O vírus de uma transmutação eucarística? Artigo de Michael Davide Semeraro

"Última Ceia", 1308 por Duccio Di Buoninsegna

09 Abril 2020

Existe o risco de que a situação particular criada pela pandemia se transforme em uma regressão que leve novamente a sensibilidade e a práxis à postura pré-conciliar. A lenta passagem do comer ao se contentar em olhar para a Eucaristia, também por causa da indignidade própria de pecador, transformou o participar em simplesmente acompanhar os ritos, concentrando-se nas próprias devoções pessoais.

 

A opinião é do monge beneditino brasileiro Michael Davide Semeraro, da Koinonia de la Visitation, em Rhêmes-Notre-Dame (Aosta), na Itália, e doutor em Teologia Espiritual pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.

 

Em seu serviço de inteligência da fé e de acolhimento da vida, Semeraro busca conjugar sua experiência monástica com a escuta das temáticas que perturbam e apaixonam os corações dos homens e das mulheres do nosso tempo. Colabora com algumas revistas e, de modo compatível com as exigências da vida monástica, realiza conferências e acompanha retiros.

 

O artigo foi publicado em Fine Settimana, 06-04-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

Risco de regressão

 

Nestes tempos de contenção do contágio e de restrições para enfrentar a pandemia, um dos elementos que está marcando profundamente a vida dos fiéis e das comunidades cristãs é a impossibilidade, para muitíssimos, de poder participar da celebração da Eucaristia.

Sem ter absolutamente programado isto, estamos assistindo a uma repentina transmutação da celebração da Eucaristia. O que era excepcional tornou-se uma espécie de hábito recomendado: acompanhar a celebração pelos meios de comunicação e, em particular, em streaming. Uma escolha feita pelo Papa Francisco, cuja celebração matinal é transmitida diariamente, pelos bispos que se encontram com os fiéis diante da tela, assim como por parte de alguns párocos e presbíteros.

Para muitos, “ir à missa” se transformou em um “colocar-se na frente da tela”, seja ela pequena ou grande, pessoal ou compartilhada com outros.

Alguém me disse que, após o primeiro esforço para renunciar à participação física na liturgia indo à igreja, ele está descobrindo a positividade dessa modalidade diferente, não tanto pela comodidade, mas pelo recolhimento e pela qualidade da celebração que, embora austera, é bem cuidada.

Muitos já fazem experiência da possibilidade, dada a ampla variedade de oportunidades, de poder escolher qual ou quais celebrações acompanhar: a mais universal, como a celebrada pelo papa, a mais particular, como a Eucaristia celebrada pelo próprio pároco, ou ainda mais ampla, no caso do bispo.

Mas há também aqueles que, finalmente, sentem-se autorizados a “escolher” a liturgia que melhor corresponde à sua própria sensibilidade espiritual, seja pela ritualidade, quanto, sobretudo, pelo estilo da pregação.

Recolhi o alívio de alguns fiéis praticantes que finalmente se sentem “absolvidos” por aquilo que lhes faziam sentir como um problema: a escolha de não celebrar a Eucaristia na sua paróquia territorial, mas em âmbitos eletivos por afinidade espiritual, como costumam ser, muitas vezes, os mosteiros.

A discussão dos teólogos e, em particular, dos liturgistas se acendeu, com razão [1]. Os pontos sobre os quais a inteligência teológica se sente no dever de não deixar o campo aberto são fundamentalmente dois.

O primeiro é o sentido não só objetivo, mas naturalmente intersubjetivo e, portanto, eclesial da celebração da Eucaristia, que é, de certa forma, se não desmentido, pelo menos enfraquecido quando se celebra sem convocação do povo de Deus. Aquela que permanecia como uma possibilidade, tornou-se uma normalidade por causa da emergência sanitária (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 906).

Oportunamente, evidencia-se o risco de que a situação particular, criada pela pandemia, se transforme em uma regressão que leve novamente a sensibilidade e a práxis à postura pré-conciliar. A lenta passagem do comer ao se contentar em olhar para a Eucaristia, também por causa da indignidade própria de pecador, transformou o participar em simplesmente acompanhar os ritos, concentrando-se nas próprias devoções pessoais.

Esse processo, que se consolidou ao longo dos séculos, foi invertido radicalmente de direção com a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II.

