Sacerdócio (e mulher) em “Querida Amazônia”: as leituras críticas de Lafont e Boff

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09 Março 2020

"Chego à conclusão de que a bola está - agora ou em um futuro que espero próximo - no campo das igrejas da Amazônia e, concretamente, daqueles entre seus bispos que votaram favoravelmente por essa ordenação sacerdotal. Por outro lado, não é que, tendo explicitamente dado luz verde na 'Querida Amazônia', os problemas concretos teriam sido por si só resolvidos. Baseando-se no texto do Sínodo e no convite do papa para vigiar sobre a questão da Eucaristia, as igrejas e os bispos podem, diria até que eles devem, imaginar um procedimento que permita à medida ser executada", escreve Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Justina, em Pádua, em artigo publicado por Come Se Non, 08-03-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Como já havia sido observado desde os primeiros momentos, o quarto sonho de QA é abruptamente interrompido por um pesadelo. A qualidade do texto em si, seu léxico e até mesmo sua sintaxe, sofrem uma torsão e resultam como "congelados" pelo medo. Essa opinião foi compartilhada e se tornou objeto de uma preciosa reflexão por dois dos maiores teólogos católicos vivos. Ghislain Lafont dedicou dois textos ao tema em seu blog "Des moines et des hommes", enquanto Leonardo Boff escreveu um texto que apareceu ontem no blog "Confini" de Pierluigi Mele*. Vamos examinar brevemente o conteúdo dessas críticas.

a) Gh. Lafont e a perspectiva pré-conciliar sobre o sacerdócio

O ponto chave da análise crítica de Lafont é o "modelo" de sacerdócio ao qual a QA se refere. Ele apresenta um "quadro sinóptico" de comparação entre "visão conciliar" e visão "pré-conciliar" do ministro ordenado. O modelo conciliar é apresentado com estas palavras:

O Concílio falou da Igreja antes de falar dos vários membros (LG 1 e 2). Falou do sacrifício e do sacerdócio espiritual antes de falar do sacrifício e do sacerdócio sacramental (LG, 10, PO 2). Em outras palavras, o sacramento da ordem é ordenado ao sacramento do batismo, dado a todos os cristãos com a graça e os carismas ligados a ele.

O Concílio refletiu sobre o sacerdócio dos sacerdotes a partir daquele dos bispos: são dois graus diferentes de uma idêntica ordenação e missão (LG 21 - bispos, 28 sacerdotes).

O Concílio atribuiu uma envergadura global ao caráter sacramental da Ordem. Esse caráter funda o conjunto da missão do bispo (e do sacerdote): proclamação da palavra, celebração dos sacramentos, guia da comunidade (LG 21). Significa e confere uma função global à governança, à liderança, que desempenha seu papel na missão daquela Igreja em particular.

Em síntese, é a Igreja que evangeliza, que oferece sacrifício espiritual, perdoa os pecados e faz circular a graça. É a Igreja que celebra a Eucaristia. Na comunidade que lhe foi confiada, o sacerdote é animador, moderador, responsável; a tal título celebra a Eucaristia, junto com a comunidade.

Diante desse modelo, a QA parece retornar a estilos e conceitos superados, que defendem o "específico" do sacerdote, em termos de autoridade, hierarquia e sagrado. Vamos ouvir suas palavras:

Ela tenta determinar o que é específico do sacerdote e o que não pode ser delegado a outros. Essa identidade é definida como configuração ao Cristo Sacerdote através da ordem sagrada; sublinha a assunção por parte do sacerdote de um caráter ordenado à presidência da Eucaristia.

Isso não exclui uma configuração do Cristo cabeça, já que esse poder hierárquico, essa suprema autoridade é ordenada à santidade de toda a Igreja. Também neste caso, o sacerdote manifesta sua posição de cabeça na celebração da Eucaristia: somente ele pode dizer "este é o meu corpo".

