Causalidade da pandemia, qualidade da catástrofe. Artigo de Ángel Luis Lara

Foto: Nik Anderson | Flickr CC

07 Abril 2020

“O principal perigo que enfrentamos é considerar o novo coronavírus como um fenômeno isolado, sem história, sem contexto social, econômico e cultural”, analisa Ángel Luis Lara, espanhol, sociólogo, cineasta e professor de Estudos Cultuais na Universidade do Estado de Nova Iorque, em artigo publicado por El Diario, 29-03-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo.

 

“Não voltaremos à normalidade. A normalidade era o problema”.

 

I.

Em outubro de 2016 os porcos das granjas da província de Guangdong (Cantão), no sul da China, começaram a infectar com o vírus da diarreia epidêmica suína (PEDV), um coronavírus que afeta as células que recobrem o intestino delgado dos porcos. Quatro meses depois, no entanto, os leitões deixaram de dar positivo por PEDV, apesar de que seguiam infectando e morrendo. Tal e como confirmou a pesquisa, tratava-se de um tipo de doença nunca vista antes e que se batizou como Síndrome de Diarreia Aguda Suína (SADS-CoV), provocada por um novo coronavírus que matou 24 mil leitões até maio de 2017, exatamente na mesma região em que treze anos antes se desatou a pneumonia atípica conhecida como SARS.

Em janeiro de 2017, quando a epidemia de suínos na região de Guangdong estava em pleno andamento, vários pesquisadores de virologia dos EUA publicaram um estudo na revista científica “Virus Evolution” que identificou os morcegos como a maior reserva animal de coronavírus no mundo. As conclusões da pesquisa realizada na China sobre a epidemia de Guangdong coincidiram com o estudo americano: a origem do contágio estava localizada precisamente na população de morcegos da região. Como uma epidemia de suínos pode ser desencadeada por morcegos? O que os porcos têm a ver com esses pequenos animais voadores? A resposta veio um ano depois, quando um grupo de pesquisadores chineses publicou um relatório na revista Nature, no qual, além de apontar para o país deles como um foco proeminente do aparecimento de novos vírus e enfatizar a grande possibilidade de sua transmissão aos seres humanos, eles apontaram que o aumento das grandes fazendas de gado alterara os nichos de vida dos morcegos. Além disso, o estudo mostrou que a pecuária industrial intensiva aumentou as chances de contato entre animais silvestres e de criadouros, desencadeando o risco de transmissão de doenças causadas por animais silvestres cujos habitats estão sendo dramaticamente afetados pelo desmatamento. Entre os autores deste estudo está Zhengli Shi, pesquisador principal do Instituto de Virologia de Wuhan, cidade onde se originou a atual covid-19, cuja cepa é 96% idêntica ao tipo de coronavírus encontrado em morcegos por meio de análise genética.

 

II.

Em 2004, a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Organização Mundial de Saúde Animal e a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, mais conhecida como FAO por sua sigla em inglês, notaram o aumento da demanda por proteína animal e a intensificação de sua produção industrial como principais causas do surgimento e disseminação de novas doenças zoonóticas desconhecidas, ou seja, de novas patologias transmitidas pelos animais aos seres humanos. Dois anos antes, a organização de bem-estar animal Compassion in World Farming publicou um relatório interessante sobre o assunto. Para sua elaboração, a entidade britânica utilizou dados do Banco Mundial e das Nações Unidas sobre a indústria pecuária, que foram cruzados com relatórios sobre doenças transmitidas pelo ciclo mundial de produção de alimentos. O estudo concluiu que a chamada “revolução da pecuária”, ou seja, a imposição do modelo industrial de agricultura intensiva ligada às grandes fazendas, estava gerando um aumento global de infecções resistentes a antibióticos, além de arruinar pequenos agricultores locais e promover o crescimento de doenças transmitidas por alimentos de origem animal.

