Bruno Latour, Nicolas Hulot, François Ruffin: como a covid-19 pode recrudescer a mutação ecológica

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18 Abril 2020

Com a economia global praticamente paralisada devido à irrupção da epidemia do coronavírus, muitas vozes se levantam para questionar a globalização desenfreada e os modelos antiquados.

A reportagem é de Olivier Nouaillas, publicada por La Vie, 14-04-2020. A tradução é de André Langer.

“Ao pedido de bom senso: ‘Retomemos a produção o mais rápido possível’, devemos responder com um grito: ‘De jeito nenhum!’. A última coisa que devemos fazer é retomar, da mesma maneira, tudo o que fazíamos antes”. Esse grito do coração, publicado em 30 de março na revista on-line AOC (Análise, opinião, crítica) e intitulado “Imaginar os gestos-barreiras contra o retorno à produção anterior à crise”, emana do filósofo Bruno Latour, um dos melhores pensadores da crise ecológica, autor de dois ensaios com títulos premonitórios: Les microbes. Guerre et paix (Métailié) et Où atterrir ? Comment s’orienter en politique? (La Découverte).

Porque, para Bruno Latour, “a crise da saúde está inserida naquilo que não é uma crise – sempre passageira –, mas uma mutação ecológica duradoura e irreversível”. Ele lembra as duas principais características da crise climática que enfrentamos antes do confinamento: o CO2 que aquece a atmosfera global e o “progresso” ilimitado que esgota o planeta. Ele nos encoraja a tirar proveito da cessação da atividade econômica para nos tornarmos “interruptores da globalização”. E a tomar o exemplo das tulipas produzidas sem solo e debaixo de luz artificial na Holanda e enviadas para o mundo inteiro de avião, um meio de transporte cujo uso excessivo é cada vez mais questionado. “É realmente útil prolongar essa maneira de produzir?”, pergunta Bruno Latour, convidando-nos a fazer a lista das atividades essenciais e as que não são mais necessárias por causa dos imperativos ecológicos.

Não ao retorno do business as usual

Desde o início do confinamento, testemunhamos um verdadeiro borbulhar de ideias alternativas, todas contrárias ao retorno do business as usual (“como se nada tivesse acontecido”). Forças separadas e outrora dispersas – altermundialistas, ecologistas, decrescimentistas, “colapsologistas”, esquerda não produtivista, etc. – competem em imaginação, tanto no cenário mundial quanto nacional. Assim, uma coalizão internacional de 300 ONGs, federadas pelo movimento 350.org, acredita que “é necessária uma abordagem verdadeiramente global e interconectada: ela deve investir, em primeiro lugar, na segurança e na saúde de todos, mantendo em mente a necessidade de uma transição para modelos econômicos sem carvão, petróleo ou gás”.

O adiamento das principais reuniões internacionais poderia permitir esta aproximação. Essa é a opinião de Lola Vallejo, diretora do programa climático do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Relações Internacionais (Iddri). “Os adiamentos para 2021 do Congresso Mundial da Natureza em Marselha, da COP 15 sobre a biodiversidade na China e da COP 26 sobre o clima em Glasgow poderiam possibilitar a vinculação das negociações internacionais sobre essas questões ecológicas primordiais com os planos de recuperação econômica – analisa. Especialmente porque a eleição presidencial nos Estados Unidos ocorrerá antes, em novembro de 2020, e o multilateralismo poderá recuperar a força com a eleição de um presidente democrata. Isso poderia incentivar as Nações Unidas a atualizar o conceito relevante de “One World, One Health” (“Um mundo, uma saúde”), que mostra que entre a saúde dos ecossistemas, a dos organismos vivos e a saúde humano, tudo está ligado”.