A esses aspectos específicos devem ser acrescentadas as palavras relativas ao perdão dos pecados, depois dos sacramentos da penitência e da unção dos enfermos.

Portanto, a identidade exclusiva do sacerdote é encontrada nesses três sacramentos. A especificidade procurada está no que, no homem ordenado, é sagrado, hierárquico, supremo.

Como a Eucaristia está no centro da vida da Igreja, o Papa só pode solicitar a multiplicação dos sacerdotes na Amazônia rezando, mas também orientando as vocações para o ministério amazônico. Contudo, deve-se reconhecer que o discurso sobre o sacerdote nesses números da QA está alinhado com o que foi lido antes do Concílio nos manuais de teologia sobre o sacramento das Ordens, e o que também é encontrado em algumas passagens dos documentos do Vaticano II, que o magistério sucessivo repetiu com frequência. Mas essa insistência é prejudicial ao que há de novo nos ensinamentos do Concílio, que resumi acima.

Portanto, em um documento como a QA, no qual muitas novidades importantes são lidas, a parte dedicada ao sacerdócio parece escrita com uma "mens" e com uma linguagem antiga e superada. E, no entanto, apesar disso, Lafont, em seu segundo artigo, permanece aberto a soluções surpreendentes. Justamente a "combinação disposta” da QA com o documento final do Sínodo não impede, às Igrejas locais, aceitar uma tarefa mais ampla do que a QA pareceria sancionar. A possibilidade de ordenar "homens casados" não está excluída. De fato:

De minha parte, chego à conclusão de que a bola está - agora ou em um futuro que espero próximo - no campo das igrejas da Amazônia e, concretamente, daqueles entre seus bispos que votaram favoravelmente por essa ordenação sacerdotal. Por outro lado, não é que, tendo explicitamente dado luz verde na "Querida Amazônia", os problemas concretos teriam sido por si só resolvidos. Baseando-se no texto do Sínodo e no convite do papa para vigiar sobre a questão da Eucaristia, as igrejas e os bispos podem, diria até que eles devem, imaginar um procedimento que permita à medida ser executada.

E parece que essa reflexão de P. Lafont encontra, na prática amazônica desses dias, uma primeira confirmação.

b) L. Boff e o "direito divino" à Eucaristia

A reflexão do teólogo brasileiro também destaca o gritante contraste das categorias de sacerdócio e de mulher que aparecem na segunda parte do "quarto sonho", transformando-o em um pesadelo. E ele chega a se perguntar "quem é o autor" dessa parte. No entanto, com base no texto, Boff, depois de apreciar o valor de época da QA no que diz respeito à "defesa da criação", da qual reconhece em Francisco o "campeão do mundo", demora-se em algumas lacunas sérias do texto, que reuni abaixo em uma série de citações em itálico:

- No que diz respeito ao ponto importante do ministério sacerdotal, o "autor" prefere o clérigo tradicional ao indígena amazônico. Ao rosto amazônico da Igreja prefere, no ponto do ministério sacerdotal, o rosto romano-latino ocidental. Como aqueles que impõem a recolonização econômica da América Latina, o "autor" preferiu a recolonização latino-romana da Igreja amazônica. Contra aqueles que, com a maioria dos votos no sínodo pan-amazônico, aceitaram a ordenação dos "viri probati", o "autor" escolheu a minoria que a rejeitou.

- a "Querido Amazonas" não é "querida" para esses indígenas casados, aos quais se nega a ordenação. Não é "querida" para as mulheres, às quais o diaconato feminino é negado, tornando inclusive presente, em minha opinião de maneira infundada, o risco do clericalismo. E não é "querida", especialmente para muitos teólogos e bispos, missionários e missionárias, que estão entre os indígenas, como já afirmou claramente o já citado bispo Erwin Kräutler no coração da Amazônia (Xingú). Todos realmente esperavam a aprovação dos viri probati: indígenas casados e ordenados com um rosto autenticamente amazônico.

