A censura a Emanuele Severino e a reforma da Igreja. Artigo de Andrea Grillo

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24 Janeiro 2020

“A pretensão de uma Igreja, que dita ao filósofo uma ontologia normativa, é uma trágica ilusão, que esperamos que tenha morrido para sempre.”

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Justina, em Pádua. O artigo foi publicado por Come Se Non, 22-01-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

morte do filósofo Emanuele Severino implicou, como é inevitável, a reevocação do seu pensamento e também da sua história, tingida de amargura. Muitos jornais recordaram que ele lecionara na Universidade Católica de Milão, de 1954 a 1970, quando foi forçado a se transferir para Veneza, tendo sofrido um processo canônico, que estabeleceu a contradição entre o seu pensamento e a doutrina cristã. O objeto da condenação foi o fato de ele ter negado “a infalibilidade da Igreja”.

O procedimento envolveu o cardeal Carlo Colombo, o reitor, Giuseppe Lazzati, e teve, como consultor do Santo Ofício, o professor Cornelio Fabro. É singular que, de maneira generalizada, tudo isso seja considerado normal hoje. É claro que, infelizmente, também o foi na época, e seria um grave anacronismo julgar as coisas de 50 anos atrás como se fossem atuais; mas hoje, por ocasião da morte do filósofo, não seria o caso de a Igreja Católica, em sã consciência, reexaminar pelo menos alguns aspectos desse procedimento? Tento ilustrar pelo menos três.

a) A legítima dissidência

É totalmente normal que se detecte, criticamente, no pensamento de Emanuele Severino, uma crítica radical à fé, à revelação, à criação, a Deus e até a toda a experiência. O devir, sendo negado, conduz a uma afirmação do ser de cada ente, que difere apenas porque ou aparece ou não aparece. A “estrutura original” do seu pensamento é fascinante e perturbadora.

Um dos que a examinou com maior lucidez é precisamente aquele Cornelio Fabro, que construiu o fascículo com o qual o seu pensamento foi formalmente considerado em contradição com a revelação, por ser imanentista e atualista. Mas o poder da Igreja em âmbito filosófico continua sendo uma pretensão pré-moderna. Que encontra a sua versão do século XIX em Aeterni patris e a sua versão do século XX em Humani generis. Mas o Concílio Vaticano II nos ensinou a autonomia das realidades temporais. Entre as quais, devemos reconhecê-lo, também está o pensamento filosófico.

b) A diferença entre filosofia e teologia

O julgamento sobre o pensamento de um teólogo, que se ocupa diretamente da tradição cristã, prevê inevitavelmente um julgamento sobre a eventual contradição entre as suas afirmações e as consideradas como tradição do depositum fidei. Sobre isso, podem-se discutir o modo e o método, mas o mérito é pacífico.

Em vez disso, quanto a um filósofo, o exame da sua “compatibilidade com a revelação” parece ser, seguramente hoje, uma pretensão exorbitante. O ofício do filósofo, na sua delicada autonomia, não prevê um controle “ex auctoritate”. A razão filosófica, por método e por vocação, procede por evidência, não por autoridade.

Assim, salvaguardar um espaço franco para o pensamento, mesmo no âmbito de uma universidade católica, tornou-se hoje, creio eu, um elemento de necessária qualificação. Precisamente a “pretensão salvífica” do pensamento de Severino poderia ter sido conservada dentro da instituição, e não excomungada para fora. A ideia de que a filosofia deve ser “católica” continua sendo sempre um paradoxo...

c) A fecundidade do debate

Em terceiro lugar, o próprio fato de um pensamento tão forte e tão discutível ter alimentado um debate vivo, bem fora da universidade católica, poderia ter garantido, precisamente dentro de uma instituição católica, uma fecundidade quase inesgotável. Positiva e também negativamente: encontrar argumentos, disputar, refutar, descobrir os pontos fracos, apreciar os pontos fortes. O desenvolvimento de tudo isso teria permitido resultados bem diferentes, tanto para a instituição quanto para o próprio pensador.

Por isso, não sem alguma surpresa, fico impressionado com o fato de que, diante da notícia da morte de Emanuele Severino, ninguém pensou que havia chegado o momento de fazer um balanço e de purificar a nossa memória. Não se trata, contudo, de condenar aqueles que prepararam essa inquisição ou de desconfiar daqueles que proclamaram ou aceitaram uma decisão tão grave. Nem se trata de reabilitar um pensamento que continua sendo, no seu fascínio, altamente problemático.

Pelo contrário, trata-se de aceitar e de confessar uma mudança de estilo e de método. Medir-se verdadeiramente com a “sociedade aberta” significa mudar os métodos com os quais se acessa a verdade. É verdade que, depois do pensamento de Emanuele Severino, nenhum pensamento filosófico parece ter sido mais investigado desse modo inquisitorial. Mas não basta à Igreja interromper uma prática distorcida. Ela deve explicitamente se distanciar desse modo de entender a garantia da verdade, de forma clara e oficial.

No fim do filme “O resgate do soldado Ryan”, o velho soldado, para cujo salvamento, 60 anos antes, haviam morrido muitos companheiros de armas, volta aos seus túmulos e pergunta aos filhos e aos netos: “Diga-me que eu vivi bem”. Ter merecido tanta dedicação gratuita havia descerrado a Ryan uma vida preciosa, que não podia ser desperdiçada.

De modo análogo, mas com os papéis invertidos, a Igreja Católica poderia, sobre o túmulo do filósofo que negava o devir, não interromper a discussão, não suspender as críticas, não adoçar as refutações, mas se despojar do poder de excluir e consentir com uma diferença na comunhão. A exigência de uma profunda revisão das “práticas do consenso”, na realidade, é um dos perfis mais urgentes sobre os quais a Igreja Católica aguarda processos reais de reforma e de conversão.

Até mesmo a morte de um filósofo, do qual nos preocupamos em condenar o pensamento, pode nos ajudar a sair da obsessão da condenação. E pode abrir o coração para um debate ainda mais profundo, para a crítica mais radical, mas salvaguardando as autonomias dos campos de investigação e as diferenças de perspectivas no olhar.

A pretensão de uma Igreja, que dita ao filósofo uma ontologia normativa, é uma trágica ilusão, que esperamos que tenha morrido para sempre. A morte de quem sofreu a sua lógica arcaica poderia ser uma ocasião propícia para dizer isso apertis verbis, tanto para a sua quanto para a nossa dignidade.

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