4º Domingo da Quaresma – Ano A - Viver como filhos e filhas da Luz

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Por: MpvM | 20 Março 2020

Quantas injustiças cometemos e quanto bem deixamos de fazer, às vezes, por não valorizarmos a pessoa ou não percebermos o bem que ela faz a um outro, que nós por vários motivos deixamos de fazer! No Evangelho que lemos hoje, o grande impedimento para o bem foi a Lei. E atualmente, o que nos impede?

A reflexão é de Maria Heloísa Helena Bento, SND, religiosa da Congregação das Irmãs de Notre Dame, SND. Ela cursa o 5º ano do curso de Teologia PUC-RJ e é assessora do Ensino religioso do Colégio Notre Dame Ipanema Rio de Janeiro e Farmacêutica no CMS Necker Pinto, Ilha do Governador – RJ.

Referências bíblicas
1ª Leitura - 1Sm 16,1b.6-7.10-13a
Salmo - Sl 22,1-3a.3b-4.5.6 (R. 1)
2ª Leitura - Ef 5,8-14
Evangelho - Jo 9,1-41

Na liturgia de hoje, a primeira leitura (1 Sm 16, 1b.6-7) nos traz a unção de Davi por Samuel. E na segunda leitura (Ef 5,8-14), temos o apóstolo Paulo que exorta a comunidade de Éfeso a viver como filhos da luz, que é o próprio Cristo. Estamos diante de dois elementos significativos: a unção e o convite a viver como filhos da luz. Esses elementos irão aparecer no Evangelho de João Jo 9, 1- 47, que eu estarei comentando hoje. Aqui Jesus unta os olhos do cego e este parte da treva para a luz.

Este capítulo de João faz parte de um grupo onde o autor nos apresenta uma série de sinais que têm a função de revelar a natureza de Jesus e sua missão aqui entre nós. Uma das características do Evangelho de João é a sua dimensão simbólica, que provêm de dois campos: primeiro do cotidiano e segundo do Antigo Testamento.

Os sinais que João nos apresenta são sete, iniciam com as bodas de Caná e vão adquirindo uma maior complexidade até chegar à ressurreição de Lázaro.

  • As bodas de Caná (2,1-12)
  • Cura do filho de um funcionário (4,43-54)
  • Cura do paralítico (5,1-47)
  • Multiplicação dos pães (6,1-15)
  • Caminhar sobre as águas (6,16-70)
  • Cura do cego de nascença (9,1-41)
  • Ressurreição de Lázaro (11,1-54)

Temos aqui dois pontos a serem considerados: o amadurecimento da fé daqueles que caminharam com Jesus e a condução da comunidade joanina para uma reflexão sobre a sua situação: naquele momento, o conflito com o judaísmo.

E hoje, em meio a tanta desigualdade, o que o Evangelho nos quer falar?

Temos nessa narrativa alguns personagens: Jesus, os discípulos, o cego, os conhecidos do cego, os fariseus, outro grupo de judeus e seus pais.

Jesus vê o cego, mas este não o interpela como fez aquele outro cego, o Bartimeu, citado em Mc10,46-52, que gritava em meio à multidão.

Estamos diante de duas vidas que poderiam ter seguido o seu caminho, o cego mendigo continuaria ali na periferia da vida com os seus e Jesus seguiria com os seus discípulos até o seu destino final. Mas são os discípulos com seus questionamentos que abrem espaço para que mais um sinal aconteça.

Quem foi que pecou para que ele nascesse cego? ele ou seus pais? Essa pergunta pressupõe um castigo hereditário; ela brota no coração daqueles que ainda precisam amadurecer na fé. E jesus responde: nem ele e nem os seus pais. Ele é cego para que nele se manifeste a obra de Deus.

Este nascer cego sem culpa própria nem de seus pais representa a condição do ser humano: “carne” por oposição a “espírito”. Ser carne é a debilidade própria da condição que possibilita que ele seja oprimido. Ele é cego porque os opressores jamais lhe permitiram ver. Ele não é cúmplice, mas vítima dos pecados do mundo; aqui, o pecado dos dirigentes que exercem a opressão, dos detentores do poder, daqueles que manejam a Palavra de Deus de forma autoritária, fazendo com que aquelas pessoas que não pertencem ao mesmo grupo, tenham a sensação ou acreditem que não são merecedoras de toda Graça que vem de Deus.

Os pais do cego não tinham pecado, porque não tinham podido dar ao filho uma condição diferente da sua: de forma passiva aceitavam a sua “sorte” sem questionar. A eles foi negado o direito de acreditar que as coisas poderiam ser diferentes, e sonhar com um futuro melhor para o seu filho; silenciosamente, passivamente eles só têm o direito de aceitar.

