Bergoglio: sintonia total com Wojtyla. “O celibato dos padres é uma graça, e não um limite”

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06 Fevereiro 2020

Sobre o celibato dos padres, Francisco pensa como João Paulo II. Ele o define como “um dom, uma graça decisiva que caracteriza a Igreja Católica latina. E não um limite”. E se hoje há quem o chame de “papa comunista”, em Buenos Aires Bergoglio foi “percebido como conservador”, pela sua “sintonia” com Wojtyla.

A reportagem é de Domenico Agasso Jr., publicada por La Stampa, 04-02-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O pontífice argentino diz isso nas páginas de San Giovanni Paolo Magno[São João Paulo Magno, em tradução livre], que será publicado no dia 11 de fevereiro pelas edições San Paolo (128 páginas).

Do livro, através da entrevista concedida ao Pe. Luigi Maria Epicoco, emergem as afinidades entre os arcebispos de Cracóvia e de Buenos Aires, “tirados” ambos de “países distantes” para fazê-los subir ao sólio de Pedro.

Um livro que pode assumir um papel relevante nas acaloradas disputas dentro e fora da Igreja, porque Wojtyla foi “alistado” e é frequentemente usado como símbolo do front hostil ao pontificado bergogliano, especialmente no que diz respeito aos âmbitos políticos e teológicos, enquanto Francisco rejeitou repetidamente essa contraposição.

 

No rastro dos antecessores

Sobre o delicado tema do momento dentro do recinto católico, o Papa Francisco assegura a plena conformidade do seu pensamento com o que o pontífice polonês expressou no livro autobiográfico “Dom e mistério”.

Uma prova? “Basta ler as minhas cartas da Quinta-Feira Santa ou mesmo as homilias que proferi ao longo dos anos como bispo de Buenos Aires, para ver como há uma sintonia total com São João Paulo II em relação ao sacerdócio”.

Para Jorge Mario Bergoglio, em comparação com o passado, mudaram “algumas formas de ser sacerdote, mas o essencial permanece o mesmo”. E, se há quem diga que hoje a dimensão horizontal do padre, isto é, a sensibilidade e o compromisso social, conquistou espaço demais a despeito de uma dimensão mais transcendente, espiritual, o convite de Francisco é de “recomeçar a partir das palavras de Pedro nos Atos dos Apóstolos, ver como, para proteger o ministério da oração, o anúncio da Palavra, ele exorta à instituição dos diáconos”. Oração e anúncio da Palavra “são a tarefa fundamental de todo sacerdote”.

E eis a passagem crucial. Crise das vocações e abusos sexuais cometidos por homens da Igreja seriam, para muitos, uma consequência direta e indireta das obstruções psicológicas e sociais provocadas pelo celibato obrigatório para os padres. Por isso, muitos invocam a sua abolição, considerada como uma solução e um remédio válidos e eficazes.

Francisco não usa meias palavras e se diz “convicto de que o celibato é um dom, uma graça e, caminhando nos passos de Paulo VI e depois de João Paulo II e de Bento XVI, eu sinto fortemente o dever de pensar no celibato como uma graça decisiva que caracteriza a Igreja Católica latina”. E reitera: “É uma graça, e não um limite”.

 

Marxismo e Evangelho

A certa altura, o discurso se desloca para a América Latina, a terra de Bergoglio que João Paulo II visitou várias vezes. “Muitos países”, lembra Francisco, “tinham dificuldade de compreender que a teologia da libertação, que usava uma análise marxista, corria o risco de tomar o caminho ideológico que, em certo sentido, podia trair a genuína mensagem do Evangelho. João Paulo II vinha de um país que havia sofrido o marxismo e tinha uma grande capacidade de intuir esse risco”.

Entendia-se, então, que “alguns de seus esclarecimentos”, que pareciam particularmente severos, “não eram ditados por fechamentos em relação a algumas iniciativas, mas sim pela tentativa de querer reter na genuinidade do Evangelho intuições e desejos lícitos, que partiam de baixo, de situações de injustiça social, mas que precisavam ser relidas mais à luz do Evangelho do que à luz da análise marxista”.

Francisco fala de um tempo em que ele era “percebido como um conservador. Alguns me olhavam desse modo”, porque “simplesmente eu sempre me senti em sintonia com aquilo que o papa estava dizendo durante aqueles anos”. E o papa era João Paulo II.

 

Tradição não é tudo

Para Francisco, a Tradição “só é tal se cresce”. Ele cita uma definição “muito bonita do músico Gustav Mahler, segundo a qual a tradição é a garantia do futuro, não a conservação das cinzas”. Nesse sentido, Bergoglio considera “que a Tradição é como a raiz. Toda a raiz dá alimento para a árvore, mas a árvore é mais do que a raiz, e o fruto é mais do que a árvore. A Tradição deve crescer, mas cresce sempre na mesma direção que a raiz: Ut annis scilicet consolidetur, dilatetur tempore, sublimetur aetate – com os anos se consolida, com o tempo se dilata, com a idade se aprofunda (São Vicente de Lérins)”.

 

A economia social de mercado

A Doutrina Social da Igreja “é do Evangelho, e não de um partido”, ressalta. Portanto, “eu tento enfatizar muito a questão dos pobres. Eles estão no centro do Evangelho”. E, para Francisco, “há uma expressão de João Paulo II que eu acredito que é significativa: quando ele estuda o problema do capitalismo, ele fala da ‘economia social de mercado’. Nesse sentido, ele parece aceitar a proposta liberal de mercado, mas coloca dentro a categoria do social. Eu acho que esse é um modo genial de manter juntas demandas diferentes e lê-las de acordo com a ótica do Evangelho”.

 

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