A pobreza, a doença dos pobres

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19 Março 2020

“Lutar decisivamente contra a doença chamada pobreza significa questionar um modelo econômico esgotado e insustentável, algumas estruturas oligárquicas, algumas instituições ineficientes, capturadas pelos poderosos, e algumas políticas que só a eles beneficiam”, escreve Fernando Luengo, economista, em artigo publicado por Público, 17-03-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Estamos apreensivos devido ao avanço até agora imparável do coronavírus e pelas enormes consequências econômicas e sociais que já são evidentes. A doença irrompeu ferozmente em nosso cotidiano, alterando-o substancialmente.

Nessa situação crítica, de verdadeira emergência, talvez seja o momento de fazermos algumas perguntas que, normalmente, não nos perguntamos, mas que também têm a ver com a doença. Antes da irrupção do coronavírus, que a Organização Mundial da Saúde já descreve como pandemia, por acaso não existiam doenças dessa envergadura ou inclusive mais graves?

Sim, existiam e existem, mas estamos longe, ou ao menos acreditamos nisso, habitam o universo dos pobres. Doenças como a malária, a cólera, o sarampo, a difteria, a AIDS... causam milhões de mortes todos os anos e um extraordinário sofrimento para a população que as padece. Mas raramente os meios de comunicação se ocupam, mesmo que marginalmente, com essa tragédia permanente, muito menos geram alguma resposta dos governos e instituições internacionais, além dos hipócritas e inúteis lamentos aos quais estamos acostumados.

As causas imediatas da maioria dessas doenças são bem conhecidas. Estão relacionadas à fome e à desnutrição infantil, à poluição da água e à ausência de redes de saneamento, à falta de médicos, medicamentos e instalações sanitárias, às más condições nas quais ocorrem os partos, com a ausência de pesquisa sobre as patologias que afetam os pobres, com o negócio descarado e muito lucrativo de patentes controladas por grandes empresas farmacêuticas, com a destruição de ecossistemas que sustentam a vida dos povos e com as guerras causadas pela muito rentável indústria militar, que, em busca de mercados, incentiva todos os tipos de conflitos.

Essas e outras doenças semelhantes têm sua origem na pobreza, na qual uma parte muito importante da população mundial está presa. Reconhecendo todas as deficiências e limites da informação proporcionada pelo Banco Mundial (BM), as estatísticas sobre pobreza severa ou extrema nos apresentam um panorama que só pode ser descrito como terrível.

Utilizando a mesma classificação que essa instituição administra, em países de baixa renda (31), 45% da população total, 294 milhões de pessoas, sobreviviam, em 2015, último ano sobre o qual o Banco Mundial oferece informações, com menos de 1,9 dólares diários (expressados em paridade de poder aquisitivo). Naqueles classificados como de renda média-baixa (47), cerca de 1,3 bilhão de pessoas, 44% da população sobrevivem com uma renda inferior a 3,2 dólares. Finalmente, nos países de renda média-alta (60), cerca de um quinto da população, 631 milhões de pessoas, tinham, no ano em que estamos tomando como referência, uma renda inferior a 5,2 dólares. No total, em 2015, o número de pobres atingia 2,2 bilhões de pessoas, o que representava 30% da população mundial.

Recordemos que estas estatísticas se referem a níveis extremos de existência - a pobreza, medida com critérios menos rigorosos, é muito maior -, o que impede a cobertura das necessidades mais elementares das pessoas, o que as coloca em uma situação de vulnerabilidade grave e persistente diante da doença.

Nesse longo olhar que agora é mais necessário do que nunca, precisamos estar cientes de que o problema dos pobres e das doenças que sofrem nos fala de uma globalização que seus defensores prometeram que seria um jogo de soma positiva, onde todos ganhariam, especialmente as economias atrasadas e os setores mais desfavorecidos. Mas a verdade é que, em aspectos fundamentais, fracassou. A globalização realmente existente é profundamente assimétrica e manteve e ampliou as diferenças entre países, regiões e classes sociais.

O capitalismo dos “países desenvolvidos”, que tantas vezes foi apresentado como um modelo a ser imitado, por ter alcançado altos níveis de prosperidade, eficiência e incorporar boas práticas econômicas ... esse capitalismo se sustentou e ainda se sustenta em uma relação profundamente irregular com a periferia.

Nesse sentido, os países pobres viram como suas matérias-primas e recursos foram sistematicamente esgotados, se tornaram um aterro onde se deposita o lixo gerado por nossos sistemas de produção e padrões de consumo. Sua força de trabalho tem sido usada por empresas transnacionais em condições de semiescravidão, sofrem uma relação de preços entre suas exportações e importações claramente desfavorável e, em seus territórios, os bancos realizam negócios formidáveis por conta da dívida externa, que pagaram várias vezes. Tudo isso supôs uma transferência sistemática e enorme de renda e riqueza que, além de beneficiar as elites, financiou nosso crescimento econômico.

Lutar decisivamente contra a doença chamada pobreza significa questionar um modelo econômico esgotado e insustentável, algumas estruturas oligárquicas, algumas instituições ineficientes, capturadas pelos poderosos, e algumas políticas que só a eles beneficiam.

 

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