Jesuíta espanhol relata sua experiência como vítima e como testemunha da pandemia do coronavírus

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25 Março 2020

"Que bom que esse vírus esteja em todos nós, fazendo com que nos sintamos fracos, tanto os especialistas, os políticos, os profissionais da saúde, os familiares, quanto os doentes. Que oportunidade está sendo aprender a adorar e dar graças pelo mistério da fragilidade e vulnerabilidade que envolve essa aventura da minha vida. Que bom que esta pandemia esteja nos colocando próximo do incondicional da vida que é a morte, porém que é também o amor. E que quando acertamos em expressá-lo estou certo que se revelará mais forte e entrará mais a fundo que o próprio vírus, até o arrancarmos", escreve Severino Lázaro, jesuíta espanhol, assessor da CVX Espanha, em depoimento publicado por Infosj, 24-03-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o depoimento.

Pediram para que eu escrevesse algumas palavras sobre como estou vivendo esse tempo de isolamento. O fato de ter sido tocado pelo coronavírus e ter visto suas garras primeiro em casa e depois no hospital, sem me fazer sentir-me diferente de ninguém, me faz um pouco vítima e outro pouco testemunha, como muitos outros. Creio que a aprendizagem está em ir do primeiro ao segundo.

Vítima, como tanta gente que padece e sofre ao meu redor. Com essa incerteza de ver os sintomas aparecerem e me dar conta de que nada me acalma, de que nada alivia, nem esses remédios de paracetamol, ibuprofeno, nolotil, e tantos outros calmantes. Que desespero cheguei a sentir com essa maldita febre que não passa!

Esquizofrenicamente desinformado

Vítima, porque me senti esquizofrenicamente desinformado do que realmente acontecia comigo. Pois nos números oficiais de telefone que eu ligava, nos quais nunca me atendiam, os médicos me negavam tudo nos passos prévios à baixa, “fica em casa”, me diziam, “será uma gripe, será um quadro viral”, e então, “bem, vamos fazer um teste e depois tu voltas para casa”... Quando por outro lado, os meios de comunicação me inundavam de informação sobre os sintomas, e dia a dia, desde minha casa, comprovavam que eram os mesmos que eu sentia. Eu não entendia nada!

Vítima também de me ver de repente marcado como alguém que precisa se isolar imediatamente e que precisa se prevenir, de precisar avisar urgentemente o que tenho, para que todos aqueles com que estive em contato se colocassem rapidamente em quarentena. O que me fez ver o rosto mais amargo desta pandemia: estou contagiado e condenado a estar só, apartado.

Ainda ressoa em minha cabeça o grito de uma enfermeira dizendo à outra que se dispôs a entrar em meu apartamento: “Não entre no 325 por nada neste mundo!”.

Quantos apartamentos e domicílios têm essa marca, se fala e colocam a comida na porta, ou ligam pelo telefone uma miserável vez por dia desde os centros médicos, para pouco a pouco deixá-los morrer, como a Pepi, a sacristã de nossa paróquia.

Porém, essa vivência de vítima, que talvez é a primeira, tem que ir dando passagem à outra, a de testemunha, e esta, ao menos em meu caso, está sendo a vivência mais profunda e mais fecunda, no que consigo ver.

Testemunha de ver como a fraqueza me tangencia, se instala em minha vida ou chega a me invadir: é muito duro viver aí, durante minutos, horas, dias que se fazem eternos... porém ao mesmo tempo é muito fecundo, porque tocou o húmus e a terra de que realmente sou feito, um ser terreno, finito, fragmentado... Muito longe desse endeusamento e centralidade na qual gosto de viver, e pelo que me afano cada dia desde minha perícia pessoal ou profissional.

Que bom que esse feliz vírus esteja em todos nós, fazendo com que nos sintamos fracos, tanto os especialistas, os políticos, os profissionais da saúde, os familiares, quanto os doentes.

Que oportunidade está sendo aprender a adorar e dar graças pelo mistério da fragilidade e vulnerabilidade que envolve essa aventura da minha vida.

“O melhor que posso”

Testemunha de ver como tantas e tantas pessoas desde diferentes postos fazem tudo o que podem. Conta-se como Van Eyck e alguns outros pintores flamencos assinavam seus quadros com uma mesma frase que dizia: “como melhor pude”. E essa é a assinatura que todos estamos pondo nessa quarentena.

Eu gostaria de estar melhor que muitas vezes me descobri, viver melhor esse momento difícil, me sentir mais útil a partir do que vou fazendo ou queria fazer... Todos estamos longe ou muito abaixo disso pelo tanto que nos medem nas empresas e trabalhos: nosso rendimento profissional. Porém, quem nos colocou isso na cabeça. O que a vida me pede nesta e em qualquer outra circunstância é que faça “o melhor que pode”.

E tem sido tão bonito ver isso nos cuidados das pessoas da comunidade em que vivo e que tão carinhosamente me atendem no isolamento, como em Raúl, o médico que durante esses cinco dias que estive em casa me ligava pela manhã, pela tarde e pela noite, como toda a equipe do hospital de Asisa, em Moncloa, onde estive internado por cinco dias, como em toda essa corrente de mensagens de ânimo e oração que recebi e recebo por telefone, como na sociedade inteira que o único que pode ser feito é ficar em casa e aplaudir agradecidamente todos os dias às 20h. Que grande aprendizagem é nos sentirmos menos eficazes, mais torpes, fazendo somente “o melhor que podemos”.

Testemunha do incondicional

Testemunha, finalmente, do incondicional. Não tenho dúvidas de que essa pandemia está me obrigando em todos esses dias a olhar de frente esse acontecimento ao que sempre tento esquivar: a morte. A vejo nas cifras que cada dia se vão multiplicando e que já não são cifras, mas sim rostos e histórias de pessoas que amo, próximas à família, do bairro que vivo, do trabalho, da paróquia da qual faço parte, a todos os âmbitos da sociedade...

Em meus dias de hospitalização, nas quatro noites os gritos do paciente do quarto ao lado me acordavam, pois mesmo com oxigênio e tudo, vinham ataques de tosse que tentavam o afogar... e eu, ao lado, rezava.

Minha mãe, que também me ligava cada dia duas vezes, na terça-feira, 17, me contava como no domingo, 15, quando avisei no grupo de Whatsapp da família que me levavam ao hospital, disse que falou ao meu irmão que mora com ela para que a acompanhasse até à igreja para rezar. Eu, sem deixá-la terminar, perguntei: “não pediu a Deus que me cure, sim ou sim? ”. E ela, com sua fé de 84 anos, me disse: “não filho, como pensas que eu pediria isso a Deus, se não somos nada. Somente pedi para que te cures se o convém”. “E depois supliquei todo o tempo para que onde tu fores, que me levasse contigo. Que somente junto a ti quero estar, aonde for”. Nessa hora, eu somente chorava. Porém, nesses dias, lembro dela, e sinto que aí comecei a melhorar. Aqui dentro de mim, onde até então só existiam o vírus e a solidão que o acompanhava, de repente senti que mais a fundo, inclusive, e pulando todos os protocolos, se havia posto o amor incondicional de minha mãe.

Que bom que esta pandemia esteja nos colocando próximo do incondicional da vida que é a morte, porém que é também o amor. E que quando acertamos em expressá-lo, como minha mãe comigo, estou certo que se revelará mais forte e entrará mais fundo que o próprio vírus, até o arrancarmos.

Assim, que não deixemos de gastar no telefone para gritar a todos os que se sentem sós e aos doentes que não estão, que há algo mais forte, que é o amor que temos.

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