O segundo é a modalidade de participação e sua real “sacramentalidade” acerca da opção do streaming. Sobre este último ponto, assim Paolo Tomatis conclui a sua intervenção:

“Quanto à participação em casa, por mais impróprio que seja o verbo ‘participar’, uma vez que a participação plena na vida sacramental só se dá através da presença real do fiel, com o próprio corpo, pode ser útil encorajar uma efetiva participação do corpo na oração [...]. Caso contrário, o risco é o de assistir à missa do modo como se está na frente do computador ou do celular: fazendo outra coisa, cozinhando, participando de um chat, limpando a casa, conversando. Somente com essas atenções e com a coragem de propor uma celebração ‘à espera da comunidade eucarística’ em alternativa ou em alternância à missa, essas iniciativas em tempos de vírus não se tornarão um vírus que infecta a nossa prática ritual comum, à qual esperamos retornar em breve” [2].

 

Discrição mistérica

 

Compartilho a posição de Tomatis sobre o perigo de que comece a vagar imperturbável um “vírus litúrgico”, que, como sempre, corre o risco de infectar e infestar não só a prática ritual e sacramental, mas também a mens teológica, espiritual, pastoral e testemunhal.

Pessoalmente, considero que a possibilidade de “acompanhar” a celebração da Eucaristia na sua totalidade, como ocorre nas solenidades papais, não é evidente. O fato de uma pessoa qualquer poder participar, zapeando em seu televisor e enquanto se dedica às mais variadas atividades, da celebração dos mistérios, até mesmo no momento tradicionalmente reservado aos “fiéis”, não é automático.

Não devemos esquecer que, na grande tradição da Igreja indivisa, aquela que chamamos hoje de Liturgia da Palavra é ainda chamada pelas liturgias orientais de “Liturgia dos catecúmenos”. A expressão “Missa dos catecúmenos”, para indicar a primeira parte da Eucaristia, é evocada na liturgia latina pelo menos desde o século XI.

Na Divina Liturgia, no rito bizantino, ainda encontramos um rastro desse momento em que o diácono intima: “As portas, as portas”. Desse modo, evoca-se o momento em que os catecúmenos, depois da Oração Litânica, tinham deixar a sala da celebração, onde permaneciam apenas aqueles que haviam recebido a iniciação batismal com todos os seus ritos.

Antigamente, ao contrário das nossas crianças e catecúmenos, para os iniciantes “os mistérios” eram uma surpresa a ser descoberta imediatamente após o batismo. Somente depois é que as catequeses mistagógicas explicavam aos neófitos aquilo que havia sido vivido experiencialmente durante os ritos do batismo.

A prece litânica, reintroduzida com o Concílio Vaticano II, marcava precisamente a divisão em duas da assembleia dominical, quando os catecúmenos eram dispensados para se dirigirem à sala reservada para eles, anexada ao local de culto. Atualmente, em alguns casos, fazemos exatamente o contrário quando dispensamos as crianças durante a homilia e as chamamos de volta à sala da celebração para a Liturgia Eucarística.

Os nossos pequeninos geralmente participam como espectadores, já que “ilegalmente”, embora já sendo batizados e, portanto, plenamente iniciados, sacramentalmente falando, impedimos que eles comunguem do Corpo e do Sangue de Cristo, afastando-nos, assim, da práxis das Igrejas Orientais.

Dou dois exemplos para levar a compreender o que está em jogo do ponto de vista sacramental, entendido como portal da experiência de fé compartilhada no Corpo crente que é a Igreja.

O primeiro é a recordação, à flor da pele, do meu embaraço por ocasião do solene início do ministério petrino como bispo de Roma do Papa Francisco e, imediatamente antes, das exéquias de João Paulo II. Em ambos os casos, a Eucaristia foi concelebrada com um número surpreendente de bispos, presbíteros e fiéis, mas na presença de muitos chefes de Estado e outros representantes não crentes. Ocorreu a mesma coisa na canonização de João XXIII e de João Paulo II.

