Piedade Popular

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03 Março 2020

"Nos capítulos deste substancioso livro Ney de Souza mostra que a piedade popular é uma forma de enculturação do cristianismo, enquanto encarnado na cultura popular. Por isso não pode ser desconsiderada ou ser tratada como algo superficial ou inferior. Trata-se de um catolicismo mais espontâneo e informal diferente do oficial e racionalizado dos pastores, teólogos. Veste-se com os hábitos da cultura dos simples e é marcada pelo sentimento, pela exuberância, pela expressividade, pela vitalidade e pelo caráter maravilhoso", escreve Eliseu Wisniewski, Mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, PR, Brasil.

Eis o artigo. 

Piedade popular [1] de autoria do Dr. Ney de Souza (Professor na graduação e pós-graduação na PUC-SP) faz parte da Coleção Teologia do Papa Francisco. As sistematizações sucintas e didáticas resgatam os grandes temas teológicos dos ensinamentos do papa reformador.

Amparado pela Exortação apostólica Evangelii Nuntiandi de Paulo VI e pela teologia latino-americana, o autor entende a religiosidade popular como a apropriação das crenças religiosas pelas pessoas comuns. É também denominada de piedade popular, fazendo alusão à forma como os empobrecidos vivem a sua religiosidade, em contraste com a religiosidade e os ritos oficiais da Igreja Católica. Portanto, a piedade que se denomina popular é aquela proveniente das “classes excluídas do ter, do poder e do saber”. Assim sendo, o presente estudo, objetiva buscar as raízes do pensamento de Francisco na temática da piedade popular e está organizado em quatro sintéticos capítulos: 1) A força evangelizadora da piedade popular; 2) Teologia do Povo; 3) Mística Popular; 4) Piedade Popular e as Conferências do Episcopado Latino-Americano e do Caribe.

O primeiro capítulo destaca a força evangelizadora da piedade popular. A Exortação apostólica Evangelii Nuntiandi de Paulo VI elenca características importantes da evangelização: centralidade do Reino, anúncio da salvação libertadora, sustentada por um processo contínuo de conversão; e testemunhal, feita não apenas por uma pregação incansável, mas também através do testemunho de vida e por sinais e gestos concretos. Partindo desses elementos, a evangelização em contexto latino-americano, segundo Puebla (1979), deve atentar-se para algumas exigências específicas: a redenção integral das pessoas e da cultura; a promoção da dignidade humana e a libertação da servidão e da idolatria; que o Evangelho penetre no indivíduo e na sociedade; e a formação dos agentes de evangelização. Essas temáticas são retomadas pelo Papa Francisco no capítulo terceiro da Evangelii Gaudium (2013). Para Francisco a evangelização, missão de toda a Igreja deve estar fincada na concretude das realidades humanas, considerando suas dimensões histórico-culturais. A dimensão cultural não pode ser ignorada e por isso a piedade popular recebe um especial acento. É vista como um “lugar teológico” que devemos prestar atenção. Por ser fruto do Evangelho inculturado, subjaz uma força ativamente evangelizadora que não podemos subestimar: seria ignorar a obra do Espírito Santo. Esta compreensão de Francisco sobre a devoção popular deve-se a sua formação como jesuíta através dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus e a força evangelizadora da piedade popular ao longo dos séculos no continente latino-americano através das devoções cristológicas e mariológicas.

O segundo capítulo apresenta algumas caraterísticas da Teologia do Povo com a finalidade de encontrar as raízes do pensamento e dos gestos do Papa Francisco no eixo da piedade popular. Além do Concílio Vaticano II, Francisco é profundamente marcado pela Teologia do Povo, consequentemente pela Teologia da Libertação, haja vista que aquela é considerada uma vertente desta com a peculiaridade argentina. Ambas, não condicionam pensamento de Francisco, antes o nutrem. Francisco não é um dos construtores da Teologia do Povo, mas o maior intérprete.

A Teologia do Povo foi gestada na Igreja latino-americana, particularmente em território argentino. Suas raízes se encontram no Concílio Vaticano II, particularmente , na releitura elaborada do Documento de Puebla (386) e do número 53 da Gaudium et spes, quando trata da cultura. Embora assumida como uma corrente da Teologia da Libertação, distingue-se em alguns aspectos. Dentre eles, destaca-se a perspectiva da análise da realidade. Ela não se utiliza, como outras vertentes da Teologia da Libertação, de categorias socioanalítica, sem relações com o marxismo. Privilegia, através do método teológico ver-julgar-agir, uma mediação histórico-cultural de entendimento da realidade. Desse ponto decorre a importância da cultura para o conhecimento da realidade e o entendimento do mundo, incluso neste espectro a realidade dos empobrecidos. Assim, a opção pelo pobre deriva da opção pela preservação e potencialização da cultura. Suas características metodológicas são: a utilização da análise histórico-cultural, privilegiando-a sobre o sociocultural, sem descartá-la; o emprego como mediação para conhecer a realidade e para transformá-la, de ciências mais sintéticas e hermenêuticas, como da história, da cultura e a religião.

