O Papa cede à pressão e não aprova a ordenação de padres casados na Amazônia

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13 Fevereiro 2020

Francisco evita qualquer decisão sobre padres casados, mulheres diáconas, rito amazônico ou “pecado ecológico” em Querida Amazônia.

O Papa apoia o documento aprovado pelo Sínodo e convida a lê-lo integralmente, mas não o cita na exortação. Um texto composto com palavras de Pablo Neruda, Mario Vargas Llosa, do profeta da Amazônia Pedro Casaldáliga, Gustav Mahler, Yana Lucila Lema e também Ana Varela Tafur.

(Foto: Religión Digital)

Francisco evoca “quatro grandes sonhos”: a luta pelos direitos dos mais pobres; preservar a riqueza cultural da Amazônia; proteger o entorno; e que os “comunidades cristãs capazes de se devotar e encarnar de tal modo na Amazônia, que deem à Igreja rostos novos com traços amazônicos”.

A reportagem é de Jesús Bastante, publicada por Religión Digital, 12-02-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Nem padres casados, nem diáconas, nem “rito amazônico” e nem “pecado ecológico”. O papa Francisco evitou quase todos os temas polêmicos em “Querida Amazônia”, a esperada Exortação Apostólica pós-Sínodo da Amazônia, que é um texto paradoxalmente aberto, mas sem aberturas. Talvez, o documento mais polissêmico deste pontificado, que deixa muito com a sensação de que Bergoglio não se atreveu a ir mais além e com dúvidas de si a pressão de Sarah-Ratzinger, para não aprovar o sacerdócio de pessoas casadas, surtiu efeito.

Tal e como explica o diretor de mídias vaticanas, Andrea Tornielli (neste artigo, em espanhol), Francisco quis evitar que a exortação se tornasse “quase em um referendo sobre a possibilidade de ordenar os homens casados como padres”. Uma questão que, admite Tornielli, o Papa, “depois de ter orado e meditado, decidiu responder não prevendo mudanças ou novas possibilidades de exceções às já previstas pela disciplina eclesiástica vigente, mas sim pedindo para voltar a começar partindo do essencial”. Poderá se voltar a esse debate no futuro? Seguramente sim, ainda que custe pensá-lo depois desta exortação.

“Não pretendo substituir o documento do Sínodo”

Porque o Papa começa fazendo seu o documento aprovado – por maioria de dois terços – pelos padres sinodais, e que incluía a petição de ordenar padres como homens casados, outorgar ministérios às mulheres, reivindicar o “pecado ecológico” ou instituir um “rito amazônico”. “Não vou desenvolver todas as questões amplamente tratadas no Documento conclusivo; não pretendo substitui-lo nem repeti-lo”, aponta Francisco, que insiste em que “preferi não citar esse documento nessa exortação, porque convido a lê-lo integralmente”, e pede que “os pastores, os consagrados, as consagradas e os fiéis-leigos da Amazônia se empenhem na sua aplicação”.

No entanto, o próprio Papa não termina de fazê-lo. É mais: ainda que admita a escassez vocacional na Amazônia “não pode nos deixar indiferentes e exige da Igreja uma resposta específica e valente”, a resposta da Exortação deixa claro que tanto a Eucaristia como o perdão dos pecados é competência exclusiva do sacerdote.

“Este caráter exclusivo recebido na Ordem deixa só ele habilitado para presidir à Eucaristia. Esta é a sua função específica, principal e não delegável” (Ibid., 87), diz o Papa, fechando qualquer porta a para que um leigo possa confessar ou consagrar. “Nesses dois sacramentos está o coração da identidade exclusiva [do sacerdote]” (Ibid., 88).

Nota de rodapé insuficiente

Apenas uma nota de rodapé, a 136, abre uma brecha afirmando que “É possível, por escassez de sacerdotes, que o Bispo confie uma ‘participação no exercício do serviço pastoral da paróquia (…) a um diácono ou a outra pessoa que não possua o caráter sacerdotal, ou a uma comunidade’”, porém deixando claro que não seriam padres

Francisco convida a “uma presença estável de líderes leigos maduros e dotados de autoridade”, e reivindica o “contundente protagonismo dos leigos”..., porém sem serem ordenados padres.

Foto: La Civiltà Cattolica

Não clericalizar a mulher

Sobre o papel da mulher, Francisco reconhece que sem as mulheres a Igreja não existiria em muitos lugares, porém chama para “expandir o olhar, para evitar reduzir nossa compreensão da Igreja a estruturas funcionais”.

“Este reducionismo levar-nos-ia a pensar que só se daria às mulheres um status e uma participação maior na Igreja se lhes fosse concedido acesso à Ordem sacra”, denuncia Francisco, que fecha essa possibilidade às mulheres – parece que de maneira definitiva –, criticando que, se permitisse, somente se conseguiria “clericalizar as mulheres, diminuiria o grande valor do que elas já deram e subtilmente causaria um empobrecimento da sua contribuição indispensável”.

“Assim compreendemos radicalmente por que, sem as mulheres, ela se desmorona, como teriam caído aos pedaços muitas comunidades da Amazônia se não estivessem lá as mulheres, sustentando-as, conservando-as e cuidando delas”..., porém sem o ministério sacerdotal.

Estátua da Pachamama roubada e jogada ao rio Tibre por um fundamentalista, durante o Sínodo Pan-Amazônico. Foto: NCR

No entanto, ao final, oferece uma porta aberta a outros ministérios: “Numa Igreja sinodal, as mulheres, que de facto realizam um papel central nas comunidades amazônicas, deveriam poder ter acesso a funções e inclusive serviços eclesiais que não requeiram a Ordem sacra e permitam expressar melhor o seu lugar próprio”.

O resto do documento formula “quatro grandes sonhos”: que a Amazônia “lute pelos direitos dos mais pobres”, “preserve a riqueza cultural”, “guarde zelosamente a sedutora beleza natural que a adorna” e, por último, que as comunidades cristãs sejam “comunidades cristãs capazes de se devotar e encarnar de tal modo na Amazônia, que deem à Igreja rostos novos com traços amazônicos”.

Leia a íntegra da Exortação aqui.

Apresentação da Exortação Apostólica pós-Sinodal “Querida Amazônia”:

 

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