Cardeal Schönborn relembra as principais questões relativas à Igreja em 2019

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14 Janeiro 2020

O destino da região amazônica, o abuso sexual contra religiosas e um polêmico show musical na famosa Catedral de Santo Estevão, em Viena, para arrecadar fundos a uma instituição de caridade.

Estes foram apenas alguns dos assuntos que o Cardeal Christoph Schönborn abordou em uma entrevista de final de ano à revista católica austríaca Die Furche.

O cardeal-arcebispo de Viena desde 1995 completará 75 anos em 22 de janeiro. Na entrevista de duas páginas, pediram que o religioso fizesse um balanço dos temas polêmicos que a Igreja enfrentou em 2019, a começar pela Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Amazônica.

“Para mim, a mensagem central é, sem dúvida, que a região amazônica diz respeito ao mundo inteiro – isto é, a cada um de nós”, disse Schönborn.

A reportagem é de Christa Pongratz-Lippitt, publicada por La Croix International, 13-01-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

“Se destruímos a Amazônia, destruímos o mundo”

Para o religioso, foi um choque quando o Prof. Hans-Joachim Schellnhuber, do Instituto Potsdam, em Berlim, falou na presença do papa: “A destruição da floresta amazônica é a destruição do mundo”.

Essa é uma importante admissão para um teólogo dominicano experiente, que é Schönborn. O prelado foi ordenado bispo aos 46 anos e hoje é o segundo cardeal-eleitor mais antigo, só ficando atrás do Cardeal Vinko Puljic, de Sarajevo.

Embora Puljic tenha sido feito cardeal em 1994, e Schönborn somente em 1998, foi o austríaco quem Francisco escolheu como um dos membros europeus do Sínodo para a Amazônia. Na verdade, o dominicano era o primeiro nome na lista dos nomeados papais.

Mas Schönborn deixou claro que os bispos da Europa, da América do Norte e outras partes do mundo eram minoria, enquanto os latino-americanos formavam a maioria. Ele destacou que todos os bispos dos nove países da região amazônica estiveram presentes no evento, entre os dias 3 e 28 de outubro, em Roma.

O cardeal falou também que a preocupação pela região da Amazônica, como um dos fatores mais estabilizantes do clima mundial, era certamente o principal motivo pelo qual o papa convocara esta assembleia sinodal.

Ele disse acreditar que o papa também se preocupa com a questão da proteção dos povos indígenas na região, bem como a cultura e os direitos deles.

A onda pentecostal

Um outro tema importante destacado na entrevista foi como confrontar os desafios pastorais e as possibilidades na região amazônica. Schönborn disse que, na maior parte do sínodo, teve uma atitude de escuta ao que os outros tinham a dizer, uma vez que não se sentia qualificado para trazer sugestões. No entanto, ele formulou três ou quatro perguntas.

A primeira dizia respeito à rápida expansão das igrejas evangélicas na região, especialmente as pentecostais. Ele queria saber o que este avanço inacreditável indicava, apontando que algumas fontes estimam que entre 60 e 80% dos cristãos na região pertencem, hoje, a comunidades neo-evangélicas.

“Foi realmente surpreendente que esse tema tenha sido tão pouco discutido no sínodo”, disse o cardeal, visto que um dos grandes temas pastorais era como capacitar os padres para serem presentes nas paróquias e não apenas visitantes ocasionais.

“A impressão que tive foi a de que alguns queriam discretamente contornar toda essa problemática”, afirmou.

Uma outra de suas questões levantadas indagava sobre uma tal solidariedade latino-americana na região amazônica.

“Se 1.200 padres colombianos estão ajudando a Igreja nos EUA e Canadá ao mesmo tempo que vemos uma escassez dramática de padres na Amazônia, no mínimo isso põe em dúvida a questão da solidariedade”, insistiu ele.

Integração e inculturação

Em seguida, o entrevistador lembrou o debate havido na imprensa relativa a uma estátua indígena e à questão de se era realmente possível inculturar a cultura amazônica indígena. Críticos conservadores chegaram até a acusar Francisco de idolatria por permitir que as chamada estátua Pachamama estivesse exposta no Salão Sinodal.

Foto: NCR

Schönborn avaliou o incidente apontando para um artigo no L’Osservatore Romano que citava as palavras do recém-canonizado John Henry Newman.

O cardeal falou que o santo inglês ilustra como, ao longo da história, a Igreja sempre integrou elementos religiosos do mundo pagão. Como escreveu Newman, não era possível usar incenso na Igreja primitiva, por exemplo, já que era um uso pagão.

“A polêmica Pachamama é, antes de mais nada, uma mulher grávida”, explicou.

“Como disse a um jornalista americano: ‘eu e você, ambos viemos ao mundo desse jeito... Como a Mãe Terra e a Mãe da Vida, ela é um arquétipo e, certamente, tem lugar no cristianismo’”.

A crise atual de abuso sexual

Uma outra questão iminente que perpassou a Igreja em 2019 é o escândalo atual envolvendo abusos sexuais.

O cardeal destacou um aspecto particular aqui, a saber: o abuso espiritual de religiosas.

Em entrevista a um canal de televisão que Schönborn conduziu ano passado com Doris Wagner, ex-membro da comunidade mista The Work (“A Obra”), o cardeal explicitamente afirmou acreditar na acusação da entrevistada de que um padre a havia estuprado.

Hoje esta entrevista está publicada na forma de livro. Die Furche perguntou ao cardeal por que ele achava que este aspecto em particular era tão importante.

O religioso respondeu que havia falado com muitas religiosas que tiveram experiências extremamente dolorosas de abuso espiritual e que “naturalmente” ele queria tirar conclusões gerais a partir do que ouviu.

O abuso espiritual foi um dos fatores que facilitou o abuso sexual, enfatizou.

“Acho alarmante que os fundadores de alguns dos Novos Movimentos acabaram se revelando culpados de abuso extremo. Uma autoridade espiritual inflada levava ao abuso sexual, o que então levou a outras formas de abuso. É um problema que ficou muito, muito claro nestes últimos anos”, explicou o cardeal.

Um cardeal compassivo ou amigo da comunidade homoafetiva

Schönborn foi alvo de críticas em novembro por autorizar um show musical realizado na Catedral de Santo Estevão, em Viena, para arrecadar fundos a uma instituição de caridade voltada a pacientes com HIV-Aids. Era a terceira vez que ele havia autorizado a realização do evento, e como nas vezes anteriores, muitos gays e lésbicas estiveram presentes.

Die Furche perguntou por que o religioso buscou tornar a comunidade homoafetiva visível na Igreja. Ele respondeu que o evento foi, na verdade, realizado para arrecadar dinheiro para uma clínica de pacientes terminais gays da Ordem de Malta na África do Sul.

“É claro que a homossexualidade desempenhou um papel proeminente em tornar o assunto da Aids um grande tema”, admitiu.

“Tenho plena ciência do fato de que a questão da abordagem correta aos homossexuais é um grande tema social e também católico. Defendo não considerarmos a questão da orientação sexual por primeiro, mas sim olhar as qualidades humanas da pessoa”, explicou.

Segundo o cardeal, a primeira questão é sempre se perguntar como as pessoas tratavam os seus colegas. Disse também que essa é a primeira pergunta que Deus nos faz: “não só a única pergunta, mas a primeira”.

O cardeal insistiu que no Juízo Final não seremos indagados sobre a nossa orientação sexual, mas sim se alimentamos os famintos e vestimos os desnudos.

“E é assim”, disse ele, “que vejo a apresentação musical que realizamos na Santo Estevão”.

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