A piedade popular é apresentada como uma forma inculturada da fé cristã católica. Assim sendo há uma convergência entre a Teologia do Povo quando a Evangelii Gaudium relaciona a piedade popular com temas centrais para ambas, como a inculturação do Evangelho e dos mais necessitados e sua promoção social. Distingue as duas do cristianismo de devoções, próprio de uma vivência individual e sentimental da fé, sem negar, contudo, a necessidade de uma ulterior purificação e amadurecimento dessa religiosidade, para a qual é precisamente a piedade popular o melhor ponto de partida.

O Papa Francisco aplica a Teologia do Povo não somente no simples desejo de mudar ação pastoral da Igreja. O papa está interessado em construir uma mentalidade e práxis novas no âmbito eclesiológico. Essa visão eclesiológica é inspirada na Teologia do Povo, que compreende a ação pastoral com a inserção da Igreja na realidade dos empobrecidos na dinâmica de reconhecer os valores que emergem desses setores, inclusive e, principalmente, da piedade popular – procurando resgatar os valores culturais escondidos na dor e na pobreza desse imenso setor marginalizado.

No terceiro capítulo contempla-se o tema da mística popular. Essa noção originária da teologia latino-americana, especialmente da Teologia do Povo é introduzida no magistério universal pelo Papa Francisco. Os temas da piedade e da mística popular aparecem na Evangelii Gaudium quando o papa reflete sobre a enculturação do Evangelho, e especial acento ele coloca na piedade popular. A mística vivida e aprendida nas culturas populares, especialmente a experiência do povo empobrecido, transforma-se num novo centro e fonte de reflexão teológica – conduzindo a Igreja a vivenciar seu modo de ser num lugar mais adequado em relação à sua presença, seja pastoral, seja acadêmica: no meio dos empobrecidos deixando-se evangelizar pela mística popular, pois esta “mística popular acolhe, a seu modo, o Evangelho inteiro e encarna-o em expressões de oração, de fraternidade, de justiça, de luta e de festa” (EG 237).

No quarto capítulo apresenta a influência das Conferências Gerais do Episcopado da América Latina e do Caribe nos textos do Papa Francisco no que se refere a piedade popular. Medellín (1968) tratou do tema da religiosidade popular no capítulo VI do seu Texto de Conclusões. Traz fortes críticas ao tema, porém apresenta pontos positivos quando essa religiosidade apresenta uma enorme reserva de virtudes autenticamente cristãs, especialmente no que diz respeito à caridade. Puebla (1979) reconhece o potencial evangelizador das experiências populares da fé católica e por isso deve ser assumida inclusive integrando a liturgia da Igreja. Em Santo Domingo (1992) a Igreja compreenderá a nova evangelização como integradora e, explicita as suas projeções culturais e sociais. O Povo de Deus está encarnado nos povos da terra, cada um dos quais tem sua cultura própria. Nesses diferentes povos, a Igreja vive sua catolicidade. Em Aparecida a piedade popular é valorizada na oficialidade. Ela é o lugar do encontro com Jesus Cristo. Por isso convida todos a promover e proteger esse tesouro da alma dos povos latino-americanos. O arcabouço produzido em Medellín e Puebla levou Bergoglio cada vez mais a se enfronhar no mundo dos empobrecidos. O processo de reforma da Igreja está intimamente ligado com a opção pelos pobres. E essa realidade teológica o jesuíta argentino leva para o interior de seu exercício como bispo e Roma. Francisco sonha e promove uma Igreja pobre e para os pobres.

Nos capítulos deste substancioso livro Ney de Souza mostra que a piedade popular é uma forma de enculturação do cristianismo, enquanto encarnado na cultura popular. Por isso não pode ser desconsiderada ou ser tratada como algo superficial ou inferior. Trata-se de um catolicismo mais espontâneo e informal diferente do oficial e racionalizado dos pastores, teólogos. Veste-se com os hábitos da cultura dos simples e é marcada pelo sentimento, pela exuberância, pela expressividade, pela vitalidade e pelo caráter maravilhoso. Descobrir o potencial transformador da piedade popular - eis a questão pastoral que ela no traz: não a reprimindo, nem negligenciando-a mas, pedagogicamente evangeliza-la, corrigindo-a e aperfeiçoando-a. Eis o caminho feito pela Igreja latino-americana e lançando-a para a agenda da Igreja universal pelo Papa Francisco. O leitor destas páginas desfrutará de uma excelente reflexão, sobretudo, pela perspectiva histórica e teológica desta temática. Eis o valor desta obra.

 

Nota: 

[1] SOUZA, Ney de. Piedade popular.  São Paulo: Paulinas, 2019, 73 p., 13,5 x 20,0mm– ISBN 9788535645477

 

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