Nessas ocasiões, perguntei-me se era adequado celebrar “os mistérios” na presença de uma assembleia magnificamente representativa da humanidade na sua diversidade de crenças, ou se limitar a uma celebração que se contentasse com uma Liturgia da Palavra para a proclamação solene dos novos santos, reservando a Eucaristia para outro momento e para outro contexto. Assim também quando alguém é admitido e até convidado a presenciar a celebração por uma espécie de suposição, quase evidente, daquilo que poderia se assemelhar à religião civil, mais do que a uma expressão de fé compartilhada.

Embora compreendendo, surpreendeu-me o convite de Dom Delpini para “presenciar” a celebração da Eucaristia no Domingo de Ramos na Catedral de Milão, dirigido às principais autoridades da Civitas como representantes do “povo” e acolhido por eles. Mesmo com as melhores intenções, a confusão está sempre à espreita quando o aspecto sacerdotal do ministério pastoral se autonomiza da comunidade, privilegiando o aspecto de mediação sacral entre a divindade e a sociedade, assumindo novamente a postura “pontifical” de marca pagã.

Torna-se difícil manter unido o rigor acerca da participação na comunhão sacramental dos fiéis, que se encontram impedidos de várias maneiras, e a extrema facilidade com que se celebram os mistérios na presença de quem não compartilha a fé pascal.

O segundo está ligado a uma descoberta casual. A cerimônia de coroação da rainha Elizabeth II, realizada no dia 2 de junho de 1953, foi transmitida ao vivo pela primeira vez na televisão britânica, a pedido do consorte da soberana e apesar da oposição de Churchill.

Um detalhe me surpreendeu e me fez pensar. O momento central da unção real, realizada pelo arcebispo, foi escondido da visão das câmeras mediante um baldaquino equipado com cortinas de seda e mantido em sua posição por quatro cavaleiros da Jarreteira. Da mesma forma, o momento da comunhão sacramental não foi enquadrado.

Quase certamente, na próxima coroação, se houver, essa “discrição mistérica” será considerada superada. Não obstante, considero adequada a escolha feita, na época, de representar aos olhos do mundo inteiro a cerimônia de coroação, mantendo-a ciente de que alguns ritos não podiam ser representados, mas única e exclusivamente celebrados.

Há passagens celebrativas ligadas indissoluvelmente à presença integral que inclui a do corpo e, no caso da Eucaristia, da vontade expressa pela adesão da fé no batismo.

 

Perguntas urgentes

 

Em um momento como o que estamos passando, seria ingênuo classificar rigidamente as escolhidas e as indicações dadas nos vários âmbitos, da saúde ao pastoral-sacramental, como certas ou erradas. A graça própria dos tempos de “desgraça” é obrigar a inventar soluções novas para tentar enfrentar melhor as situações inéditas.

Normalmente, como humanos, não podemos pretender nos mover apenas entre as margens, claras e distintas, daquilo que é certo ou errado: devemos navegar à vista no interregno do possível sempre revisável.

No entanto, não podemos esquecer que são precisamente os momentos de crise que obrigam ao desenvolvimento de possibilidades novas que, normalmente, não são arquivadas automaticamente com o fim da emergência.

Pelo contrário, as práticas que se desenvolvem sob o aguilhão da necessidade desencadeiam processos que, graças a Deus, revelam-se imparáveis. Pensemos naquilo que levou à “invenção” da práxis e do sacramento da Penitência por causa do drama eclesial da reintegração ou não dos “lapsi” que haviam escapado da perseguição.

Não basta dizer e proclamar que a proposta celebrativa oferecida neste momento é simplesmente um parêntese devido à necessidade. Algumas perguntas se impõem desde agora e não podem ser ignoradas:

- Depois deste parêntese, os ministros ordenados saberão voltar a considerar essencial a presença integral dos fiéis para celebrar ou continuarão celebrando em streaming para ir ao encontro não mais da emergência, mas sim das necessidades dos fiéis e das exigências pessoais?

- Da parte dos fiéis, se sentirá como inevitável a participação na Eucaristia de modo físico e no âmbito da comunidade concreta em que se vive o próprio caminho de fé? Isso, se não territorialmente falando – penso na paróquia –, pelo menos como estabilidade efetiva e afetiva de uma escolha eletiva?

- Em que medida saberemos novamente pôr ordem na propagação de celebrações eucarísticas e até de adorações da Eucaristia na televisão assim como no cada vez mais vasto mundo digital?

