Águas provisórias ou água Viva?

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • A barbárie com rosto humano. Artigo de Slavoj Zizek

    LER MAIS
  • Uma bênção “Urbi et Orbi” incomum: a liturgia em tempos de pandemia. Artigo de Massimo Faggioli

    LER MAIS
  • ‘Após o coronavírus, o mundo não voltará a ser o que era’

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


13 Março 2020

Naquele tempo, Jesus chegou a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacó tinha dado ao seu filho José. Era aí que ficava o poço de Jacó. Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço. Era por volta de meio-dia. Chegou uma mulher de Samaria para tirar água. Jesus lhe disse: "Dá-me de beber".

Os discípulos tinham ido à cidade para comprar alimentos. A mulher samaritana disse então a Jesus: "Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?". De fato, os judeus não se dão com os samaritanos.
Respondeu-lhe Jesus: "Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede 'Dá-me de beber', tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva".

A mulher disse a Jesus: "Senhor, nem sequer tens balde e o poço é fundo. De onde vais tirar água viva? Por acaso, és maior que nosso pai Jacó, que nos deu o poço e que dele bebeu, como também seus filhos e seus animais?".

Respondeu Jesus: "Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. Mas quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna".

A mulher disse a Jesus: "Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la". "Senhor, vejo que és um profeta! Os nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que em Jerusalém é que se deve adorar."

Disse-lhe Jesus: "Acredita-me, mulher: está chegando a hora em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis. Nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus.

Mas está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. De fato, estes são os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito, e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade".

A mulher disse a Jesus: "Sei que o Messias (que se chama Cristo) vai chegar. Quando ele vier, vai nos fazer conhecer todas as coisas". Disse-lhe Jesus: "Sou eu, que estou falando contigo”.

Muitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus. Por isso, os samaritanos vieram ao encontro de Jesus e pediram que permanecesse com eles. Jesus permaneceu aí dois dias. E muitos outros creram por causa da sua palavra. E disseram à mulher: "Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós mesmos ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o salvador do mundo".

Leitura do Evangelho de João 4,5-15.19b-42. (Correspondente ao 3º Domingo de Quaresma, ciclo A do Ano Litúrgico).

O comentário é de Ana Maria Casarotti, Missionária de Cristo Ressuscitado.

Águas provisórias ou água Viva?

Neste terceiro domingo de Quaresma, a liturgia oferece-nos a leitura da narrativa do evangelho de João que relata o encontro de Jesus com uma mulher samaritana. Numa leitura rápida do texto percebe-se um diálogo entre Jesus e uma mulher de Samaria estabelecido em torno da sede, a necessidade da água, o lugar onde se deve adorar a Deus, a pergunta sobre a pessoa de Jesus. Finaliza com um grupo de samaritanos que, movidos pelas palavras da mulher, vai ao encontro de Jesus e acredita nele como o Salvador do mundo.

Numa leitura do evangelho de João percebe-se que a simbologia da água aparece em vários momentos, mas com sentidos diferentes. Pode-se dizer que há águas que são imperfeitas e provisórias porque fazem referência a uma determinada situação: a água que converte ou que purifica, a água que sacia a sede ou que cura, e a água Viva que traz Jesus que permanece para sempre gerando Vida.

João Batista, o Precursor, realiza um batismo nas águas do Jordão. É um batismo de purificação e de conversão que prepara a pessoa para receber o Messias esperado. É uma prática que não atinge a verdadeira liberdade interior, mas antecipa outra realidade que deve vir. Como ele mesmo disse: “Eu sou uma voz gritando no deserto: ‘Aplainem o caminho do Senhor’, como disse o profeta Isaías”.

Nas bodas de Caná a água aparece em vários momentos. Num primeiro momento como resposta de Jesus ao pedido de Maria, em que Jesus manda encher de água os potes que serviam para os ritos de purificação dos judeus. Logo aparecerá como “água transformada em vinho” e, finalmente, há uma menção à origem da água (Jo 2,9). Nesta narrativa das bodas a água é o elemento escolhido por Jesus para ser transformado. Os potes foram cheios “até a boca”, mostrando assim que não há uma quebra com o passado senão uma continuidade. A água é necessária porque fundamenta a nova realidade que traz Jesus. É uma água conhecida na sua origem, mas que será mudada. Pode-se dizer então que é uma água necessária, mas
imperfeita.

Os ritos de conversão – batismo de João – e purificação a que se faz referência já não são suficientes e Jesus traz uma nova realidade.

No diálogo de Jesus com Nicodemos (Jo 3), a água aparece como uma resposta de Jesus diante da incompreensão de Nicodemos: “Ninguém pode entrar no Reino de Deus se não nasce da água e do Espírito”. Nesta narrativa a água está unida à presença do Espírito como uma menção ao batismo e à vida nova que será oferecida por Jesus por meio do seu Espírito.

