Discussões sobre o gênero de Deus

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31 Janeiro 2020

"A imagem masculina de Deus deve ser explicada. Seu uso hoje parece um abuso. Temos um legado para gerenciar, uma tradição séria para reinterpretar. Mas não podemos dar como certo que as imagens masculinas de Deus ainda devam ser usadas sem colocar o problema de sua legitimidade", escreve Carlo Molari, teólogo italiano, padre e ex-professor das universidades Urbaniana e Gregoriana de Roma, publicada por Rocca, Nº. 3, 01-02-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Nestes últimos anos se intensificaram os debates sobre a terminologia relativa à relação humana com Deus. Foi buscado um termo teológico epiceno (do grego epi e koinos = novo, sinônimo raro de promíscuo usado para indicar o gênero dos animais nos quais não se distinguem masculino e feminino, como tigre, tartaruga, pantera, mosca etc., ao contrário de leão/leoa, cavalo/égua etc.) que pudesse expressar a realidade divina sem envolver o componente sexual próprio de muitas criaturas.

Para esse propósito, a última edição da revista teológica internacional Concilium de 2019 (ano 55 p. 783-961 n. 5 p. 11-189) optou por usar o termo inglês queer já no título: Teologias queer: tornar-se o corpo queer de Cristo. No editorial, os dois editores especificam que "a teoria queer começou questionando o tema segundo o qual categorias identitárias como o gênero e a sexualidade são naturais e imutáveis" (Stefania Knaus e Carlos Mendoza Alvarez, Teorie queer e teologie: una introduzione p. 11-15 aqui p. 11). Eles se reportam a Michel Foucault [1926-1984] e às teorias desconstrucionistas para concluir: "as teorias queer defendem que os processos de naturalização das categorias binárias socialmente construídas não são desinteressados, mas servem para manter as relações de poder políticas, as estruturas capitalistas, o patriarcado e os sistemas epistemológicos" (ibidem. p. 11).

Em um de seus artigos, explica: “O termo queer ressignifica uma palavra usada originalmente como um insulto depreciativo contra as pessoas gays porque elas eram consideradas excêntricas e anormais. As pessoas que hoje utilizam o termo queer em sentido positivo interpretam esse uso como uma inversão do insulto para retirá-lo daqueles que perpetram o crime" (Susannah Cornwall, Prospettive di teologie costruttive: che cosa è la teologia queer, p. 36). Mas já na encíclica Mulieris dignitatem (15 de agosto de 1988), João Paulo II tentou expressar muito claramente a característica espiritual da paternidade divina, mas não parece que tenha conseguido introduzir na igreja uma nova tradição linguística.

Ele escreveu: "Esta característica da linguagem bíblica, o seu modo antropomórfico de falar de Deus, indica também indiretamente o mistério do eterno ‘gerar’, que pertence à vida íntima de Deus. Todavia, este ‘gerar’ em si mesmo não possui qualidades ‘masculinas’ nem ‘femininas’. É de natureza totalmente divina. É espiritual do modo mais perfeito, pois ‘Deus é espírito’ (Jo 4, 24) e não possui nenhuma propriedade típica do corpo, nem ‘feminina’ nem ‘masculina’. Por conseguinte, também a ‘paternidade’ em Deus é totalmente divina, livre da característica corporal ‘masculina’, que é própria da paternidade humana.

Neste sentido, o Antigo Testamento falava de Deus como de um Pai e se dirigia a ele como a um Pai. Jesus Cristo, que pôs esta verdade no próprio centro do seu Evangelho como norma da oração cristã, e que se dirigia a Deus chamando-lhe: ‘Abá – Pai’ (Mc 14, 36), como Filho unigênito e consubstancial, indicava a paternidade neste sentido ultra-corporal, sobre-humano, totalmente divino. Falava como Filho, unido ao Pai pelo mistério eterno do gerar divino, e o fazia sendo ao mesmo tempo. Filho autenticamente humano da sua Mãe Virgem.

Se à geração eterna do Verbo de Deus não se podem atribuir qualidades humanas, nem a paternidade divina possui caracteres ‘masculinos’ em sentido físico, contudo o modelo absoluto de toda ‘geração’ dos seres humanos no mundo deve ser procurado em Deus. Nesse sentido — parece — lemos na Carta aos Efésios: ‘dobro os joelhos diante do Pai, de quem recebe o nome toda a paternidade quer nos céus, quer na terra’ (3, 14-15). Todo ‘gerar’ na dimensão das criaturas encontra o seu primeiro modelo no gerar que em Deus é de modo completamente divino, isto é, espiritual. A este modelo absoluto, não-criado, é assimilado todo ‘gerar’ no mundo criado. Por isso, tudo quanto no gerar humano é próprio do homem, como também tudo quanto é próprio da mulher, isto é, a ‘paternidade’ e a ‘maternidade’ humanas, trazem em si a semelhança, ou seja, a analogia com o ‘gerar’ divino e com a ‘paternidade’ que em Deus é ‘totalmente diversa’: completamente espiritual e divina por essência. Na ordem humana, ao invés, o gerar é próprio da ‘unidade dos dois’: um e outro são ‘genitores’, tanto o homem como a mulher" (n. 8).