- Podemos realmente aceitar que a celebração dos “mistérios” possa entrar no menu qualquer de um zapping contínuo e sempre possível, de dia e de noite, sem qualquer “condição” mistérica análoga às postas para a participação física que se vive em todos os lugares e momentos de culto?

Considero que essa radicalização e amplificação exponencial da “transmissão” de celebrações exige uma reflexão que saiba também corrigir aquilo que foi feito até agora de modo quase ingênuo e, certamente, com ótimas intenções.

Já é hora de algumas questões serem levantadas e abordadas serenamente e com rigor litúrgico igual ao que sempre se usa em matéria sacramental.

- Quais são as condições necessárias para uma transmissão e as regras a serem observadas por quem assiste e ouve, e por quem se faz ver e ouvir?

- Em que medida, em que casos e em benefício de quem uma Liturgia Eucarística pode ser transmitida ao vivo na sua integralidade?

- Por quais motivos a gravação pode ser usufruído “on demand” ou deve ser imediatamente eliminada da rede?

 

Proteção necessária

 

Na medida em que aceitamos entrar em um sistema de comunicação global como o midiático, somos chamados a entrar na sua linguagem particular e nas regras do jogo que não dependem de nós. Todos sabem que, em rede, as coisas que “interessam” de verdade e com vivacidade às pessoas – usuários, como são chamados! – exigem uma inscrição e até um pagamento. Inscrever-se é o modo de manifestar a própria vontade de entrar em um jogo consciente de participação e, em alguns aspectos, também de pertencimento.

Eu me pergunto se não será o caso de imaginar a possibilidade de usufruir de certos conteúdos não de modo casual, mas com uma escolha clara e explícita de querer participar deles. Na linguagem virtual, um nome de usuário e uma senha são o novo modo de afirmar uma escolha de pertencimento.

Essas chaves expressam uma espécie de compromisso em proteger os dados que, por sua vez, são recebidos para protegê-los. Enquanto continuarmos pedindo a muitos fiéis um alto preço para ter acesso à plena participação na mesa eucarística, corremos o risco de deixar que tudo seja fruível, sempre e de todos os modos, sem qualquer filtro e com pouca consciência.

O tempo que temos pela frente não será o tempo “depois” da emergência e nem mais o tempo de “antes” da pandemia. Em todas as áreas da nossa vida, até mesmo a sacramental, viveremos a partir do estilo que está sendo gerado em nós e ao nosso redor precisamente “através” da experiência das limitações e restrições devidas ao coronavírus.

Temos uma grande necessidade de discernimento, corajoso e criativo, para evitar dois excessos: a sacralização e o defeito de “proteção dos mistérios”. A proliferação de “missas em streaming” pode representar um incremento de ministério sacramental em benefício do povo de Deus, mas também um sutil retorno à sacralidade que afeta, em particular, o ministério ordenado.

Paradoxalmente, uma louvável generosidade ministerial neste tempo difícil e estimulante da criatividade do zelo pastoral pode esconder ou servir de vetor para uma retomada da postura sacerdotal em sentido clerical e sacral. É importante vigiar sobre os excessos e conter, desde o nascimento, as regressões e os desvios.

Penso particularmente no perigo de uma espécie de “obstinação eucarística”. É fundamental reiterar a unidade do mistério de Cristo e o fundamento da Encarnação na economia da salvação. Recomeçar a partir da encarnação significa aprender a recomeçar sempre a partir da realidade captada na totalidade, complexidade e até na sua inevitável ambiguidade.

Mesmo sem compartilhar totalmente as suas posições e suposições, uma frase de Emmanuel Carrère anotada no contexto de uma comunidade da Arca não pode deixar de nos emocionar: “Penso que as coisas poderiam ter sido diferentes: que o sacramento central do cristianismo poderia ter sido o lava-pés em vez da eucaristia” [3].

Sem dúvida, não se trata de mudar a nossa prática sacramental e ritual. O que está em jogo é uma urgente e nova compreensão espiritual da Eucaristia, para que ela seja cada vez mais e sempre energia existencial e não simplesmente repetição sacral.

Por mais que os sacramentos sejam dados como sustento espiritual e psicológico para enfrentar as dificuldades da vida, eles estão à altura da sua tarefa na medida em que conformam o fiel a Cristo, morto e ressuscitado, no fruto de uma vida radicalmente acolhida e inteiramente doada.

