Leonardo Boff e o Espírito Santo, o mistério da “fantasia de Deus”

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28 Fevereiro 2020

Quem é o Espírito Santo? É possível defini-lo de modo exaustivo? A resposta, para Leonardo Boff, só pode ser negativa. Porque "esconder-se é característico do Espírito", escreve o teólogo brasileiro em Soffia dove vuole (Sopra onde quer, em tradução livre, Emi, p. 286, euro 25,00). No entanto, isso não isenta o ser humano - ele acrescenta - da tarefa de desvendá-lo. E quando, surpreendentemente, ele irrompe, nos alegramos e celebramos, celebramos e nos empolgamos, nos empolgamos e nos tornamos ébrios com sua graça”.

O comentário é de Marina Corradi, jornalista e escritora italiana, publicado por Avvenire, 27-02-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Agora, mais do que nunca, nestes "tempos conturbados", afirma o autor, entre as vozes mais conhecidas da teologia da libertação e famoso por suas posições contracorrentes, às vezes controversas, é urgente nos aproximar da Terceira Pessoa da Trindade. Então, como fazer isso? A ciência teológica certamente ajuda. E Boff analisa cuidadosamente o debate secular. Um caminho às vezes cansativo.

No IV século Macedônio, bispo de Constantinopla, questionou a natureza divina do Espírito, provocando uma polêmica inflamada com os grandes estudiosos da Capadócia - são Basílio, são Gregório de Nissa, são Gregório Nazianzeno - e Santo Atanásio. Foi o Concílio de Constantinopla que encerrou a questão em 381, definindo o Espírito "Senhor que dá vida". Ele foi, portanto, plenamente reconhecido por todas as Igrejas históricas, tanto do Ocidente quanto do Oriente, como "parte integrante" da Trindade. No entanto, o Espírito Santo permanece sendo um desconhecido para a maioria das pessoas. É claro que muitas experiências nos mostram sua ação nas dobras da história: do Concílio à queda do império soviético, do nascimento de uma nova sensibilidade ecológica ao reconhecimento dos direitos das mulheres.

Mestres e mestras de todos os tempos - como Joaquim da Fiore, Paul Tillich, José Comblin, Hildegard de Bingen – são nossos companheiros para nos aproximarmos de seu mistério. Sem, no entanto, jamais alcançá-lo. Inacessível para a linguagem humana, o Espírito é "explosão de energia, movimento da matéria", "princípio da vida e provocador das consciências", explica Boff. Por essa razão, o teólogo toma emprestado o paradigma da cosmologia moderna, centrada na gênese permanente. “Pensar no Espírito é pensar o movimento, a ação, o processo, a história e a irrupção do novo e do surpreendente. E pensar o devir, a constante vir a ser”.

Talvez, mais ainda do que a razão abstrata, seja a arte que nos faça perceber o sopro do Spiritus Crieator, definido, com poética eficácia por Boff, "fantasia de Deus" porque "dele surgem os grandes sonhos, aqueles que impelem a criatividade". É o Espírito que inspira poetas e escritores - não necessariamente aqueles que tratam de temas religiosos - a narrar a vida em suas luzes e sombras. E é pela obra do Espírito que "o artista e o artesão extraem da matéria, madeira, pedra, mármore e granito, uma imagem que somente eles veem em seu íntimo e a trazem à luz". Se, no balé, "o corpo se torna espírito", é na música que o Espírito se derrama com densidade especial. “Os sons são invisíveis - o espaço e o tempo não podem segurá-los, como o Espírito, que nada pode limitar suas ações. Eles projetam melodias que elevam (...) consolam, fazem chorar pela beleza e sorrir pelo assombro”.

As artes têm uma profunda afinidade com o Espírito, pois possuem um valor intrínseco: “Não servem como meio para outra coisa; embora em sua forma decadente, podem estar a serviço do mercado e ser uma fonte de enriquecimento. Por si só, arte, música e poesia têm valor, mas não têm preço (...) de alguma forma escapam do tempo e nos doam uma pequena amostra da eternidade”. Na consciência de que “o Pentecostes foi apenas o começo. Ele se estende ao longo da história, em sua amplitude e duração, e chega até mesmo aos dias atuais em que temos que viver e sofrer". A "fantasia de Deus" é inesgotável.

 

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