autoritário, e a sua posição deve ser acolhida com o máximo respeito. É preciso tentar raciocinar com Agamben, não contra ele. Para entender se, a partir desse raciocinar, pode-se chegar a uma nova configuração generativa. A novas “aberturas de sentido”.

Andrea Grillo – Então, não contra, mas além. Se entendi bem, você assume, acima de tudo, uma atitude de escuta e se deixa provocar pelas palavras dele, mesmo quando parecem excessivas ou injustas. É isso?

Pietro Piro – Isso é possível se aceitarmos parte das preocupações de Agamben como legítimas. Nós raciocinamos “em acréscimo”, e não para subtrair terreno de Agamben. É uma questão de método. A verdade é dialógica e em movimento, e nunca podemos dizer: “Isso é tudo. Agamben está errado. Nós temos razão”. É preciso superar essa atitude de fechamento. Agora tentemos analisar, ponto a ponto, o pensamento de Agamben.

Andrea Grillo – Parece-me um método muito sábio para proceder. É preciso examinar cada afirmação individual e avaliar precisamente o seu porte. Então, comecemos com a primeira afirmação: 1) O país entrou em colapso diante da doença?

Pietro Piro – Absolutamente não. O país resiste, é quase imóvel como na oração dos monges contemplativos. Às vezes, é quase necessário permanecer imóvel para poder resistir às correntes. Nessa semi-imobilidade, ativaram-se potências espirituais inéditas. Verdadeiros “poderes”. O poder do cuidado, o da solidariedade e o da responsabilidade. São três gigantes.

Andrea Grillo – Mas é justo se perguntar, a contrario: o país podia entrar em colapso?

Pietro Piro – Sim. Por causa de escolhas celeradas e de cortes nos gastos com saúde pública. Então, como se faz para resistir? De onde nascem essas energias para “resistir à rendição”? Resiste-se porque a pandemia demonstra que existem, para além das ideologias, dos pertencimentos aos partidos, das lógicas de poder, homens e mulheres de boa vontade que são capazes de colocar o bem dos outros à frente do próprio. Não é esse, talvez, um sinal de inédita Esperança? Mais essa prova de bem gasto e doado não é, talvez, o sinal tão esperado? A “resistência ao mal” não é uma categoria fundamental da teologia?

Andrea Grillo – É claro. Enfrentar o mal do modo mais participativo é, propriamente, uma forma decisiva de ‘comunhão”. Mas aqui chegamos à segunda objeção de Agamben: 2) O risco era realmente “impossível de medir”?

Pietro Piro – Absolutamente não. O risco era preciso, calculado e calculável. Com base em experiências pregressas (graças à China). Proibir o movimento, aglomerações, funerais, portanto, é um verdadeiro gesto de pietas. Uma forma de cuidado e responsabilidade – digamos também de respeito e amor pelo próximo – absolutamente necessária. Caso contrário, teria sido uma forma diabólica de risco sobre a vida dos outros. Teria sido terrível saber que, embora cientes do grave risco, ninguém nos protegeria.

Andrea Grillo – Chegamos, assim, à terceira afirmação: 3) As nossas relações de amizade e amor se interromperam? Em outras palavras, permitimos que fôssemos violados nas nossas relações mais íntimas?

Pietro Piro – Não. Elas entraram na dimensão do desejo, da falta e da nostalgia. Sentimentos fundamentais para dar peso e substância às relações.

Andrea Grillo – Então, chegamos ao quarto ponto crítico: 4) A medicina causou uma cisão? Aqui, seguramente, estamos na fronteira entre uma “medida social” e o risco de uma queda na “irrelevância do indivíduo”: é uma dimensão extremamente delicada, que investe sobre a condição de solidão que ameaça, especialmente em regime de isolamento, o doente, o moribundo e o falecido. Por outro lado, a exclusão do leproso da comunidade social não é uma invenção da medicina moderna...

