Diário de viagem de um cientista a Hong Kong

Protestos em Hong Kong | Foto: Studio Incendo - Wikimedia Commons

22 Janeiro 2020

"Hong Kong é um canto da China enriquecido por circunstâncias acidentais da história e teme perder privilégios", escreve Carlo Rovelli, físico italiano, professor da Universidade de Aix-Marseille na França e diretor do grupo de pesquisa em gravidade quântica, em Marselha, em artigo publicado por Corriere della Sera, 20-01-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Carlo Rovelli é um físico e cosmologista italiano, conhecido por sua interpretação relacional da mecânica quântica. Desenvolveu juntamente com Lee Smolin uma teoria da gravitação quântica, conhecida como gravidade quântica em loop.

Ele é autor, entre outros livros traduzidos para o português, de Sete breves lições de física (Editora Objetiva).

Eis o artigo. 

Os protestos se reacenderam em Hong Kong. Os confrontos entre polícia e manifestantes, as devastações, as ocupações das universidades, as grandes manifestações, e até uma invasão no parlamento, pareciam ter se acalmado após a vitória dos candidatos pró-democracia nas eleições distritais de novembro. Nos últimos dias eu estive na Universidade de Hong Kong.

 (Fonte: Mapas Owje)

Os alunos mostravam-me satisfeitos os terraços dos quais haviam atirado pedras e paus na polícia, as entradas do campus onde as barricadas haviam queimado, as pavimentações reviradas para recolher pedras. Mas a atmosfera do campus era sonolenta, as lojas de luxo do centro brilhavam impecáveis, exalando riqueza, as ruas decrépitas do bairro de meu hotel fervilhavam da habitual vida caótica e colorida da pobreza dos trópicos. Em resumo, a Hong Kong de sempre: com um dos dez produtos per capita mais altos do mundo e níveis de desigualdade impensáveis na Europa. A calma não durou muito: ontem os tumultos começaram novamente.

O que os motiva? Hong Kong foi uma colônia britânica por mais de um século. Incapaz de mantê-la, Londres a cedeu à China em 1997, com um tratado no qual Pequim se comprometeu a manter sua economia capitalista por 50 anos e uma considerável independência legal e administrativa. Com uma hipocrisia totalmente inglesa, Londres obteve o compromisso ambíguo de ir "em direção" às eleições de sufrágio universais: eleições que a própria Londres teve o cuidado de não conceder à sua colônia. Hoje Hong Kong tem um governo sobre o qual Pequim tem uma influência decisiva. O princípio é "um país, dois sistemas", o mesmo com o qual Pequim tenta, por enquanto com pouco sucesso, convencer Taiwan a se juntar ao continente. Durante décadas, Hong Kong desempenhou o papel de porta de entrada comercial entre a China e o Ocidente, função cômoda para todo mundo. Tornou-se o centro financeiro da Ásia, acumulando riqueza. As tensões pela ambígua relação com a China, sempre presentes, só explodiram no ano passado, desencadeadas por uma proposta de estender os tratados de extradição, percebida como concessão de soberania para a China. Hoje a proposta é arquivada pelo governo; os pedidos do protesto são anistia pelos crimes cometidos nos confrontos e um sufrágio universal que afrouxe a mão de Pequim.

As eleições de novembro indicam que o protesto na cidade é visto principalmente com simpatia. Mas quem protestam são os estudantes universitários, os filhos de uma classe média esmagada entre a extrema riqueza da elite e um povo miúdo que me pareceu mais preocupado com que não aconteçam muitos problemas do que com qualquer outra coisa. A classe média também está em dificuldade na riquíssima Hong Kong: como em todo o planeta, o enriquecimento em curso beneficia os mais pobres e os mais ricos. Em Hong Kong, a pressão sobre os jovens é enorme: o custo da moradia, por exemplo, é proibitivo, entre os mais altos do mundo. O papel econômico histórico da cidade está em dúvida, também devido às tensões entre a China e os EUA. Apesar da riqueza, os jovens da classe média de Hong Kong são pessimistas, como muitos deles em todo o mundo.