Em um texto recente, o padre Ghislain Lafont, na sua veneranda idade de nonagenário e com a sua formação tomística de base, lança um desafio de incremento de inteligência sobre o mistério da Eucaristia.

Seu artigo, do qual recomendo a leitura, é de particular intensidade, profundidade e urgência. De fato, não basta reiterar a importância, a centralidade, a excelência e a irrenunciabilidade da Eucaristia se depois a sua celebração não for realmente capaz de gerar “comunidades eucarísticas”. O fruto da Eucaristia são comunidades em que crescem e amadurecem discípulos cujo testemunho é confiável, por ser compreensível e apaixonado.

Assim escreve o padre Ghislain:

“Não sei se existe um estudo exaustivo sobre a prática da eucaristia – e também dos sacramentos em geral –, da sua instituição por parte de Jesus até os nossos dias. É surpreendente que as raras menções desse sacramento no Novo Testamento sejam bastante negativas. Por exemplo, as duas passagens nas quais se fala da eucaristia na Primeira Carta aos Coríntios estão em um contexto polêmico: não se pode participar ao mesmo tempo da Ceia do Senhor e das refeições dos sacrifícios oferecidos aos ídolos, portanto aos demônios (cap. 10); não se pode comungar santamente da refeição do Senhor se não se faz isso juntos e compartilhando os alimentos (cap. 11). O contexto, portanto, é o dos modos equivocados de participar da Ceia. De sua parte, a Carta aos Hebreus já lamenta uma falta de interesse pela sinaxe (Hb 10,25)” [4].

 

Recomeçar a partir dos pés

 

Aquilo que apenas alguns meses atrás nos parecia um problema da Amazônia repentinamente tornou-se um problema totalmente “nosso”. Até mesmo em alguns mosteiros não é possível celebrar nem comungar sequer na Páscoa. No entanto, o fato é que há, em muitas partes do mundo, até mesmo não muito longe de nós, cristãos que só têm a possibilidade da celebração eucarística raramente e até raríssimamente. Em outros lugares, entretanto, há uma superabundância de celebrações às vezes fora de um verdadeiro contexto comunitário.

Se, por um lado, como já foi lembrado quase dolorosamente no recente Sínodo das Igrejas da Amazônia, há o desejo e a necessidade de que a Eucaristia alimente a vida dos fiéis individuais e das comunidades, dinamizando a sua fidelidade batismal, por outro, persistem formas “privadas” e “devocionais”. Nesses casos, a experiência do sagrado prevalece sobre o caminho de santidade evangélica, cujo fruto distintivo e autenticador é uma extrema compaixão e uma solidariedade ativa.

Como me indicava o padre comboniano que era reitor do seminário menor da minha época, ninguém pensou, porém, em investir em um imenso repetidor de sinal digital e em uma ampla distribuição de instrumentos adequados para se ter acesso à Eucaristia em streaming nas florestas amazônicas.

Justamente, ninguém teve a ideia de renunciar ou de colocar entre parênteses aquele contato pessoal e corporal que permanece substancial, para que a transubstanciação do pão e do vinho transforme a comunidade “em um só corpo e um só espírito”. Precisamente o tempo da pandemia, com as restrições que afetam fundamentalmente a relação entre corpos vivos e sensíveis, deveria nos fazer sentir mais a necessidade de estar lá integralmente: alma e corpo.

O desejo de comungar do Corpo e do Sangue de Cristo envolve a aceitação da natureza inevitável dos corpos que o tomam para se tornarem um Corpo místico vivo e verdadeiro. Essa prioridade implica o fato de aceitar o tempo de espera e de adiamento como aprendizado e refinamento do desejo de ser reciprocamente restituído ao contato dos corpos. Às vezes, o atraso e o adiamento podem ser salutares e até providenciais diante de soluções apressadas e arranjadas.

Gregório Magno lembra isso de forma exortativa:

“O atraso estimula mais o seu ardor e dilata o seu coração [...]; o seu desejo é obstaculizado para que progrida; para que cresça, é alimentado no seio do atraso” [5].

Não se pode fazer o dom de um corpo sem que outro corpo seja capaz de recebê-lo não virtualmente, mas realmente. Isso vale na lex vivendi, por isso não pode ser superado facilmente demais na “lex orandi” com uma operação de espiritualização que corre o risco de volatilizar a experiência sacramental.

Como nos lembra todos os anos a “lex orandi”, na celebração da Ceia do Senhor, devemos sempre recomeçar a partir dos pés, para que as mãos do celebrante possam oferecer uma oblação santa. Celebrar a Eucaristia significa passar do triunfo do milagre, entendido como suspensão das leis da natureza, ao milagre de uma vida gasta no serviço humilde e criativo.

O sinal narrado pelo evangelista João continua sendo a chave para interpretar, de modo requintadamente evangélico, o gesto atestado pelos Sinóticos. O lava-pés autoriza a não subestimar, no que diz respeito ao gesto do pão e do vinho, o elemento de ruptura com os sacrifícios oferecidos no culto do Templo de Jerusalém e igualmente nos cultos pagãos. O dom de uma presença na forma mais simples, doméstica e comum do pão e do vinho não impõe uma Presença que deva ser quase temida pela sua força até mesmo destrutiva, como ocorria com a Arca do Testemunho (Sam 6,6-7).

Em vez disso, trata-se de um fazer-se presente do próprio Deus na nossa vida cotidiana, para criar uma relação de presença. Essa presença desencadeia, por assim dizer, relações de caridade e de solidariedade na lógica da encarnação entendida como lugar supremo da divinização.

A Eucaristia entendida, vivida e compartilhada entre os discípulos do Crucificado-Ressuscitado alcança o sentido mais alto no seu doar-se desarmado e desarmante. No sinal eucarístico, a evidência é reduzida a quase nada por um pedaço de pão e um gole de vinho, para dar lugar à acolhida gratuita e amorosa do tudo-doado que, embora significado, não se reduz ao sinal, mas o transcende.

A veneração e a adoração, por aquilo que se impõe com a força do “sacrum” e do “fascinans”, devem continuamente se deixar evangelizar para se tornarem, também sacramentalmente, expressão de um amor dado em excesso.

Após séculos de insistência na realidade quase esmagadora da “transubstanciação”, essa realidade interpretativa do mistério certamente não deve ser subestimada, mas deve ser necessariamente compreendida de novo para ser reproposta de modo adequado. De fato, o quase-nada objetivo, em torno do qual se cria uma atenção de acolhida e de adoração, torna-se o lugar e o modo de experimentar o Tudo que se dá como “amor ferido” [6]. Precisamente esse amor dado de modo tão leve a ponto de permanecer invisível cria brechas de caridade, de cuidado, de compaixão nas quais se adora a Presença de Deus, traçando de novo as suas múltiplas presenças na carne da história.

Pode-se dizer que o “milagre eucarístico” para este “período III” [7] da vida, da inteligência e do testemunho da Igreja não é o da “evidência” objetiva, mas sim a liberdade de reconhecer uma Presença que não pode se impor e quer se confiar às nossas mãos. Cuidar dela, em uma excedência de sinais de amor, leva o fiel ao coração da carne do Evangelho do Verbo feito homem, que se faz, no sacramento, alimento da nossa humanidade a caminho do Reino.

Como o Pe. Ghislain lembra ainda:

“O sacramento da Eucaristia não parece estar em primeiro lugar na economia da fé. Para a humanidade, trata-se de fazer a Deus um sacrifício espiritual, que consiste inteiramente na prática da caridade: a Deus, a si mesmo, ao próximo. Sacrifício, na medida em que isso se realiza no movimento de dar, de pedir, de receber, que é o ritmo próprio do amor e implica uma feliz renúncia. Esse sacrifício só pode ser participação no sacrifício perfeito oferecido a Deus por Cristo na cruz, aceito através da ressurreição, continuado nos céus onde vive o Cordeiro imolado. É espiritual, porque só o dom do Espírito permite viver esse sacrifício e fazer dos homens e mulheres um sacerdócio real, eco do de Cristo. De modo invisível, esse sacrifício espiritual também inclui cada homem e mulher e cada comunidade de boa vontade: todos aqueles que cedem ao impulso interior de viver pelos outros e por si mesmos” [8].

 

Eucaristia segundo o Evangelho

 

O texto recém-citado nos ajuda a compreender de novo a Eucaristia como lugar de regeneração daquele “impulso interior” que leva a viver existencialmente aquilo que é celebrado sacramentalmente: a experiência de um dom que permite que a vida se faça dom não no sentido “religioso” de “sacrifício expiatório”, mas de excedência de amor que “basta a si mesmo e é recompensa para si mesmo” [9].

Apesar daquilo que aconteceu no Concílio Vaticano II, com a reforma do rito da celebração dos vários sacramentos e, em particular, da Eucaristia, permanecem pontos sem solução.

A recuperação da concelebração desejada pelo Concílio foi um passo importante para deslocar radicalmente a atenção da “missa do padre”, à qual a comunidade “assiste” – de perto ou de longe – à celebração da comunidade na qual os próprios presbíteros participam como batizados, oferecendo o seu particular e insubstituível serviço de presidência.

Esse passo, de importância fundamental, exige um maior desenvolvimento para dar cada vez mais peso à preeminência e precedência da comunidade sobre o ministro ordenado para o serviço da comunidade.

Enquanto um presbítero se sentir não apenas no direito, mas até no dever de celebrar sozinho, sem comunidade, para cumprir uma devoção pessoal ao invés do seu próprio ministério ordenado à vida sacramental de uma comunidade, a ambiguidade permanecerá intocada.

Assim também devemos permanecer vigilantes, para que a emergência sanitária, embora justificando uma celebração “sem povo”, mas “para o povo”, permaneça verdadeiramente no âmbito da exceção (epichéia). Isso envolve a “faculdade” dos fiéis, uma vez dispensados do preceito festivo, de optar com liberdade por ficar na frente da tela, por se retirar no “segredo” (Mt 6,6) do próprio quarto ou por compartilhar outra forma de oração na escuta e na partilha da Palavra.

A atestação evangélica da dupla tradição sinótica e joanina do gesto com o qual o Senhor Jesus quis significar o seu dom pascal deve deixar em aberto uma saudável tensão sacramental. O fato de que o Senhor, na véspera da sua paixão, pegou pão e vinho e/ou tenha se cingido com um manto para lavar os pés dos seus discípulos é uma memória única.

Os dois relatos se interpretam e se autenticam reciprocamente, como liturgicamente afirma o rito romano com a escolha do Evangelho da Missa in Coena Domini. Não se deve esquecer que o gesto do pão e do vinho corre o risco de fazer o sacramento pascal regredir continuamente aos seus ritos anteriores judaicos e pagãos de oferta e de sacrifício. Precisamente a lembrança do outro gesto – o do lava-pés – ajuda-nos a manter vivo o sentido próprio do mistério pascal.

Esta se move mais na linha de um amor íntimo, delicado e apaixonado: mais doméstico do que templário. Nesse sentido, pergunto-me se foi apropriado suprimir, quase com uma certa satisfação, o rito do “lava-pés” da celebração da Missa in Coena Domini. Em tempos de pandemia, teria sido melhor aconselhá-lo como gesto “doméstico” a ser repetido onde a participação na celebração não seria possível, mas o contato entre pessoas que vivem debaixo do mesmo teto continua sendo fruível.

Penso, por exemplo, nas famílias cristãs, nas comunidades religiosas sem capelão e em outras situações análogas. Em vez disso, foi decretado em termos secos: “O lava-pés, já facultativo, seja omitido”.

As palavras da Instituição, que culminam naquele “fazei isso em memória de mim”, poderiam dizer respeito ao conjunto dos gestos pascais realizados pelo Senhor Jesus na véspera da sua Paixão. Talvez, na instituição da Eucaristia, o Senhor Jesus se inspirou mais no gesto da mulher que quebrou o frasco de perfume para ungir o seu corpo (Mc 14,3) do que nos ritos de oferta e de sacrifício que eram realizados no Templo de Jerusalém, como em todos os outros templos e santuários de todos os tempos e de todos os lugares.

Trata-se de um ponto de reflexão a ser aberto com coragem e simplicidade, também por causa daquilo estamos tentando compreender e viver sob o regime das restrições por motivos sanitários pelos quais estamos passando.

