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28 Março 2020

“A mercantilização da saúde no Chile, em tempos de propagação da Covid-19, não faz outra coisa a não ser evidenciar lógicas darwinianas em termos de saúde, onde a vida das pessoas depende do bolso de cada um, mostrando um desprezo total com o cuidado da população em geral”, escreve Andrés Kogan Valderrama, sociólogo, em artigo publicado por OPLAS, 26-03-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Como se não fosse pouco as graves violações dos direitos humanos, após 18 de outubro de 2019, a existência de zonas de sacrifício para sustentar um modelo extrativista e o aprofundamento de um sistema de vida baseado no endividamento, no consumismo e na privatização de praticamente todos os âmbitos da vida no Chile, incluindo fontes de água, soma-se a errática resposta do governo de Sebastián Piñera à propagação do coronavírus (Covid-19).

Uma expansão que, embora nenhum governo no mundo tenha problematizado suas causas estruturais, vinculadas à expansão do agronegócio e da indústria da carne (além da absurda retórica conspiracionista de personagens como Donald Trump e Nicolás Maduro), conta com diferentes respostas dos governantes, focadas na aplicação de medidas de prevenção universal para a população, dentre as quais, as que mais têm dado resultado são as que se concentraram no aumento de testes para detectar o vírus, no isolamento de infectados, no distanciamento social e na promoção rigorosa de medidas de higiene.

No caso do Chile, a situação poderá ser muito mais dramática e grave se não forem tomadas fortes medidas de prevenção universal, considerando que já existem mais de mil pessoas diagnosticadas com Covid-19. Apesar disso, o governo Piñera se recusou a declarar quarentena nos níveis nacional e regional, aplicando-a apenas de maneira setorizada (setor leste e centro da capital), pois aparentemente não quer alterar majoritariamente a ordem econômica do país, que estaria acima da vida das pessoas. Por isso, declarou Estado de Exceção e toque de recolher em todo o país, como se o problema fosse de segurança e não de saúde.

Isso dentro de uma estrutura política em que a saúde, como quase tudo o que existe, é regulada pelo mercado, pois não é um direito, mas um bem negociável como qualquer outro produto ou serviço. Isso como consequência da imposição de uma constituição na ditadura de 40 anos atrás, que nega a possibilidade do direito universal, público e solidário à saúde de todas e todos, gerando, ao contrário, um sistema fragmentado, que depende do bolso de cada pessoa.

Não é de se estranhar então que esse modelo comercial de saúde seja evidenciado pela oportunidade de negócio que a Covid-19 gerou, através do aumento dos preços dos medicamentos nas farmácias e do aumento do valor dos testes de prevenção ao coronavírus, que embora possa parecer incomum, não são garantidos pelo Estado do Chile de maneira gratuita e universal, ao contrário de muitos outros países da região e do mundo.

Por tudo isso, mais do que um Estado negligente, estamos diante de um Estado darwinista, que criou as condições para que vivam aqueles que têm meios econômicos para tal, considerando que o número de leitos por habitante no Chile é muito menor que a média dos países da OCDE.

Além disso, se não fosse assim, não se explicaria que, apesar de o foco dos contagiados pela Covid-19 estivesse concentrado no setor oriental da capital, desde o início, área que é de longe a com as maiores receitas da Região Metropolitana (Las Condes, Vitacura, Providencia), não foram tomadas medidas imediatas de isolamento daquelas comunas, revelando sua falta de preocupação com os setores mais empobrecidos.

Da mesma forma, é muito grave que as autoridades chamem para a quarentena voluntária em todo o país, sabendo que a grande maioria dos trabalhadores precisa usar o transporte público para chegar ao trabalho por medo de serem demitidos. A iniciativa de trabalho remoto recentemente promovida pelo governo é voltada para as elites, pois continua desprotegendo aqueles que realizam trabalho físico no âmbito da limpeza e construção, por exemplo.

Em suma, a mercantilização da saúde no Chile, em tempos de propagação da Covid-19, não faz outra coisa a não ser evidenciar lógicas darwinianas em termos de saúde, onde a vida das pessoas depende do bolso de cada um, mostrando um desprezo total com o cuidado da população em geral.

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