Em 2005, especialistas da Organização Mundial da Saúde, da Organização Mundial de Saúde Animal, do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e do Conselho Nacional de Suínos daquele país prepararam um estudo no qual eles traçaram a história da produção animal desde o modelo tradicional de pequenas propriedades familiares até a imposição de grandes propriedades industriais de confinamento. Entre suas conclusões, o relatório apontou como um dos principais impactos do novo modelo de produção agrícola sua incidência na amplificação e mutação de patógenos, bem como o aumento do risco de propagação de doenças. Além disso, o estudo apontou que o desaparecimento dos modos tradicionais de criação de animais em favor de sistemas intensivos estava ocorrendo a uma taxa de 4% ao ano, especialmente na Ásia, África e América do Sul.

Apesar dos dados e dos pedidos de atenção, nada foi feito para interromper o desenvolvimento da agricultura industrial intensiva. Atualmente, China e Austrália concentram o maior número de grandes fazendas do mundo. No gigante asiático, a população pecuária praticamente triplicou entre 1980 e 2010. A China é o produtor pecuário mais importante do mundo, concentrando em seu território o maior número de “sistemas sem terra”, operações de macro-pecuária nas quais se amontoam milhares de animais confinados. Em 1980, apenas 2,5% do gado existente na China era criado neste tipo de fazendas, enquanto em 2010 já cobria 56%.

Como lembra Silvia Ribeiro, pesquisadora do Grupo de Ação sobre Erosão, Tecnologia e Concentração (ETC), uma organização internacional focada na defesa da diversidade cultural e ecológica e dos direitos humanos, a China é a fábrica do mundo. A crise desencadeada pela atual pandemia causada pela covid-19 apenas retira seu papel na economia global, particularmente na produção industrial de alimentos e no desenvolvimento da pecuária intensiva. Somente a megafazenda da cidade de Mudanjiang, localizada no nordeste da China, abriga cem mil vacas cuja carne e leite são destinados ao mercado russo, e é cinquenta vezes maior que a maior fazenda de corte da União Europeia.

 

III.

Epidemias são o produto da urbanização. Quando cerca de 5 mil anos atrás os seres humanos começaram a se agrupar em cidades com densidade populacional, as infecções conseguiram afetar simultaneamente um grande número de pessoas e seus efeitos fatais se multiplicaram. O perigo de pandemias como a que hoje nos afeta surgiu quando o processo de urbanização da população se tornou global. Se aplicarmos esse raciocínio à evolução da produção pecuária no mundo, as conclusões serão realmente perturbadoras. No espaço de cinquenta anos, a pecuária industrial “urbanizou” uma população animal que antes era distribuída entre pequenas e médias fazendas familiares. As condições de superlotação dessa população em macro-fazendas tornam cada animal um tipo de laboratório potencial para mutações virais que podem causar novas doenças e epidemias. Essa situação é ainda mais perturbadora se considerarmos que a população global de animais é quase três vezes maior que a dos seres humanos. Nas últimas décadas, alguns dos surtos virais de maior impacto foram causados por infecções que, cruzando a barreira das espécies, se originaram na pecuária intensiva.

Michael Greger, pesquisador americano de saúde pública e autor do livro Bird Flu: A virus of our own hachting (Gripe aviária: um vírus de nossa própria incubação), explica que antes da domesticação de aves há cerca de 2.500 anos, a gripe humana certamente não existia. Da mesma forma, antes da domesticação do gado, não há evidências da existência de sarampo, varíola e outras infecções que afetaram a humanidade desde que apareceram em currais e estábulos por volta de 8.000 a.C. Quando as doenças atravessam a barreira das espécies, elas podem se espalhar entre a população humana, causando consequências trágicas, como a pandemia desencadeada por um vírus da influenza aviária em 1918 e que em apenas um ano terminou com a vida de entre 20 e 40 milhões pessoas.

Como explica Greger, as condições insalubres nas trincheiras lotadas durante a Primeira Guerra Mundial não estão apenas entre as variáveis que causaram a propagação rápida da doença em 1918, mas estão sendo replicadas hoje em muitas das fazendas de gado que se multiplicaram nos últimos vinte anos com o desenvolvimento da pecuária industrial intensiva. Bilhões de galinhas, por exemplo, são criadas nessas macro-fazendas que funcionam como espaços lotados capazes de gerar uma tempestade viral perfeita. Desde que a pecuária industrial se estabeleceu no mundo, os anuários de medicamentos estão coletando doenças anteriormente desconhecidas a uma taxa incomum: nos últimos trinta anos, mais de trinta novos patógenos humanos foram identificados, a maioria deles vírus zoonóticos inéditos, como a atual covid-19.