O texto que é lido neste domingo começa com a chegada de Jesus a “uma cidade de Samaria chamada Sicar”. Neste relato a água tem uma função central.

Para interiorizar-nos no texto que foi lido hoje, imaginemos uma mulher que ao meio-dia, como de costume, caminha até o poço à procura de água. Mas no caminho ela vê que junto ao poço há um homem sentado. Ela chega ao poço e o homem pede-lhe água. Como é possível que este homem dialogue com ela? E além disso ele é judeu! Para essa mulher isso não pode ser possível e por isso escutamos sua resposta: "Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?".

No diálogo com Jesus percebe-se o desconcerto da mulher por esse colóquio que começou Jesus e ainda com um pedido. Um homem não pode falar com uma mulher a sós. Ela não o compreende. Ele pede-lhe água, mas diante da surpresa dela expressada na sua resposta ele oferece-lhe outra água: "Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede 'Dá-me de beber', tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva".

Como é possível fazer isso? Ele não tem cuba e não tem como tirar a água de um poço que é fundo. Ela procura fazer-lhe sentir seu desconhecimento das tradições: “Por acaso, és maior que nosso pai Jacó, que nos deu o poço e que dele bebeu, como também seus filhos e seus animais?". A mulher fundamenta na tradição patriarcal do seu povo e do poço sua resposta. Ela sabe quem são seus antepassados e conhece sua história.

Para entender melhor essas palavras, lembre-se de que nas tradições hebraicas antigas há vários textos que fazem referência a Moisés e à simbologia do poço. Disse-se que assim como Moisés, o primeiro redentor, fez brotar água do poço, o último redentor faria brotar água eternamente. E na cultura do povo samaritano a simbologia do poço faz referência à Lei e à sabedoria que brota dele como um manancial de água viva que alimentará sua vida para sempre.

A mulher ama seu lugar de culto, sua terra, sua história, e no diálogo com Jesus justifica suas terras, seus costumes e práticas. No desenvolvimento desta conversa percebem-se premissas que recolhem a história patriarcal. Mas essa história favorece a separação dos povos e assim cada um justifica seu agir social e religioso. Os judeus não se relacionam com os samaritanos porque são considerados dois reinos separados.

Mas neste momento Jesus está sentado junto ao poço com a promessa de água que saciará toda a sede. A água do poço de Jacó já não sacia mais a sede profunda. A descrição de Jesus sentado “à borda do poço” sinala que Jesus não está acima da Lei e apresenta uma continuidade entre a presença de Israel, sua história e sua espera na promessa de Deus. Com Jesus já não se precisa mais da água deste poço nem de outro. A água que ele oferece não brota deste poço, nem de outro. É uma água que tem algumas características: brota da sua própria pessoa, sacia a sede para sempre e se torna, dentro da pessoa, uma “fonte que jorra para a vida eterna”. Cada pessoa se converterá num manancial de vida que brota para a vida eterna.

Quando a samaritana experimenta esta realidade já não precisa mais de um cântaro para tirar a água e por isso ela “deixou o balde” e vai correndo à cidade para anunciar aos seus a novidade do Messias no meio deles. Junto ao poço que era fundo e isso dificultava para tirar água, a mulher samaritana encontra uma fonte de água viva que jorra no seu interior, sem necessidade de cântaro, porque brota da sua mesma interioridade. Já não precisará se trasladar para procurar água. A promessa de Jesus realiza-se nesse diálogo-encontro com ele.

Deixemos que este relato ecoe no nosso interior. Pensemos assim nas mulheres que se devem esconder do olhar do povo e caminham sozinhas pela vida à procura de uma água que sacie sua sede profunda. Quantas mulheres que para os vizinhos e povoados são menosprezadas pela sua vida e sua história e escondem no seu interior um manancial de vida que jorra para sempre. Escutemos suas palavras como o povo samaritano e sigamos suas indicações para poder dizer como eles "Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós mesmos ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o salvador do mundo".

Recebamos o pedido do Senhor da nossa água limitada e pobre, e entregando-lhe nossa fraqueza e nossa história nos abrimos a acolher sua promessa da Água Viva que jorra como um manancial eternamente.

Oração

Espera

Esperarei que cresça
a árvore,
e me dê sombra.
mas abonarei a espera
com minhas folhas secas.

Esperarei que brote
o manancial
e me dê água.
mas limparei meu leito
de memórias enlameadas.

Esperarei que surja
a aurora,
e me ilumine.
mas sacudirei minha noite
de prostrações e sudários.

Esperarei que chegue
o que não sei,
e me surpreenda.
mas esvaziarei minha casa
de tudo que é esclerosado.

E ao abonar a árvore,
limpar o leito,
sacudir a noite,
e esvaziar a casa,
a terra e o lamento
se abrirão à esperança.

Benjamin González Buelta.
Salmos para sentir e saborear as coisas internamente.  

Leia mais:

 

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Águas provisórias ou água Viva? - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV