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10 Março 2020

Medo provocado pela extensão do coronavírus já se deixa sentir em alguns setores. As Bolsas têm fortes paradas de atividade em todo o mundo.

A reportagem é de María Fernández, publicada por El País, 09-03-2020.

Na terça-feira a polícia prendeu um caminhoneiro britânico no porto de Tânger. O homem tentava retirar ilegalmente do país 100.000 máscaras pensando que esses pedaços de papel que custam alguns centavos poderiam chegar a valer 30 euros (156 reais). Não estava enganado: desde a explosão do coronavírus, sua venda na Amazon se parece cada vez mais com um leilão de joias na Sotheby’s.

Medo, pânico, desespero, cobiça.

A mesma sequência está sendo vista na economia, que queima em seu próprio pesadelo além do quão grave possa ser a emergência sanitária. “O pior está por vir”, era a manchete de um relatório do banco Nomura na quinta-feira. Bem-vinda a prudência.

A Índia, o maior fornecedor de medicamentos genéricos do mundo, decidiu nessa semana restringir as exportações de uma dúzia de princípios ativos para proteger seus inventários, em perigo pelo surto. Entre eles, o simples paracetamol.

A Alemanha tomou medidas para limitar a exportação de equipamentos de proteção como máscaras. Aumentam os anúncios de empresas “à beira de” algo terrível.

A Flybe, uma companhia aérea britânica, acaba de quebrar levada pela situação, não sem antes pedir auxílio ao Governo de Boris Johnson (tinha o caixa vazio há tempos).

A General Electric acha que a epidemia reduzirá seu resultado em 300 milhões de dólares (1,4 bilhão de reais) no primeiro trimestre.

As empresas aéreas podem perder até 113 bilhões de dólares (522 bilhões de reais) em renda nesse ano, de acordo com uma estimativa da patronal IATA.

Um relatório do Credit Suisse fala que o impacto nas vendas da Inditex poderia ser (sempre no condicional) de quase cinco pontos no segundo trimestre. A revisão dos números de crescimento por parte de órgãos internacionais é constante. Porque a doença viaja sem controle pelas cadeias de fornecimento e o medo causa reações variadas.

A decisão do Governo espanhol de estudar a possibilidade de que os trabalhadores afetados por expedientes de regulamentação de empregos temporários não gastem dias de paralisação enquanto o vírus estiver ativo é um exemplo de como a venda chega antes da ferida.

A Volkswagen está avaliando a possibilidade de fazer essa parada (ERTE) em Navarra pela falta de peças de um fornecedor italiano, mas ainda não tomou a decisão, e a Fujitsu fez o mesmo em sua fábrica de Málaga, ainda que não a tenha consumado

Nessa linha, a avaliação que a UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento), agência da ONU, acaba de fazer sobre os efeitos econômicos do Covid-19 tem muitos ingredientes preocupantes, mas a maioria é mero efeito dominó. A contração de 2% da produção da China durante o último mês, na verdade a verdadeira origem do tsunami, se revela com capacidade para frear a economia do planeta através das redes de valor regionais, de Washington a Tóquio, passando por São Paulo — no Brasil, empresas já anunciam férias coletivas por falta de insumos eletrônicos, enquanto o setor automobilístico lança os primeiros alertas. As perdas estimadas nos primeiros dias chegam aos 50 bilhões de dólares (231 bilhões de reais).

É algo tão grave? Uma crise de oferta, com a paralisação da atividade das fábricas, pode se restabelecer. O problema é que o sistema parece estar reagindo como se fosse o fim do mundo pelo impacto da demanda (se deixa de viajar, de consumir). “É possível comparar com um ataque cardíaco; é um choque repentino que leva a uma contração abrupta da atividade econômica”, diz em uma análise Yves Bonzon, do banco privado Julius Baer.

O corte dos juros do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) foi o sinal mais amargo contra o inimigo invisível. “O Fed está indicando seu pessimismo a longo prazo”, avalia Philippe Waechter, diretor de pesquisa econômica da Ostrum AM em uma nota aos clientes. O analista acha que todas as taxas de juros se manterão baixas durante um prolongado período, “isso reflete a incerteza associada ao coronavírus: não sabemos quando haverá uma vacina e se o final do inverno acabará com a epidemia” acrescenta.

O Goldman Sachs já anunciou que espera que o Banco da Inglaterra faça algo para evitar uma recessão no Reino Unido. Mas é bem pouco provável que isso melhore as coisas. “Os bancos centrais podem desperdiçar sua munição centrando-se no custo do dinheiro baixando os juros em vez de aumentar o acesso ao financiamento”, diz David Lafferty da Natixis.