Mais uma vez Jesus põe em evidência a pessoa do outro com quem “nós temos que realizar as obras daquele que me enviou”. Ele divide a responsabilidade com os seus discípulos, evidencia a correlação que deve existir entre os irmãos. E dá a eles a oportunidade de assumirem a sua maioridade, pois chegará o tempo em que ele, Jesus, não mais estará entre eles e cada um terá que responder por seus atos; cada um terá que assumir a sua cruz.

Uma ação não acontece sozinha: os discípulos questionam Jesus, que aproveita o momento para a sua catequese. Ele age com aquele que nada tem, não pede permissão, faz a lama com a saliva e passa nos olhos daquele que não vê, mas para que sua ação se complete é necessário que o cego aja, que ele caminhe até a piscina de Siloé e lá se lave. É a atitude daquele que percebe que não pode se acomodar com a sua situação e com seus pés caminha em busca da verdade. Neste momento o cego também assume a sua maioridade. Interessante como João se utiliza dos elementos da natureza, aqui a terra, para mostrar o quanto esta também é importante neste mosaico que é a vida. O elemento terra mais uma vez sendo utilizado para dar vida. Se em Gênesis temos uma narrativa em que o ser humano foi feito do barro, aqui o fazer lama para passar nos olhos simboliza a nova criação.

Seus conhecidos percebem a transformação; para aquela gente humilde o mais importante era a visão recuperada daquele cego de nascença e todo o processo como se deu. Só aquele que fala em nome de Deus pode operar uma cura. O questionamento que se segue: “onde está ele?” desnuda a curiosidade daqueles que, em algum momento, se inquietaram com sua própria vida, sua condição, sua pobreza. Com a grande desigualdade e com a violência que os impediam de sonhar.

Os fariseus e autoridades judaicas, todos rigidamente imobilizados pela lei, não conseguiam perceber a bem-aventurança. A rigidez da Lei mosaica impedia que eles priorizassem o bem acontecido. Aquele que cura não mais fala em nome de Deus, pois a cura se deu em um dia de sábado. Mais uma vez João nos mostra que na dinâmica da vida o ser humano tem a prioridade, mas só os mais humildes conseguem perceber.

Quantas injustiças cometemos e quanto bem deixamos de fazer, às vezes por não valorizarmos a pessoa ou não percebermos o bem que ela faz a um outro, que nós por vários motivos deixamos de fazer! Aqui o grande impedimento para o bem foi a Lei, e atualmente o que nos impede?

Aquele que havia sido cego um dia e fazia parte de um grande grupo de invisíveis, perdeu uma de suas condições, a cegueira, mas ganhou outra a de perseguido. A graça que ele havia recebido, a capacidade de ver e assim fazer uma leitura crítica de sua realidade, ameaçava aqueles que estavam no poder e punha em perigo até mesmo aqueles que estavam ligados a ele, os seus pais.

Estes por medo de retaliações optaram por só responder o que lhes perguntavam, transferiram a responsabilidade do conhecimento, da verdade dos fatos, para o filho. Eles, como muitos, carregavam em seu interior a certeza de que não adiantava mudar, que a vida era assim mesmo, e de que eles não eram merecedores de uma história diferente. Optaram por ficar em sua menoridade.

Aquele que recebeu a graça da cura, que nem nome possuía, pois representava todos aqueles que viviam em sua condição, aceitou a verdade, assumiu a sua maioridade e com ela todos os riscos que aqueles que se deixam abandonar por Jesus Cristo assumem. Neste caso foi expulso pelos judeus. Quando tudo parece que não vai dar certo, Jesus o interpela. Nosso Senhor nunca abandona aqueles que sofrem. “- Crês no Filho do Homem? - Quem é senhor, para que eu creia nele? -Tu o vês, é aquele que fala contigo. E aquele homem se prostra”. Uma atitude cheia de coragem, de sinceridade e de simplicidade diante daquele que o libertou das trevas e carinhosamente lhe mostrou a Luz.

O final deste capítulo nos traz um diálogo entre jesus e os fariseus, onde a cegueira é novamente o assunto principal. Se no início temos a cegueira física, onde não há culpados, não há pecado, pois ninguém pode ser responsabilizado pela situação em que vive; agora temos presente a cegueira espiritual, que é aquela que, de forma consciente, se manifesta pela não abertura à ação de Deus. Esta sim que é a verdadeira expressão do pecado.

Que o Nosso Bom e Providente Deus esteja entre nós.

 

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