A ressurreição nos dias de angústia e morte

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31 Março 2020

"A Páscoa está se aproximando, mas hoje mais do que nunca, angústia, desesperança e morte não podem ser classificadas como uma rápida passagem obrigatória em direção à radiante manhã da vitória. O tríduo pascal continuará por longos dias e talvez meses, e teremos que nos perguntar seriamente sobre a advertência de Jesus: 'Maligna é esta geração; ela pede um sinal; e não lhe será dado outro sinal, senão sinal do profeta Jonas' (Lc 11,29). Palavras dirigidas não a todos, mas aos crentes. Nada será concedido à necessidade de magia mais que de profecia. Nem será o calendário litúrgico que decidirá quanto tempo devemos permanecer este ano na escuridão do ventre da baleia", escreve Marinella Perroni, teóloga e biblista, fundadora da Coordenação das Teólogas Italianas, autora de vários livros, professora no Pontifício Ateneu Santo Anselmo de Roma, em artigo publicado por Il Regno, 28-03-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A Páscoa se aproxima, mas o calendário litúrgico e o da epidemia são diferentes: os rigores e o tempo suspenso de uma Quaresma que tomou a cara da quarentena continuará. Então, que sinal há para nós? O sinal de Jonas.

Acrescentar palavras às palavras talvez não deva ser feito. Nem se pode ter a pretensão que as próprias palavras sejam merecedoras de escuta e reflexão mais do que as dos outros. Ainda assim, aquelas vestimentas cor de rosa que alguns presbíteros usaram para celebrar online a Eucaristia no quarto domingo da Quaresma, enviaram um sinal: a Páscoa está chegando. Porque, quando a Quaresma era um período de rígido jejum e privações evidentes, a liturgia convidava a fazer uma interrupção: o roxo dava lugar ao rosa, o canto de entrada se abria com palavras de alegria, era permitido suspender os rigores do jejum para depois repartir para o último trecho de estrada em direção à celebração da mãe de todos as festas, a Páscoa.

Esse sinal ecoa neste tempo blindado, nessa sucessão de dias que são todos iguais, todos pendurados, como a aranha na tela, com poucos fios sutis: a Páscoa está se aproximando, mas não podemos interromper os rigores de uma Quaresma que tomou o nome e as características de uma interminável quarentena, nem sabemos se celebraremos a Páscoa, uma vez que as antigas celebrações religiosas serão impedidas, mas também nos serão proibidos os novos ritos de transumância consumista.

Ministros e ministras de um mundo que já mudou.

Apesar disso, o tumulto de vozes continua a crescer. Elas se perseguem e tentam se sobrepor umas às outras como nunca antes, em uma sarabanda de sinos, megafones, mídia tradicional e novas redes sociais já entupidas de rosários, missas, mil formas diferentes de pregação bíblica ou de exortações espirituais. Chama a atenção a estrondosa oscilação entre reexumações de arcaicas superstições, tão pouco cristãs, e pueris tentativas de recuperar terreno contra a ciência que se impõe com palavras de sabedoria e, ainda mais, com o testemunho de operadores e profissionais da saúde, verdadeiros “ministros” de um mundo já mudado: testemunho em grego se diz martyria, e seu serviço às vezes atinge o martírio; seu “ministério”, aliás, não prevê discriminações, mas vê alinhados na primeira fila tanto homens como mulheres.

Talvez as Igrejas terão que refletir sobre esses homens e mulheres que se parecem com José de Arimateia e Nicodemos, dois discípulos que tiraram na cruz “o corpo de Jesus e o envolveram em lençóis com especiarias” (Jo 19,40) . Esperamos ser capazes de fazê-lo, quando finalmente vermos o final desta “hora” em que a morte parece mais forte do que qualquer esperança, e seremos solicitados a testemunhar que acreditar na ressurreição não significa acreditar no retorno à vida de um cadáver.

Estão se delineando novas formas de sacramentalidade laica, e podemos nos orgulhar disso, porque, se é verdade que a ciência contribuiu e contribui muito para o crescimento da expectativa de vida, é igualmente verdade que, para a beleza e qualidade de vida deram e dão uma contribuição essencial o Evangelho de Jesus, com sua tensão para o Reino de justiça e paz e com seu comando da diaconia, e todos aqueles homens e mulheres que o anunciaram e testemunharam.

O sinal do qual repartir

A Páscoa está se aproximando, mas hoje mais do que nunca, angústia, desesperança e morte não podem ser classificadas como uma rápida passagem obrigatória em direção à radiante manhã da vitória. O tríduo pascal continuará por longos dias e talvez meses, e teremos que nos perguntar seriamente sobre a advertência de Jesus: “Maligna é esta geração; ela pede um sinal; e não lhe será dado outro sinal, senão sinal do profeta Jonas” (Lc 11,29). Palavras dirigidas não a todos, mas aos crentes. Nada será concedido à necessidade de magia mais que de profecia. Nem será o calendário litúrgico que decidirá quanto tempo devemos permanecer este ano na escuridão do ventre da baleia.

Os tempos de fé certamente não são os da epidemia. Por essa razão, no entanto, mesmo sem missas ou passeios, é Páscoa se pudermos entender que apenas um é agora o sinal a partir do qual recomeçar: não devemos procurar entre os mortos aquele que é vivo.

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