Uma reconversão social e ecológica do aparelho produtivo

No nível nacional, encontramos a mesma efervescência. Depois de um discurso de Emmanuel Macron em um tom muito anti-globalização anunciando, em 12 de março, as primeiras medidas de reclusão – “O que esta pandemia nos ensina é que existem bens e serviços que devem ser colocados fora das leis do mercado” –, sindicatos e movimentos associativos decidiram levar o Presidente ao pé da letra. Assim, dezoito chefes de organizações – entre os quais estão Philippe Martinez (CGT), Cécile Duflot (Oxfam), Sylvie Bukhhari-de Pontual (CCFD-Terre Solidaire), Nicolas Girod (Confédération Paysanne) e Aurélie Found (Attac) – assinaram, no dia 27 de março, uma carta aberta. Nela, intitulada “Isso nunca mais, vamos preparar o dia seguinte”, que agora é uma petição, eles pedem que os 750 bilhões de euros liberados pelo Banco Central Europeu estejam condicionados à reconversão social e ecológica do aparelho produtivo e pedem a realocação das atividades na indústria, na agricultura e nos serviços. E fazem uma advertência: “Quando o fim da pandemia permitir, nos reunimos para reinvestir em locais públicos e construir nosso ‘dia seguinte’”.

Outros, como François Ruffin, deputado do France Insoumise, criaram ferramentas para refletir sobre essas consequências. Como esse canal do YouTube chamado Lan01, em homenagem à história em quadrinhos de Gébé. Uma noite, em sua cozinha na Picardia, François Ruffin também trocou ideias “através de uma brecha aberta em uma ideologia neoliberal mortal” com o colapsologista Pablo Servigne (Comment tout peut s’effondrer, Seuil), instalado em sua casa no Drôme, sonhando em voz alta “uma nova sociedade de autoajuda e auto-organização, baseada na autonomia alimentar e no nível local e municipal”.

Os Europe Écologie-Les Verts (EELV), surfando sobre seu avanço nas eleições europeias e no primeiro turno das eleições municipais, lançaram “uma caixa de ferramentas participativa para reconstruir a ordem do mundo”. Para Julien Bayou, secretário nacional do EELV, “o coronavírus mostra de maneira paradigmática a extensão das transformações que teremos que iniciar para enfrentar o aquecimento global”. Segundo ele, devemos a todo custo evitar “uma retomada à moda antiga que aumentaria ainda mais as emissões de CO2 em detrimento do clima, da justiça social e da saúde”.

A CFDT (Confederação Francesa Democrática do Trabalho) e a Fundação Nicolas Hulot estão refletindo sobre como lançar seu “pacto do poder de viver”, elaborado durante a crise dos “coletes amarelos” e suas dez medidas ecológicas e sociais. Assim, o ex-ministro da Transição Ecológica e Solidária estimou na TV BFM que essa crise era “como um ponto de virada para a humanidade (...), confrontada com sua vulnerabilidade e seus limites”. Se “é chegado o momento da unidade, será necessário depois refletir sobre o absurdo de uma globalização frenética que transformou a circulação de mercadorias just-in-time em dogma. Temos que avançar em direção a uma forma de relocalização que não deve ser confundida com protecionismo ou nacionalismo”. E ele extrai da situação atual a seguinte pergunta: “Recebemos uma forma de ultimato da natureza. Saberemos ouvir isso?”. Serve para reflexão.

O setor aéreo deve ser ajudado a decolar novamente? Greta Thunberg sonhava com isso e o coronavírus o fez. Enquanto em 2019 a ativista sueca iniciou o movimento Flygskam (“a vergonha do avião”), a reclusão colocou em terra quase todas as aeronaves: não há mais voos comerciais do [aeroporto de] Orly, uma queda mundial no tráfego de passageiros em 80-90%, e um déficit de 252 bilhões de dólares. Diferentes governos, como nos Estados Unidos e na França, anunciaram medidas de apoio ao setor: adiamento de certos impostos e ajudas financeiras à Air France. A Associação Internacional do Transporte Aéreo (IATA), por sua vez, está pedindo um plano global de 200 bilhões de dólares.

Um coletivo global de 250 ONGs ambientais (incluindo a Rede de Ação Climática) quer que os Estados estabeleçam condições para esse resgate, incluindo a redução das emissões de CO2. Com base no fato de que a aviação é responsável por 5% das emissões globais de gases de efeito estufa, este coletivo acredita que será necessário “limitar os transportes mais poluentes como o avião e apoiar a criação de empregos em torno de transportes mais ecológicos, como o trem”.

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