A Companhia e os jesuítas, do Vaticano II ao Papa Bergoglio

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23 Janeiro 2020

O historiador La Bella repassa os últimos 60 anos da Ordem inaciana: de Arrupe a Kolvenbach, até a eleição do cardeal de Buenos Aires.

A reportagem é de Filippo Rizzi, publicada por Avvenire, 17-07-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Admirados, temidos, invejados pelo “nosso modo de proceder” (a famosa frase atribuída a Jerônimo Nadal) no mundo, atentos aos “sinais dos tempos”, como indica o Vaticano II, mas também olhados com suspeita e desconfiança pelo estilo de exercer, em contextos muitas vezes difíceis e árduos (como a teologia moral e não só), a arte do “discernimento dos Espíritos”.

É o retrato que reflete, em certo sentido, a última parte da plurissecular história dos jesuítas nos últimos 60 anos da sua longa existência, que começou em 1540 com a fundação da Companhia de Jesus por Santo Inácio de Loyola.

E um livro escrito, com uma riqueza de detalhes inéditos, pelo historiador Gianni La Bella, “I gesuiti. Dal Vaticano II a Papa Francesco”  (Ed. Guerini, 368 páginas), retorna exatamente ao último trecho da estrada percorrido pelos inacianos entre 1965 e 2019. O livro também recomeça a partir de estudos anteriores realizados justamente por La Bella sobre esse atraente assunto, como o volume, publicado pela editora Mulino em 2007, Pedro Arrupe. Un uomo per gli altri, mas acrescenta, em comparação com então, novas peças do complexo mosaico em torno da dinâmica vida dentro da Companhia de Jesus: entre estas, obviamente, a eleição ao sólio de Pedro do primeiro jesuíta na história da Igreja Católica, o argentino Jorge Mario Bergoglio.

Paulo VI e Arrupe: incompreensões, mas também estima pelo “Pe. Pedro”

Com uma escrita ágil e convincente, o livro começa justamente com a eleição em 1965 do segundo basco à frente da ordem após Inácio, Pedro Arrupe: a partir dessas páginas, descobre-se o estilo carismático e inicialmente “conservador” do jesuíta de Bilbao, considerado o último “papa negro” do século XX. Graças a essa nova pesquisa, fica claro que, como provincial do Japão, Arrupe era considerado pelos seus próprios coirmãos como “inapto” ao governo e frequentemente considerado como “ingênuo” pela sua excessiva confiança no mundo e nas relações humanas.

Mas também aflora outro aspecto singular da complexa biografia de Arrupe: Paulo VI, que teve ocasiões de atrito e de divergências de pontos de vista justamente com o jesuíta espanhol, especialmente durante a celebração da famosa 32ª Congregação Geral da Companhia de Jesus (a cúpula de 1974-1975 que queria estender o famoso IV voto de obediência a todos os jesuítas), conservava, antes de morrer em agosto de 1978, no seu genuflexório, um texto profético (de 1977) do “Pe. Pedro” dedicado ao tema da missão e da obediência dos jesuítas à Sé Apostólica.

O livro repassa os anos do generalato de Arrupe (1965-1983) – destacando, entre outras coisas, o risco de “cisma” dos inacianos das províncias espanholas, que não se reconheciam no estilo de “atualização” pós-conciliar impresso pela hierarquia da ordem, o difícil momento da “intervenção” da Companhia (1981-1983) desejada por João Paulo II com a nomeação de um delegado de sua confiança, o milanês Paolo Dezza, assistido pelo jesuíta “sardo-japonês” Giuseppe Pittau, até à eleição do holandês Peter Hans Kolvenbach.

Nessa parte do ensaio, são repassados, em uma longa lista de eventos, todos os atritos, “incompreensões”, pontos de confronto entre a Ordem e a Santa Sé nos pontificados de Montini, Luciani e Wojtyla. Não é por acaso que La Bella retorna aos muitos casos de dissidência que, muitas vezes, viram jesuítas de fama (basta pensar nas reivindicações de muitos filhos de Santo Inácio em favor da teologia da libertação, de uma opção preferencial pelos pobres, ou nas críticas de Karl Rahner à Humanae vitae de Paulo VI), muitas vezes em contraste com o magistério oficial da Igreja da época.

Kolvenbach, o geral que deu os Exercícios a João Paulo II

O autor se detém, acima de tudo, na difícil passagem do generalato entre o carismático Arrupe e Kolvenbach, e reconhecendo que este último, um jesuíta holandês “muito espiritual”, governou com mansidão e clarividência durante 25 anos (1983-2008) a “mínima Companhia de Jesus” e, graças ao seu estilo, recuperou a confiança “perdida” de João Paulo II.

Descobre-se, por exemplo, que a estima em relação a Kolvenbach também foi confirmada por um detalhe singular: em 1987, caberia justamente ao jesuíta holandês (único prepósito da Companhia chamado a cobrir este prestigioso encargo) a orientar os Exercícios Espirituais da Quaresma ao papa e à Cúria Romana. Ele modelaria as suas meditações, por sugestão do então cardeal Ratzinger, a partir de uma leitura espiritual da Palavra de Deus.

O livro oferece muitas pequenas “fotografias” inéditas, como o aplauso unânime que os jesuítas da 34ª Congregação Geral em 1995 tributaram ao seu antigo “interventor”, o cardeal Paolo Dezza, de 93 anos, por ter conseguido reconquistar, em certo sentido, um alto grau de estima e de confiança da Companhia em relação ao seu “superior” primeiro e direto. Também se destaca a admiração de Bento XVI pela prática requintadamente inaciana dos Exercícios aprendida na escola do seu exegeta de confiança, o jesuíta Albert Vanhoye.

Bergoglio e o risco de uma Companhia “investigada”

Na parte final, o texto conta a natureza excepcional da Companhia nestes anos em que o Papa Francisco, que provém dessa ordem de clérigos regulares, é, em certo sentido, o “primeiro superior” dessa família religiosa. Entre essas páginas, também se descobre que o então arcebispo de Buenos Aires, o cardeal Bergoglio, fora indicado pela Santa Sé em 2007 (Bento XVI, o então secretário de Estado, cardeal Tarcisio Bertone, e indiretamente também o cardeal Franc Rodé, prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada) como o homem certo – um autêntico “jesuíta perfeito” – a quem o Pe. Kolvenbach devia consultar e em quem podia confiar para “verificar” o respeito pelo “carisma das origens”, o estado de saúde da ordem e a fidelidade àquele “sentire cum Ecclesia” tão caro a Inácio de Loyola.

Dessas páginas, aflora que precisamente a intervenção e as sugestões providenciais de Bergoglio (o testemunho também vem do sucessor de Kolvenbach, Adolfo Nicolás Pachón) evitaram uma segunda intervenção na Companhia de Jesus por parte da Sé Apostólica em anos muito recentes. La Bella entrevê na feliz coincidência de um primeiro pontífice jesuíta que agora tem ao seu lado, pela primeira vez, um prepósito geral de proveniência não europeia, mas latino-americana como ele, o venezuelano Arturo Sosa Abascal (no cargo desde 2016), a oportunidade privilegiada para todos os filhos de Santo Inácio, e não apenas para realizar aquela reforma (também interior) da Igreja, da qual o Papa Francisco fala na sua encíclica programática do seu pontificado, a Evangelii gaudium.

 

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