- A visão desse texto no quarto sonho remonta ao Concílio IV de Latrão de 1215, convocado por Inocêncio III, que diz "nemo potest conficere sacramentum nisi sacerdos rite ordinatus" ("ninguém pode administrar o sacramento eucarístico, exceto um sacerdote ordenado de acordo com o rito"). A eclesiologia desse sonho aplica o rigor do Concílio de Trento, que na XIII sessão de 11 de outubro de 1551, sob o pontificado do Papa Júlio III, reafirmou a mesma doutrina exclusivista. De acordo com a melhor eclesiologia nascida no Concílio Vaticano II, a função/missão específica do sacerdote deve ser pensada não de maneira absoluta, mas sempre dentro do Povo de Deus e no contexto da comunidade. Sua unicidade não é absolutamente consagrar como um mago, mas ser na comunidade princípio de coesão e de unidade de todos os serviços e carismas. Não é aquela de concentrar, mas de coordenar. Pelo fato de presidir a comunidade, também preside a celebração eucarística.

- Por esse motivo, as declarações continuam despertando perplexidade: “É importante estabelecer o que é específico do sacerdote, o que não pode ser delegado. A resposta é encontrada no sacramento da Ordenação sagrada, que configura Cristo sacerdote ... O caráter exclusivo recebido com a Ordenação faz sim que somente ele seja habilitado a presidir a Eucaristia; esta é sua função específica, principal e não delegável" (n. 87). É aqui que acredito - e não estou sozinho - aparece uma "mão externa", com sua eclesiologia do poder específico e indelegável de consagrar, visão sacerdotalista, atrasada e desconectada da comunidade de fé. Com essa visão em vão pode realizar uma inculturação do ministério sacerdotal a indígenas viri probati casados, que dariam um rosto verdadeiramente amazônica à Igreja. Também nesse caso, continua-se a levar adiante um cristianismo de colonização dentro do paradigma católico-romano, ocidental e favorável ao celibato.

- Mas nós não queremos não lembrar de um paradoxo flagrante: uma mulher pode gerar um filho que é Filho de Deus. Essa mesma mulher que deu à luz esse filho que é Filho de Deus não pode representar seu filho que é filho de Deus. Só por ser mulher. As Escrituras dizem que esta mulher, Maria, "é abençoada entre todas as mulheres" (Lc 1,41). No entanto, parece que ela não seja abençoada o suficiente para representar seu próprio Filho que é Filho de Deus que se fez homem.

Deve-se notar como em Leonardo Boff conviva uma linguagem da denúncia aberta de um "modelo teológico de colonização" com uma linguagem do "direito divino” para a Eucaristia, que não pode ser condicionada por evidências contingentes, como o celibato de ministros. Mas a lógica da inculturação impõe, como é justo, novos processos argumentativos, não apenas palavras clássicas.

Resta, no entanto, como um dado comum aos dois autores, o registro de um "déficit teológico" no IV sonho, comparado ao teor reflexivo e argumentativo no restante do documento. Um déficit apenas parcialmente preenchido pelo reconhecimento honesto com o qual a QA se empenha em não "substituir" o texto do documento final do Sínodo. Esse ato de honestidade eclesial - que não será fácil de gerir, precisamente por causa de sua indeterminação - deixa em aberto desenvolvimentos futuros, que em parte parecem já estar em andamento. Para entender esses desenvolvimentos, poderíamos dizer que, no momento, se aplica o princípio "sit pro ratione voluntas". Resta o fato que a essas dinâmicas de reforma, mais cedo ou mais tarde, será preciso fornecer uma "ratio theologica" formal que, pelo menos por enquanto, no plano das palavras oficiais, tende ao prudente sussurro da ocultação, se não mesmo à perigosa retórica da auto-desmentida.

Nota do IHU

*O artigo foi publicado, em espanhol, no blog de Leonardo Boff e traduzido para o italiano. O artigo traduzido para o português pode ser lido aqui.

 

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