Uma reviravolta no “setor de RH” do Vaticano que ninguém percebeu

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09 Março 2020

Embora seja indelicado dizer isto em voz alta, provavelmente nenhuma instituição no mundo está se beneficiando mais com o pânico em torno do coronavírus neste momento do que os fabricantes e varejistas de álcool gel, máscaras hospitalares, lenços de papel e assim por diante. A rede Costco acabou de reportar um aumento de 3% nas vendas apenas em fevereiro devido à demanda fora da curva por esses produtos. Um segundo colocado, no entanto, pode muito bem ser o Vaticano.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada em National Catholic Reporter, 08-03-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Por um lado, o Vaticano esteve recentemente à beira de um grande susto de saúde em torno do Papa Francisco, quando ele cancelou uma série de eventos devido àquele que foi descrito como apenas um “resfriado leve”. Sob circunstâncias normais, essas garantias só durariam por algum tempo. Agora, no entanto, o Vaticano pode cancelar ou restringir quantos eventos papais quiser, e ninguém se importará.

Talvez ainda mais revelador seja o fato de que o Vaticano acabou de cometer uma das gafes de relações públicas mais espantosas da memória recente – o que, aliás, já diz muito –, mas, por causa do coronoavírus, até agora ela tem sido praticamente ignorada.

Aqui está o que aconteceu.

Em seu boletim diário da última sexta-feira, 6, o Vaticano saudou a criação de uma nova “Direção Geral de Pessoal” dentro da seção de Assuntos Gerais da Secretaria de Estado, responsável pela governança eclesiástica interna, descrevendo o novo escritório como “um passo de grande relevância no caminho de reforma iniciado pelo Papa Francisco”.

“Essa nova Direção será presidida por um diretor e estará munida de um poder estratégico, de inspeção e operacional, com funções de coordenação, controle e vigilância; além disso, ela estará equipada de modo a poder responder, em tempo hábil, aos vários pedidos que será chamada a realizar”, afirmou o comunicado.

No entanto, no dia seguinte – 25 horas e meia depois, para ser mais preciso – o Vaticano anunciou, em uma declaração separada, que, opa!, na verdade não existe uma nova direção, afinal.

“Especifica-se que, no atual estado das coisas, trata-se de uma proposta apresentada ao Santo Padre pelo cardeal Reinhard Marx, coordenador do Conselho para a Economia, e pelo cardeal Óscar Rodríguez Maradiaga, coordenador do Conselho dos Cardeais, para que se institua tal estrutura”, afirma o comunicado.

“O Santo Padre estudará a proposta e, se considerar oportuno, no momento devido, instituirá a estrutura nas modalidades que ele decidir com um motu proprio específico”, afirmou-se.

Na realidade, o Vaticano poderia ter poupado o sofrimento e simplesmente apresentado uma declaração consolidada da seguinte maneira: “Neste momento, estamos em meio ao caos, cheios de disputas por poder, e uma das coisas pelas quais estamos brigando é o controle dos recursos humanos”.

Porque, não nos enganemos, é exatamente isso que a reviravolta de uma “Direção Geral de Pessoal” revela.

De fato, essa nova diretoria equivale àquilo que, em praticamente qualquer outro contexto, seria chamado de escritório de Recursos Humanos (RH). A sua criação tem sido apoiada há algum tempo por pessoas que pensam na reforma dentro do sistema e sabem que três coisas são verdadeiras:

- O Vaticano tem uma folha de pagamento inchada, insustentável em relação aos seus recursos e que representa uma crise iminente no fundo de pensão. Além disso, há uma duplicação crônica de esforços que às vezes resulta em trabalho com propósitos cruzados. Um exemplo clássico é o Dicastério para a Comunicação, com várias mídias que pretendem falar em nome do Vaticano e que às vezes transmitem mensagens contraditórias. Seja por meio de rescisão ou atrito explícitos, a força de trabalho precisa ser reduzida.

- Uma das dificuldades com a demissão de qualquer pessoa no Vaticano é que, na maioria das vezes, o pessoal nunca recebe um conjunto claro de expectativas e nunca é avaliado formalmente, de modo que as demissões (ou as transferências indesejadas ou as promoções negadas) não podem deixar de parecer arbitrárias ou pessoais. Alguém precisa supervisionar o trabalho minucioso de elaborar descrições e expectativas de emprego e, em seguida, implementar um método para avaliar se um determinado funcionário está correspondendo à altura.

- Se esses dois problemas forem resolvidos de alguma forma, o resultado seria uma força de trabalho menor, solicitada a fazer mais e a ser mais responsável. Isso levanta a questão de como dar ao pessoal vaticano as habilidades e as atitudes necessárias para prosperar em tal ambiente, o que implica um sério investimento na formação profissional em todos os níveis. O Papa João Paulo II criou um escritório de trabalho em 1989, encarregando-o de um certo tipo de formação técnica para o pessoal de nível inferior. No entanto, permanece a necessidade de algum tipo de “formação permanente” (como Francisco gosta de chamá-la) para os altos funcionários

Todas essas três coisas são o tipo de ação com a qual um escritório sério de RH deveria lidar.

Naturalmente, a declaração original do Vaticano não explicava nada disso, mas os entendedores sabiam o que isso significava – e, consequentemente, entenderam que a criação de tal escritório era um divisor de águas em potencial. Isso provavelmente explica a reação interna que levou a uma decisão de voltar atrás.

Além disso, é perfeitamente possível que tomar uma decisão tão cheia de consequências em um período em que toda a Cúria Romana saiu em retiro, em que o próprio Papa está doente e apenas parcialmente envolvido, e no qual o medo do coronavírus mantém as pessoas preocupadas equivalia a um passo maior do que as pernas.

De qualquer forma, por enquanto, esse “passo de grande importância” nos esforços do Papa na reforma do Vaticano está morto no nascimento. O tempo dirá se Francisco decidirá trazê-lo de volta à vida – em outras palavras, se uma Páscoa do RH se seguirá aquilo que só pode ser descrito como a sua descida ao túmulo.

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