O oportunismo, esse eco do capitalismo, ressoa forte. Luis Garvía, professor de Finanças do ICADE, diz que a decisão do Fed é extraordinária por várias razões, e nem todas têm a ver com a emergência sanitária. “Uma das ideias principais é a velocidade com que as coisas ocorrem. Não falo de algo ilegal: o mundo se tornou mais complexo e fatores se misturam, é difícil separar uns efeitos de outros”. Um deles se chama eleições nos Estados Unidos. Garvía lembra que o Fed fez seu anúncio na “Superterça” democrata, e que o presidente Donald Trump tem os olhos voltados às eleições do segundo semestre. “Ele pedia há semanas esse corte dos juros, e nenhum político faz algo assim se não estiver pensando em seus eleitores. Antes ou depois o país precisava corrigir seu crescimento. Acho que Trump calcula que essa é uma oportunidade para enviar uma mensagem de tranquilidade”.

Calcanhar de Aquiles

A sorte parece estar lançada. O citado relatório do Nomura define que o Governo chinês pode ter vencido a batalha contra a doença, e seu cenário base assume que os bloqueios no país asiático terminarão no final desse mês, “mas será tarde demais para evitar que o PIB se desacelere”.

A China espirra, o mundo fica resfriado. Como lembram no Boston Consulting Group (BCG), o peso do PIB chinês na economia mundial se multiplicou por quatro em somente duas décadas. A produção e a subcontratação para baratear custos se concentraram demais nesse país e a restrição na circulação de pessoas fez com que províncias como Hubei, uma das dez mais importantes na geração de manufaturas, sejam agora uma ratoeira para muitas multinacionais. A União Europeia em primeiro lugar, seguida pelos Estados Unidos, Japão, República da Coreia e Vietnã são os primeiros prejudicados. O índice PMI de gestores de compras chinês, um indicador adiantado de produção, caiu 22 pontos em fevereiro e tamanha diminuição, dizem na UNCTAD, “equivale a queda de 2% do fornecimento de bens intermediários ao longo do ano”.

Outro indicador, que mede a carga de contêineres em Xangai, continua baixando, “o que indica um excesso de capacidade de envio e uma menor demanda de navios porta-contêineres”. Em suma, 20% do comércio mundial de produtos intermediários de fabricação se origina no lugar que passará à história como berço do Covid-19. Se a mesma doença surgisse em 2002, seu efeito econômico teria sido muito diferente, porque a China à época só era responsável por 4% desses produtos.

Empresas de instrumentos de precisão, maquinaria, automação, equipamentos de comunicação, material elétrico, plásticos, material de escritório, produtos têxteis e papel foram os primeiros afetados. O golpe na Bolsa foi enorme na Europa. Desde 21 de fevereiro os bancos, as agências de viagem, as empresas de alimentação, seguros, indústria e automação estão vivenciando quedas de valor acima de 10%. O índice VIX, um medidor de volatilidade dos mercados, disparou, ainda que bem longe dos níveis atingidos durante a Grande Recessão.

A Espanha é, como outros Estados, um ator convidado a essa festa do descontentamento. Mais de 160 empresas espanholas estão na China, as exportações a esse país somaram mais de 6,8 bilhões de dólares (31 bilhões de reais) no ano passado, 67% a mais do que há cinco anos, e as importações pesam bem mais, 29,154 bilhões de dólares (135 bilhões de reais), 46% a mais do que há cinco anos. A Corporación Mondragón é uma dessas empresas, nesse caso cooperativa, implantadas na China, ainda que não no epicentro do vírus. Oscar Goitia, o presidente de sua divisão internacional, fala que as medidas tomadas lhes devolveram à normalidade, ainda que não 100%. “Um olhar a curto prazo nos dá a perspectiva de que a queda [na cadeia chinesa de fornecimento] será pontual”. Começam, entretanto, a temer que a situação derrube projetos de investimento associados à energia, matérias primas e setor turístico. “Um entrave que se somaria ao que já tínhamos” derivado do esgotamento do ciclo, a guerra comercial e o Brexit.

Em 2019, até 700.000 chineses visitaram a Espanha, número que não chega a 1% do total de turistas do país, mas sua capacidade de gasto pode impactar seriamente em setores como o luxo. O contágio já espalhado pela Europa acrescenta mais pressão. José Luis Bonet, presidente da Câmara da Espanha, acaba de sair de uma reunião com empresários do turismo. É quarta-feira 4 de março. “O assunto é sério”, começa dizendo. “A doença pode retroceder graças ao verão, essa é a parte que me permite ser otimista”. Lembra que o cancelamento do Mobile em Barcelona foi a ponta do iceberg. “No melhor cenário, o turismo não será afetado no verão, mas a Semana Santa com certeza será”, reconhece. Volta a dizer que o assunto deve ser levado a sério. Fala de medidas financeiras, créditos mais suaves, de não aumentar impostos, de moratórias “e o que for preciso”. “As pessoas têm medo, deixam de viajar se for necessário. Não há por que dramatizar, mas não é só a questão dos aviões, isso arrasa outros setores, como o agroalimentar, porque se não vierem turistas para comer na Espanha... será um problema. Além disso, muitas empresas estão mandando as pessoas trabalhar em casa”.

Ángel Asensio, seu homólogo na Câmara de Madri, também preside a Federação Espanhola de Empresas de Confecção. Lembra que quando a crise explodiu as produções da coleção primavera-verão estavam carregadas em navios e já haviam chegado à Espanha. “O problema são as prévias de outono-inverno, fabricadas [na Ásia] entre março e abril. A produção atrasou, os contêineres vazios causaram engarrafamentos. Soube que os produtores estão procurando alternativas em países próximos (Turquia, Marrocos, Portugal) e na Espanha”.

Perguntada, a Inditex, a empresa da Zara, não se pronunciou. A Mango tomou medidas para recuperar a produção perdida. Na Tendam dizem que por volta de 30% das peças de suas diversas marcas (Springfield, Cortefiel, Pedro del Hierro e Women’secret) são produzidas na China. “Contamos com uma rede de produção espalhada em mais de 30 países, o que nos permite, também, margem de manobra suficiente se a situação se prolongar por mais tempo”.

Os fabricantes de automóveis estão na mesma situação. A porta-voz da patronal Anfac, Noemi Navas, fornece dois dados: as fábricas de carros trabalham normalmente (apesar da ameaça da Ford) e por enquanto o desabastecimento de componentes, se existir, está sendo contornado. A China preocupa menos, diz, porque a cadeia do automóvel é parecida à têxtil. “Os componentes procedentes desse país de fornecedores principais (chamados Tier 1) costumam ser estocados e viajam de navio. Mas as redes são muito longas, e o problema pode vir do lado de baixo”. As marcas estão fazendo duas coisas: procurar alternativas em outros países e tentar trazer provisões de avião e até mesmo por rodovia, da mesma forma que as empresas têxteis. Outra questão que preocupa é a possibilidade de que na Europa as fábricas deixem de trabalhar por problemas de contágio entre os funcionários. E em relação ao mercado, as matrículas podem se ressentir por duas vias: queda das empresas locadoras por efeito do turismo e a demora na chegada dos carros importados.

Analisar todas as arestas do problema seria impossível. Mas há uma muito importante, a saúde. O presidente da patronal Aspe, Carlos Rus, reconhece por e-mail que estão preocupados “por todas as empresas que estão sendo obrigadas a repatriar trabalhadores em áreas de risco, pela suspensão de provisões em algumas indústrias, pelo cancelamento de eventos e congressos...”. Frisa, entretanto, que a Espanha tem um dos melhores sistemas de saúde do mundo e que as empresas “estão preparadas” para uma situação excepcional como essa.

A questão mencionada por Bonet paira sobre o setor alimentício e de consumo. A Nielsen registrou aumentos de compras espetaculares de certos produtos. A carne suína vive sua própria montanha russa. Até o final de dezembro, as exportações à China haviam crescido 209% em valor (1,44 bilhão de euros – 7,5 bilhões de reais), de acordo com a Anice, a associação de indústrias da carne da Espanha, informa Eva Sáiz. Esse aumento era explicado pela falta de abastecimento sofrido pelo país asiático pela peste porcina. Ainda não foram publicados os dados relativos a janeiro, mas os sinais parecem ter mudado. Já se fala em diminuição pelo impacto do envio de mercadorias nos portos chineses.

Reação coordenada

E entre tanta urgência, quase não há lugar para debates mais profundos. Talvez seja o momento de parar para pensar e ligar essa crise à climática, com a necessidade de terminar com o “usar e descartar”. Talvez possa servir para que as multinacionais deixem de fabricar em um único lugar, e para revisar as políticas de estoque das empresas, para desenvolver a produção 3D, fomentar o trabalho remoto. Federico Steinberg, pesquisador principal do Instituto Elcano, acha que pelo menos a boa notícia é que os países começaram a reagir. “Se não existir coordenação global teremos um problema”. Ele lembra que a nível europeu poderiam ser ativadas cláusulas de excepcionalidade, como relaxar as regras de déficit em relação ao gasto público sanitário. E diz que o Covid-19 não tem nada a ver com a crise de 2008. “Quanto tempo isso irá durar? Se a crise for curta tudo o que não está sendo consumido agora irá se recuperar. Mas a demanda depende muito da confiança. O maior risco está em uma população atemorizada durante mais tempo”.

A única certeza é que hoje os céus de Xangai estão mais claros do que há um mês. A poluição caiu, de acordo com alguns relatórios, 40%.

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