O duplo gesto de Jesus para dizer o sinal do seu dom pascal continua sendo a chave para renovar, dia após dia, o nosso estilo eucarístico, para que a celebração alimente a existência crente e torne confiável o seu testemunho. O Senhor Jesus renunciou ao “sagrado” para contextualizar a sua oferta pascal em um dinamismo de santificação. O “sagrado” privilegia até sancionar a fixidez e a intocabilidade de pessoas, coisas e gestos. O dinamismo da santificação é um processo que anima e transfigura continuamente as pessoas, as coisas e os gestos da vida cotidiana e, sobretudo, tudo aquilo que favorece a relação de cuidado entre as pessoas.

O sagrado separa e isola, transferindo, de uma vez por todas e para sempre, as pessoas com as coisas e os gestos em um mundo à parte percebido como incomunicável além de inatingível. O dinamismo da santificação, do qual os sacramentos são implementação, irrompe continuamente no real cotidiano e até banal da vida concreta, conferindo-lhe assim uma alma, um respiro, uma esperança. O tempo da pandemia poderia se tornar uma oportunidade de reflexão para refundar evangelicamente as convicções e as práticas. Não é suficiente fazer todo o possível pela “salvação de almas”, mas é necessário oferecer os instrumentos rituais munidos de inteligência espiritual, para que cada homem e mulher viva pessoalmente uma experiência de salvação, também de modo singular. O risco de uma espécie de transmutação eucarística regressiva, favorecida pelo coronavírus, poderia se tornar a oportunidade para um aumento de sensibilidade sacramental.

Não se trata de relativizar a graça do sacramento, mas de torná-la eficaz de modo mais existencialmente amplo e profundo através da dilatação do coração. Assim, nos tornaremos verdadeiramente aquilo de que nos alimentamos celebrando o mistério para “assumir a forma de pão” [10].

No limiar de uma Semana Santa, que permanecerá inesquecível também nos mosteiros, o padre abade geral dos Cistercienses da Comum Observância dirigiu-se aos seus irmãos e irmãs com estas preciosas palavras:

“Nestas semanas, a maioria dos fiéis deve renunciar à comunhão sacramental e é convidada à comunhão espiritual. Não devemos esquecer que a comunhão espiritual com Jesus não é tanto a alternativa à comunhão sacramental, mas sim o seu fruto. Devemos viver sempre e em toda parte a comunhão espiritual com Cristo, a familiaridade com Ele, porque é por isso que a Eucaristia e todos os sacramentos nos são dados. Um autor cisterciense do século XII, Guilherme de Saint-Thierry, expressa bem isso: ‘Se então tu quiseres, e se realmente o quiseres, a qualquer hora do dia ou da noite, a substância do sacramento eucarístico estará à sua disposição. [...] Toda a vez que, em memória daquele que sofreu por ti, deixares permear a tua alma permear por esse evento com toda a tua piedade e a tua fé, tu comes o seu Corpo e bebes o seu Sangue; e por todo o tempo que, com amor, permaneceres nele, e ele permanecer em ti, serás contado como parte do seu Corpo e como um dos seus membros” [11].

 

Notas:

 

[1] Cfr. Rivista di Pastorale Liturgica, número especial (março de 2020) publicado gratuitamente online.

[2] P. Tomatis. “Celebrare l’Eucaristia in streaming”. Rivista di Pastorale Liturgica, número especial, março de 2020, p. 16.

[3] Cfr. E. Carrère. Il Regno. Adelphi, 2014, p. 424.

[4] G. Lafont. Un cattolicesimo diverso. EDB, 2019, p. 36.

[5] Gregório Magno. Commento morale a Giobbe, V, 6.

[6]. Ibidem, p. 73.

[7]. Ibidem. Padre Ghislain evoca de modo sugestivo, citando Karl Rahner, três tempos da história da Igreja: até Niceia, de Niceia ao Concílio Vaticano I e da “convocação do Concílio Vaticano II, um ato verdadeiramente profético” que pode ser entendido como “a decolagem oficial desse novo início preparado com muita dificuldade no meio século que o precedeu”.

[8] Ibidem, p. 48.

[9] Bernardo de Claraval. Sermoni sul Cantico di cantici, 83, 4.

[10] Agostinho de Hipona. Sermoni, 227, 1.

[11] Guilherme de Saint-Thierry. Lettera d’Oro, § 119.

 

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