Uma mudança radical na vida da Igreja. Carta aberta a Enzo Bianchi

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07 Fevereiro 2020

Caro Enzo, devo lhe dizer que, lendo o seu artigo na revista Vita Pastorale (de fevereiro de 2020: “Uma mudança radical na vida da Igreja”), alegrei-me e entristeci-me ao mesmo tempo, assim como aconteceu comigo quando li sobre o “fim da cristandade” no discurso do papa à Cúria Romana do dia 21 de dezembro de 2019.

O comentário é de Alberto Simoni, OP, dominicano italiano, em artigo publicado por Koinonia-forum, n. 636, 05-02-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Sim, porque finalmente encontrei aí afirmações e análises que são convergentes com a linha levada adiante desde sempre no fórum Koinonia.

Mas, ao mesmo tempo, elas me machucam, porque você me confirma que permanecemos bem longe de colocar o estado das coisas no centro e como motivo de conscientização, de tomada de decisões e de escolhas radicais, se realmente quisermos uma “mudança radical no modo de viver a Igreja”.

Confesso-lhe que sinto certa hesitação em falar de mudança do modo de viver a Igreja, porque há anos tem sido o refrão de todos e de sempre, razão pela qual tudo parece feito, quando, depois, as coisas estão como você diz.

É só crise de crescimento ou elefantíase? Por que tantas iniciativas, movimentos, planejamentos pastorais, experiências inovadoras de todos esses anos nos fazem agora reencontrar esses pontos? Você mesmo pergunta isso, quando diz que vai repetindo há anos que se reconheça a situação, “mas parece que, na realidade, ninguém quer acreditar nela, e assim se continuam estudando as estratégias para o anúncio, da mesma maneira que antes”.

O mercado das soluções pré-confeccionadas e pré-cozidas está sempre aberto, e posso lhe dizer que, da minha parte, sempre estive do outro lado do problema, não para prescrever receitas e oferecer modelos resolutivos, mas sim para tentar dar origem, a partir do terreno não cultivado disponível, algo de bom, mesmo que, pouco a pouco, perdia-se o chão debaixo dos pés!

É também por isso que posso lhe dizer que eu saí desse baixio e atraquei “em outra terra que ainda não conhecemos”, aquela que me interessa realmente e que há anos sonhei como “Igreja dos gentios” e que agora se apresenta como “cristandade” em declínio. Por isso, cheguei à convicção de que, se ainda devemos desinvernar na cristandade antes de sair dela, de fato, “in spe”, não somos mais da cristandade. E, por esse dom da liberdade, é preciso agradecer a uma marginalização e exclusão tácitas às quais o sistema sempre lhe forçou. É a partir desse lado – do ponto de vista externo à “cristandade” – que, após as primeiras reações instintivas ao seu discurso, permito-me fazer agora uma leitura mais interna.

Tento logo uma resposta à pergunta inicial que você faz e que é bom ter em mente: “A Igreja ainda é capaz de ser missionária, de tornar eloquente a fé que professa?”. Retomando a distinção de Paulo VI na Ecclesiam suam, deve-se entender a Igreja ideal ou estamos nos referindo à Igreja real?

No primeiro caso, a pergunta mais justa seria se o Evangelho como tal ainda é significativo e pode ser proposto à humanidade de hoje, e se uma Igreja evangélica e apostólica pode se encarregar da sua pregação.

No segundo caso, deveríamos nos perguntar se uma Igreja histórica entendida como cristandade é capaz de tornar a fé eloquente para um mundo pós-cristão, como você mesmo o define.

Com razão, você diz que “os meios da missão mudam cada vez mais rapidamente, mas a missão será sempre inevitável, porque faz parte do ser cristão”. O que significa que não basta – para uma Igreja de discípulos, mais do que de praticantes – modificar a si mesma como “instrumento de salvação” a partir daquilo que historicamente ela é, mas ela deve se regenerar em função do Evangelho como sua própria razão de ser.

Se é verdade que os desafios se apresentam com uma novidade inédita, não se pode pensar em reedições da Igreja talvez recuperando ou restaurando formas históricas datadas, por mais fascinantes que sejam! Se a Igreja realmente deseja ser missionária, deve parar de reciclar a si mesma com rótulos e fórmulas novos, e aceitar que ela se regenere a partir de algum lugar como discípula e serva do Evangelho, sem garantias e suportes vários.