Portanto, embora o termo “gerar” possa ser inserido sem dificuldade na reflexão teológica cristã, sem envolver a dimensão sexual, os termos “pai” e “mãe” não podem ser libertados dela, uma vez que no âmbito humano paternidade e maternidade são duas funções diferentes que se complementam entre si. Essa distinção também opera na educação, que continua de maneira própria e distinta, além de geração e nascimento.

Distinção entre Jesus Cristo e Deus

O problema é colocado de maneira diferente sobre Deus e em referência a Jesus Cristo. Acredito que a maior dificuldade diz respeito à terminologia teológica (= relativa a Deus). No mencionado número do Concilium, Carmen Margarita Sánchez de Léon, ministra ordenada da Fraternidade Universal das Igrejas, declara que "para as teologias feministas e para as teologias queer, a cristologia constitui um problema". De fato, ela se pergunta: "Como podemos ser salvos apenas por uma força masculina? Vamos acrescentar, do ponto de vista das teologias do sul: como podemos ser salvas não apenas por um homem, mas ainda por cima por um homem branco? Sem perder de vista o fato de que os textos bíblicos foram escritos em chaves fundamentalmente androcêntricas e kyriarcais, as propostas cristológicas das teologias feministas se concentram na busca de elementos que dispam Jesus de uma masculinidade absoluta. Assim, recuperam o conceito de sapiência, uma força espiritual feminina que se liga a Jesus o profeta da Sofia. A outra categoria que despe Jesus de uma rígida masculinidade é seu vínculo com a comunidade da qual ele cria relações não hierárquicas e em uma perspectiva horizontal" (I molteplici corpi di Gesù, p. 77-87, aqui, p. 79 e seg.).

No entanto, não acredito que esse seja o problema fundamental.

A exclusividade salvífica não é da masculinidade, mas da ação divina, que é do tipo espiritual e encontra a possibilidade de se expressar em todas as criaturas. Acho que é necessário ter sempre em mente a distinção afirmada no quarto Concílio ecumênico (Calcedônia, 451): a união entre a Palavra eterna de Deus e a realidade humana de Jesus se realiza sem mutação (asunkütôs) e sem confusão (atréptôs).

Por esse motivo, Jesus Cristo deve ser afirmado em seu gênero masculino, mas não é a única energia salvífica: Deus salva o gênero humano na história, não só através de Jesus, mas por meio de todas as criaturas. Todos nós, humanos, somos chamados a salvar nossos semelhantes. Ao acolher o Espírito de Jesus, constituímos a igreja "sacramento universal da salvação" (LG 48 EV 1/416; AG 1 EV 1/1087). Por esse motivo "é dever de todo o Povo de Deus e sobretudo dos pastores e teólogos, com a ajuda do Espírito Santo, saber ouvir, discernir e interpretar as várias linguagens do nosso tempo, e julgá-las à luz da palavra de Deus, de modo que a verdade revelada possa ser cada vez mais intimamente percebida, melhor compreendida e apresentada de um modo conveniente" (GS n. 44 EV 1/1461).

Outro, então, é o problema do termo Deus (Theos, em grego, Deus, em latim), que é masculino e geralmente se refere a uma pessoa retratada com aparência masculina (geralmente também representada com barba). Deus não é homem e não pode ser descrito como tal. Os teólogos cristãos que ao longo dos séculos defenderam a legitimidade das imagens, hoje devem seriamente se questionar sobre as várias e diversas representações de Deus que, ao longo da história, constelaram as igrejas e os edifícios religiosos.

A imagem masculina de Deus deve ser explicada. Seu uso hoje parece um abuso. Temos um legado para gerenciar, uma tradição séria para reinterpretar. Mas não podemos dar como certo que as imagens masculinas de Deus ainda devam ser usadas sem colocar o problema de sua legitimidade. Entendemos a importância do rigor com o qual judeus e especialmente muçulmanos se opuseram à representação de Deus. Sem cair nos excessos das lutas iconoclastas e repetir os erros daquela longa história, devemos, no entanto, reconhecer a legitimidade das reservas que os opositores do culto às imagens apresentaram, especialmente em relação a Deus. No entanto, quanto a Jesus Cristo, devemos defender a representação masculina de sua experiência histórica e defender a legitimidade de sua função salvífica enquanto filho de Deus. Apenas devemos também dizer que a ação divina que nele toma forma humana continua no tempo seu influxo salvífico.

Não podemos descrever sua condição atual, da mesma forma como somos incapazes de imaginar a vida além da morte de todos os nossos ancestrais.

 

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