 

IV.

O biólogo Robert G. Wallace publicou em 2016 um livro importante para traçar entre as pautas da produção agropecuária capitalista e a etiologia das epidemias que se desataram nas últimas décadas: Big Farms Make Big Flu (As grandes fazendas produzem grandes gripes). Há alguns dias, Wallace concedeu uma entrevista à revista alemã Marx21 na qual enfatiza uma ideia chave: focalizar a ação contra a covid-19 em ações de emergência que não combatam as causas estruturais da pandemia se constitui em um erro de consequências dramáticas. O principal perigo que enfrentamos é considerar o novo coronavírus como um fenômeno isolado.

Como explica o biólogo americano, o aumento de incidentes virais em nosso século, bem como o aumento de sua periculosidade, está diretamente ligado às estratégias comerciais das empresas agrícolas, responsáveis pela intensa produção industrial de proteína animal. Essas empresas estão tão preocupadas com o benefício econômico, que assumem como um risco lucrativo a geração e a disseminação de novos vírus, externalizando os custos epidemiológicos de suas operações para animais, pessoas, ecossistemas locais, governos e, como estão colocando da atual pandemia, ao próprio sistema econômico mundial.

Apesar de a origem exata da covid-19 não ser totalmente clara, tanto os porcos de granjas quanto o consumo de animais silvestres são indicados como uma possível causa do surto viral, essa segunda hipótese não nos distancia dos efeitos diretos da agricultura intensiva. O motivo é simples: a indústria pecuária é responsável pela epidemia de gripe suína africana (ASF) que devastou as fazendas de suínos chinesas no ano passado. Segundo Christine McCracken, analista de proteína animal da multinacional financeira holandesa Rabobank, a produção chinesa de carne suína poderia ter caído 50% no final do ano passado. Considerando que, pelo menos antes da epidemia de ASF em 2019, metade dos porcos do mundo foram criados na China, as consequências para o fornecimento de carne de porco estão se mostrando dramáticas, principalmente no mercado asiático. É precisamente essa redução drástica no suprimento de carne de porco que teria motivado um aumento na demanda de proteína animal da fauna silvestre, uma das especialidades do mercado da cidade de Wuhan que alguns pesquisadores identificaram como epicentro do surto de covid-19.

 

V.

Frédéric Neyrat publicou em 2008 o livro Biopolitique des catastrophes (Biopolítica das catástrofes), termo que define uma maneira de gerenciar riscos que nunca questiona suas causas econômicas e antropológicas, precisamente a modalidade de comportamento dos governos, elites e uma parte significativa da população mundial em relação à atual pandemia. Na proposta analítica do filósofo francês, as catástrofes envolvem uma interrupção desastrosa que vai além do suposto curso normal da existência. Apesar de sua natureza aparente de evento, eles são processos contínuos que manifestam, aqui e agora, os efeitos de algo já em andamento. Como o próprio Neyrat aponta, uma catástrofe sempre vem de algum lugar, foi preparada, tem uma história.

A pandemia que nos atormenta efetivamente desenha sua condição catastrófica, entre outras coisas, na encruzilhada entre epidemiologia e economia política. Seu ponto de partida está diretamente ancorado nos efeitos trágicos da industrialização capitalista do ciclo alimentar, particularmente da produção agrícola. Além das qualidades biológicas intrínsecas ao próprio coronavírus, as condições para sua disseminação incluem o efeito de quatro décadas de políticas neoliberais que corroeram drasticamente as infraestruturas sociais que ajudam a sustentar a vida. Nessa tendência, os sistemas de saúde pública foram particularmente afetados.