Teria bastado e bastaria que germes do Evangelho e “semina verbi”, que aparecem aqui e acolá, tivessem sido permitidos de crescer, e não, ao invés disso, erradicados como ervas daninhas: o discernimento também envolveria isso? Frequentemente, não se favoreceu muitas ervas daninhas, precisamente, sem citar nomes?

Passando para o segundo parágrafo, vejo que você aumenta a dose e fala de “astenia das Igrejas locais”, isto é, das Igrejas reais no território, “uma astenia em relação à missão, uma falta de coragem em deixar a própria terra”. E, enquanto se refere às exortações e pressões do papa Francisco a ser “Igreja em saída” para levar o anúncio do Evangelho, você adverte contra o risco de usar um novo formulário como slogan, quando “existe, na realidade, o pedido de uma mudança radical da vida da Igreja, muito antes da vida da missão que lhe é inerente”.

E então eu me pergunto se é o Evangelho que deve girar em torno da Igreja, ou a Igreja que deve girar em torno do Evangelho, do modo como é proclamado e acreditado. Talvez uma descentralização da Igreja na sua própria concepção não seria ruim!

Quando você repete “todo batizado e batizada e toda comunidade cristã se sintam responsáveis pela evangelização”, você também permite entender que seria necessária aquela “conversão pastoral” invocada repetidamente pelo papa: “Devem, portanto, ser sujeitos capazes de expressar a fé cristã e, consequentemente, de edificar a Igreja com a sua contribuição cultural, religiosa e humana específica”.

Mas está precisamente aqui o punctum dolens: que esses sujeitos sejam envolvidos em um processo de evangelização como membros livres, ativos, responsáveis, para além de toda clericalização ou mobilização de bandeiras.

E, assim, você chega a colocar o dedo na ferida, quando diz que “estamos em uma época pós-cristã, e nas nossas terras de antiga cristandade há situações que fazem com que a missão seja mais urgente do que nunca”. Quanta consciência você sente ao seu redor dessa emergência e dessa urgência? Quando dizemos essas coisas, não somos como “cachorros na igreja”, como se costumava dizer antigamente? Por outro lado, sabemos que, sim, “está ocorrendo uma revolução silenciosa que muda profundamente o rosto das nossas comunidades”. Sim, está mudando-as in loco, caso a caso, com excessos de radicalização litúrgica ou de suplência social em nome do Evangelho, mas onde é possível ver uma mudança de mentalidade, de atitude, de sensus fidei, de consciência forte de Povo de Deus messiânico, profético e sacerdotal?

Eu não gostaria de exagerar e lhe parecer pessimista, mas, quando você diz que “sonhamos com uma Igreja evangelizante e, em vez disso, encontramo-nos diante de uma Igreja não evangelizada”, eu seria levado a propor uma séria autocrítica a todas as forças que, do pós-Concílio até hoje, empreenderam projetos de reforma, assim como eu proporia ao papa Francisco uma celebração penitencial por todas as condenações, as marginalizações e os sofrimentos infligidos a quem havia abraçado profeticamente a causa da renovação.

E isso não apenas para encontrar soluções técnicas para a falta de transmissão da fé, mas porque “é evidente que, em uma Igreja tão frágil, já se deve reconhecer uma crise de fé: devemos ter a coragem de dizer isso, o problema é a fraqueza da fé!”.

E, se é assim, todos estamos investidos do problema indistintamente, sem muitos giros de palavras. Sim, porque se trata precisamente “da indiferença reinante em relação a Deus e à busca por ele”, apesar das belas cerimônias bem cuidadas em tantas das nossas igrejas, mas indiferentes, por sua vez, ao problema real: “Parece que, na realidade, ninguém quer acreditar nela, e assim se continuam estudando as estratégias para o anúncio, da mesma maneira que antes. (...) Deus é até uma palavra ambígua, rejeitada pelas novas gerações, porque muitas vezes está ligada ao fanatismo religioso, à intolerância, à violência”.

Ao problema da fé, não se segue também um problema teológico subestimado demais?

Concordo plenamente com você quando você diz que “o que é decisivo hoje na fé cristã é a meta de um percurso realizado no seguimento de Jesus Cristo, ‘o iniciador da nossa fé’ (Hb 12,2)”. Como que dizendo que cristão se nasce, mas discípulo se torna. E é isso que devemos buscar nos tornar juntos! É com esse espírito, desejo e agradecimento que me permiti fazer estas anotações, que espero que não estejam deslocadas.

 

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