As elites mantêm uma posição ambígua. Entendem que a cidade não pode desafiar a China, que a considera sua província. Pequim mantém seis mil soldados em uma base dentro das fronteiras de Hong Kong e, para maior clareza, realizou exercícios antimotim com outros milhares de soldados logo além da fronteira. A China também é uma oportunidade: Hong Kong fica ao lado da Greater Bay Area, uma das áreas que de mais rápido crescimento no planeta. Mas parte da elite teme o centralismo chinês. Alguns ressaltaram que a ausência de extradição é conveniente, no selvagem mundo dos negócios. Se parte do establishment pede aos jovens que se acalmem, outra parte, incluindo os meios de comunicação de propriedade de magnatas locais, insufla o fogo do protesto.

Taiwan, sob pressão de Pequim, tem interesse em mostrar que o princípio "um país, dois sistemas" não funciona. O Ocidente adora estimular a propaganda ideológica antichinesa "pró-democracia". O Ocidente detesta a democracia quando os povos votam em partidos antiocidentais, como na Argélia, Egito, Palestina, América do Sul ou Central, e não hesita em enviar exércitos ou sabotar governos democraticamente eleitos quando não são pró-ocidentais; mas celebra entusiasticamente a democracia quando é arma ideológica contra seus adversários. As mídias ocidentais tomaram partido a favor dos protestos, apresentados com uma aura edulcorada: muito se sabe sobre a brutalidade da polícia (verdadeira), pouco sobre as devastações e as violências (igualmente verdadeiras). Apenas um exemplo: em 11 de novembro, manifestantes atearam fogo a um transeunte que os repreendia; poucos meios de comunicação ocidentais relatam essa parte da história (entre eles o Corriere).

A China tem um bilhão de habitantes. Teve um sucesso único em tirar de dezenas de milhões de pessoas da pobreza extrema, mas continua sendo um país mediamente pobre. O produto per capita de Hong Kong é quase quatro vezes o da China. A leitura mais direta dos protestos, para além das belas palavras da ideologia, é muito simples: Hong Kong é um canto da China enriquecido por circunstâncias acidentais da história e teme perder privilégios.

Mas é outra coisa que me impressionou, nos meus curtos dias na cidade-estado. Os habitantes são chineses. Eles falam a língua do sul da China, comem os mesmos alimentos, têm os mesmos hábitos. Isso, sobre o que Pequim sempre jogou politicamente, era óbvio para todos. O ano passado mudou alguma coisa. Os estudantes de Hong Kong agora declaram com orgulho que não são chineses. Tem mais. Hoje, os nascidos no continente se sentem malvistos em Hong Kong; chegam a ter medo. Conversei com estudantes que preferiam não dizer que vinham do continente. O protesto assumiu um caráter identitário. Lojas e bancos de propriedade chinesa foram vandalizados e queimados. Os estudantes do continente fugiram, temendo por sua segurança. Navios foram organizados para levá-los embora. Contribuiu também o fato que às universidades da rica Hong Kong chegam facilmente também os jovens locais, enquanto os estudantes do continente que as acessam são muito selecionados, portanto, brilhantes. A diferença de qualidade resultante gera ressentimento.

Não tenho conhecimento suficiente para expressar juízos. Essas linhas são apenas notas de viagem. Não tenho simpatia pelos aspectos iliberal e totalitário do sistema político de Pequim. O Corriere publica minhas opiniões: não acredito que em Pequim o People’s Daily faria o mesmo. Mas o que hoje se lê nos muros de Hong Kong é: "Eu não sou chinês". Nas palavras dos muros, não há sonhos de uma sociedade mais justa e livre; há raiva contra outro povo, quatro vezes mais pobre. Mais do que "democracia" e "amor à liberdade", o que senti soprar em Hong Kong é uma veia intensa do nacionalismo, que ecoa com o pior do que acontece em muitas outras partes do mundo.

A humanidade está ficando cada vez mais rica. Está prestes a enfrentar desafios ambientais existenciais; no momento em que é essencial colaborar, nos reconhecer irmãos no mesmo barco, a única coisa que nos entusiasma é dividir-nos em grupelhos cada vez mais fragmentados, a fim de defender até o osso os pequenos privilégios locais. Em vez de olhar para injustiças e horrores com os quais somos cúmplices, nos escandalizamos por aqueles dos nossos adversários. Pensava chegar em Hong Kong e saborear um vento de liberdade, justiça, rebelião contra a opressão, defesa dos oprimidos contra os opressores. Não tenho certeza de ter sentido isso.

 

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