Durante dias, testemunhos de profissionais da saúde que lidam com a pandemia em hospitais circulam nas redes sociais e telefones celulares. Muitos deles concordam no relato de uma condição catastrófica geral caracterizada por uma dramática falta de recursos e profissionais de saúde. Como aponta Neyrat, a catástrofe sempre tem uma historicidade e está sujeita a um princípio de causalidade. Desde o início do século atual, diferentes grupos e redes de cidadãos têm denunciado uma profunda deterioração do sistema público de saúde que, através de uma política continuada de descapitalização, praticamente levou ao colapso da saúde na Espanha. Na Comunidade de Madri, um território particularmente atingido pela covid-19, o orçamento per capita para o sistema de saúde foi reduzido drasticamente nos últimos anos, enquanto um processo crescente de privatização foi desencadeado. Os serviços de atenção primária e de emergência na região já estavam saturados e com escassez de recursos antes da chegada do coronavírus. O neoliberalismo e seus formuladores políticos semearam tempestades para nós, dizendo que um micro-organismo se transformou em uma tempestade.

 

VI.

No meio da pandemia, certamente haverá alguém que se esforçará para encontrar um culpado, seja na pele do bode expiatório ou no papel de vilão. Certamente é um gesto inconsciente chegar à segurança: encontrar alguém para atribuir culpa tranquiliza porque muda a responsabilidade. No entanto, em vez de tentar desmascarar um assunto, é mais oportuno identificar uma forma de subjetivação, ou seja, questionar-nos sobre o modo de vida capaz de desencadear danos tão dramáticos quanto os que existem em nossas vidas hoje. É, sem dúvida, uma pergunta que nem nos salva nem nos conforta, muito menos nos oferece um exterior. Basicamente, porque esse modo de vida é nosso.

Um jornalista se aventurou há alguns dias a oferecer uma resposta sobre a origem da covid-19: “o coronavírus é uma vingança da natureza”. No fundo, ele não está sem razão. Em 1981, Margaret Thatcher deixou uma frase para a posteridade que revelou o significado do projeto em que participou: “a economia é o método, o objetivo é mudar a alma”. A primeira-ministra não enganou ninguém. A razão neoliberal há muito tempo transformou o capitalismo em um estado de natureza. A ação de um ser microscópico, no entanto, não está apenas conseguindo alcançar nossa alma, mas também abriu uma janela através da qual respiramos as evidências do que não queríamos ver. A cada corpo que toca e adoece, o vírus grita porque traçamos a linha de continuidade entre sua origem e a qualidade de um modo de vida cada vez mais incompatível com a própria vida. Nesse sentido, por mais paradoxal que seja, enfrentamos um patógeno dolorosamente virtuoso. Sua mobilidade etérea revela toda a violência estrutural e catástrofes diárias onde ocorrem, ou seja, em toda parte. Na imaginação coletiva, começa a surgir uma racionalidade de ordem bélica: estamos em guerra contra um coronavírus. Talvez seja mais correto pensar que é uma formação social catastrófica que está em guerra conosco há muito tempo.

No curso da pandemia, as autoridades políticas e científicas apontam as pessoas como o agente mais decisivo para deter o contágio. Atualmente, nosso confinamento é entendido como o exercício mais vital da cidadania. No entanto, precisamos ser capazes de levar isso adiante. Se o confinamento congelou a normalidade de nossas inércias e nossos automatismos, aproveitamos o tempo gasto pensando neles. Não há normalidade a que retornar quando o que havíamos normalizado ontem nos levou ao que temos hoje. O problema que enfrentamos não é apenas o próprio capitalismo, é também o capitalismo em nós. Esperamos que o desejo de viver nos torne capazes de criatividade e determinação para construir coletivamente o exorcismo de que precisamos. Isso inevitavelmente afeta as pessoas comuns. Desde a história, sabemos que os governantes e poderosos se esforçarão para fazer o oposto. Não sejamos confrontados, assombrados ou divididos. Não nos permitamos, mais uma vez protegidos pela linguagem da crise, impor-nos a restauração intacta da estrutura da própria catástrofe. Apesar do fato de que o confinamento aparentemente nos isolou, estamos vivendo juntos. Nisso, também, o vírus é paradoxal: coloca-nos em um plano de relativa igualdade. De alguma maneira, resgata do nosso esquecimento o conceito de humanidade e a noção de bem comum. Talvez os fios éticos mais valiosos com os quais começar a tecer outro modo de vida e outra sensibilidade.

 

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