Em novo cargo, cardeal Tagle aponta para as lições do confinamento

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02 Abril 2020

Começar um novo emprego sempre envolve uma curva de aprendizagem, mas o cardeal filipino Luis Antonio Tagle recebeu muito mais do que esperava quando se mudou para Roma em fevereiro para iniciar suas funções como prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos.

A reportagem é de Cindy Wooden, publicada em Catholic News Service, 01-04-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ele não apenas assumiu um novo cargo depois de ser arcebispo de Manila por quase nove anos, mas seu primeiro mês também coincidiu com o início do confinamento na Itália e das restrições de viagens globais por causa da pandemia do coronavírus.

Tagle está vivendo o confinamento – e trabalhando principalmente em casa – no Pontifício Colégio Filipino de Roma, onde “eu me sinto seguro e apoiado por uma comunidade de jovens padres filipinos, asiáticos e africanos que estudam em Roma. Eu espero que a minha presença entre eles também aproxime a Congregação para a Evangelização dos Povos deles, já que seus países e dioceses são atendidos por esse dicastério”.

O cardeal concelebra a missa todas as manhãs com os padres residentes e, todos os domingos, atua como presidente de uma missa transmitida ao vivo no Facebook e seguida por milhares de filipinos em todo o mundo.

“Vir a Roma para uma missão universal no momento em que ocorre o confinamento é algo que ainda me leva a me admirar com as surpresas de Deus”, disse o cardeal no dia 1º de abril em resposta por e-mail a algumas perguntas.

“Eu levo esse paradoxo à reflexão e à oração”, disse ele. “A situação está me reeducando sobre a tensão dinâmica entre o local e o universal.”

A reação global à pandemia mostrou “oportunidades de colaboração mundial, mas também ameaças à solidariedade”, afirmou.

E, como chefe encarregado do escritório de evangelização do Vaticano, ele disse que está vendo um grande potencial para compartilhar o Evangelho naquilo que os católicos, seus padres, paróquias e bispos estão fazendo com as mídias sociais na ausência de missas e encontros presenciais.

Com as atividades paroquiais locais suspensas, “eu fico fascinado com a apreciação renovada do papel das famílias, das escolas e das pequenas comunidades na evangelização”, disse o cardeal. “A liturgia, o ministério ordenado e a religiosidade popular também estão sendo reimaginados, mas com um impulso mais missionário.”

Ele e a equipe da Congregação reconheceram isso, disse ele.

O regime de trabalho em casa de Tagle se aplica não apenas ao seu novo papel como prefeito da Congregação, mas também ao seu serviço contínuo como presidente da Caritas Internationalis, a organização com sede no Vaticano que reúne as instituições de caridade católicas em todo o mundo.

Como essas duas coisas vão funcionar ao mesmo tempo é algo que ele disse que será avaliado com o passar do tempo, mas “a maioria dos países atendidos pela Congregação para a Evangelização dos Povos são os mesmos países em que a Cáritas tem uma presença missionária vibrante”.

“Não devemos esquecer que, em muitas partes do mundo, especialmente entre as comunidades não cristãs, o serviço humanitário de caridade prestado pela Cáritas é muitas vezes o primeiro encontro de pessoas com a pessoa de Jesus, o Evangelho e a Igreja”, disse ele. “Evangelização e caridade se unem.”

E, embora seja necessário e bom ficar na pandemia agora, ele disse que, ao mesmo tempo, “devemos refletir e rezar pela experiência para encontrar o seu significado para nós agora e no futuro”.

Algumas das coisas sobre as quais ele refletiu, incluem:

- O fato de que, com uma interrupção tão grande da economia global, “novas formas de pobreza surgirão. Devemos nos preparar agora para ajudar os novos pobres, a fim de evitar formas de exploração e violência. O transbordamento de compaixão que vimos até agora precisa ser encorajado no futuro pós-pandemia”.

- “Experimentamos formas poderosas de conectividade pela internet. Formação escolar, conferências, reuniões, intercâmbios científicos, primeiros socorros emocionais, bom humor, apresentações artísticas, oração etc. têm sido sustentadas por formas novas e criativas de conectividade humana. Podemos continuar colhendo e desenvolvendo os seus frutos humanizadores para o bem comum.”

- “Podemos nos acostumar com o distanciamento físico e perder a razão social ou humanitária para isso. Devemos ter cuidado para que o confinamento, a quarentena e o distanciamento não se desenvolvam em uma cultura de isolamento, indiferença e preconceito.”

- “Ironicamente”, as medidas para conter o coronavírus “deixaram o ar mais puro, o céu mais azul, as nossas mãos mais limpas, as nossas ruas e casas mais ‘seguras’. Um vírus letal nos fez nos comportar com mais responsabilidade em relação a nós mesmos, à família, à comunidade e à criação. Eu espero que, quando o vírus for embora, os nossos bons hábitos continuem.”

- Com as igrejas fechadas, muitas pessoas estão percebendo o quão importante é a fé e a oração em suas vidas. “Um vírus refletiu para nós a nossa fragilidade, as nossas limitações e a nossa insuficiência. Isso é bastante humilhante para um povo que enlouqueceu de orgulho e de auto-adulação. Mas a memória do vírus deve ser mantida viva para continuarmos humildes e esperançosos”.

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