Pietro Piro – A medicina está demonstrando que, para dar oxigênio ao espírito, é necessário cuidar do doente e levá-lo de volta a uma condição de equilíbrio que lhe permita “viver dignamente”. Ela poderia entrar em uma nova era mais espiritual e política – talvez até inconscientemente: não devemos cindir a dimensão corporal do cuidado da alma, caso contrário cometemos o mesmo erro que tentamos denunciar.

Andrea Grillo – Depois, há o quinto ponto, ou seja: 5) O distanciamento social e o seu impacto geral sobre a nossa forma de vida.

Pietro Piro – Passada a dor inicial, aprenderemos que as distâncias dos corpos podem ser preenchidas por uma maior intensidade de sentimento. Antes, todos nos lamentávamos da frieza dos relacionamentos. Das paixões tristes. Mesmo assim, podíamos nos tocar sem qualquer remorso. Acredito que as culturas em que as distâncias sociais são marcadas certamente não produziram menos capacidade de compaixão e amor. É um jogo aberto...

Andrea Grillo – Depois, apresenta-se o delicadíssimo ponto 6: a Igreja, que Agamben acusa de ter perdido a fé, porque teria traído o próximo. O Papa Francisco teria contradito São Francisco...

Pietro Piro – A tão criticada Igreja não demonstrou de uma vez por todas que se importa mais com a pessoa de carne e osso do que com o seu aparato litúrgico e devocional? Não demonstrou que sabe sofrer “em pé de igualdade”, privando-se de toda forma de superioridade? Esta é uma grande oportunidade para a teologia, para se despojar dos seus adornos mais abstrusos e elaborar novas formas de presença no mundo de hoje...

Andrea Grillo – Finalmente, 7) o papel dos juristas: eles realmente cederam a lógicas descontroladas, que impuseram o estado de exceção como arbítrio e abuso dos direitos pessoais?

Pietro Piro – A tarefa de quem faz as “leis” é criar as bases para o surgimento de uma cultura da responsabilidade coletiva. Parece-me que o país deu prova de uma “lei moral interior” de grande nível...

Andrea Grillo – Enfim, caro Pietro, examinando cada ponto individual do raciocínio de Agamben, parece-me que você recolheu as suas provocações negativas de modo muito positivo, quase as mudando sistematicamente de sinal. Parece-me que você aproveita a oportunidade das críticas de Agamben para descobrir que aquilo que ele assinalou, quase com escândalo, pode escandalizar em sentido contrário: não como uma oportunidade para o mal, mas como uma abertura inesperada para o bem.

Pietro Piro – Agamben nos ajuda a raciocinar sobre alguns perigos aos quais estamos indo ao encontro. Mas devemos evitar leituras negativas demais. Caso contrário, não fazemos justiça ao esforço de quem está dando tudo pelo bem. Devemos nos esforçar para encontrar um ponto de convergência equilibrado para dar início à antropologia do homo dignus (Rodotà). Esse ponto de convergência está dentro e fora da teologia, mas nunca pode estar fora da ecologia profunda, que diz respeito radicalmente a todos.

* * *

“Foi um belo diálogo”, finaliza Grillo, “do qual emerge uma demanda de sentido e uma sede de reconhecimento: a provocação de Agamben, com a sua paradoxalidade, nos permitiu reler a realidade humana e social, relacional e pessoal destes dias, descobrindo que, apesar dos tons apocalípticos, neste momento, a reação foi marcada por uma ‘pietas’ que assumiu, sobretudo, a forma do ‘distanciamento’. O que essa medida geral não consegue gerir é que as dinâmicas que fogem a essa lógica de política sanitária abrem um espaço de reflexão a mais e ainda não resolvido. Por isso, a capacidade de vigilância impõe que se mantenha aberto o diálogo com todos aqueles que trazem no coração o destino de cada indivíduo, juntamente com a qualidade comunitária e social da experiência dos homens e das mulheres.”

 

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