Cardeal Müller: no ‘processo sinodal’ alemão muitos buscam ‘poder político’

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14 Janeiro 2020

O cardeal alemão Gerhard Müller é ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Seu mais recente livro intitula-se “You Shall Be a Blessing”, sendo uma reafirmação da vida e do ministério sacerdotal apresentada em doze cartas. Ele conversou com Charles Camosy sobre o livro, o sacerdócio na atualidade, a crise de abuso sexual clerical e outros temas católicos contemporâneos, incluindo o polêmico “processo sinodal” atualmente em curso na Alemanha.

A entrevista é de Charles C. Camosy, publicada por Crux, 10-01-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis a entrevista.

Reprodução da capa do livro do Cardeal Müller

O professor Grove endossou o livro observando a significação que tem na “esteira da crise de abuso sexual clerical na Igreja Católica”. O senhor pode falar um pouco sobre escrever um livro a respeito da vida sacerdotal quando, em muitos ambientes, esse modo de vida é visto com ceticismo em meio à dor, raiva e frustração que acompanham esta crise?

O apóstolo Paulo se vê como “ministros de uma nova aliança, não aliança da letra, mas do Espírito” (2 Cor 3,6). Como ele, os bispos e os padres exercem o ministério na dispensação da justiça (cf. 2 Cor 3,9-11). A fé cristã sabe que Deus reconciliou-se com mundo em Jesus Cristo. Desta reconciliação vem a essência do ministério sacerdotal que todos os padres precisam ter diante de si, 24 horas por dia, sete dias por semana: “Sendo assim, exercemos a função de embaixadores em nome de Cristo, e é por meio de nós que o próprio Deus exorta vocês. Em nome de Cristo, suplicamos: reconciliem-se com Deus” (2 Cor 5,20).

Quando os padres causam resistência e aborrecimento por causa do Evangelho do Senhor crucificado, deveriam eles se alegrar porque algo assim não poderia ser melhor para o seu Senhor, que enviou os pastores ordenados de sua Igreja como “ovelhas no meio de lobos” (Mateus 10,16). Se nós, leigos ou membros do clero, somos repreendidos ou ridicularizados por sermos cristãos, não deveremos nos envergonhar, mas glorificar ao Senhor (cf. 1 Pedro 4,16). É outra coisa se nós pastores da Igreja não somos “como modelos para o rebanho” (1 Pedro 5,3) de Cristo, mas, em vez disso, por graves pecados ou mesmo crimes públicos, destruímos a confiança dos nossos companheiros cristãos e demos ocasião para que pessoas de fora questionem a credibilidade em geral da Igreja.

Toda pessoa honesta – cristã ou não – sabe que nenhum de nós é sem defeito, na medida em que vivemos nessa terra. O escândalo consiste em ter uma vida dupla: quando discípulos de Cristo se apresentam conscientemente como bons cristãos, ou mesmo se tornam pessoas benquistas como pastores, porém secretamente levam vidas que contradizem os mandamentos divinos e, em especial, vão contra a ética e a espiritualidade de um sacerdote católico. Nem o sacerdócio sacramental, exercido em nome de Cristo, o Bom Pastor, nem o celibato para o bem do Reino dos Céus (Mateus 19,12; 1 Cor 7,32) criaram a crise da Igreja hoje. Pelo contrário, esta crise, provocada por crimes vergonhosos, perpetrados por um número pequeno de clérigos, advém de uma deserção interior da fé, duvidando do propósito de uma vida doada exclusivamente a Deus e de dedicação perfeita de um pastor ao seu rebanho. Falo dos responsáveis por uma confusão teológica na Igreja e pela implosão de princípios morais, congelando até a morte a vida espiritual de muitos padres. Sem a renovação das promessas de ordenação na celebração diária da missa, sem a confissão frequente e a recitação fiel do breviário, até mesmo o zelo apostólico inicial mais forte diminuirá e, potencialmente, acabará em catástrofe. (Um outro ponto é haver pessoas psicologicamente doentes com tendências pedófilas que, por essa razão, precisam ser proibidas de se tornarem padres e de se casar.)

O senhor enfatiza a importância do desenvolvimento espiritual dos padres e o papel de um padre como o primeiro a rezar na comunidade. Mas o que acho é que os pastores (e especialmente os bispos) estão muitas vezes ocupados com questões de gerência e outras responsabilidades, o que torna bem difícil de eles realizarem um trabalho de disciplina espiritual e terem tempo para todos os tipos de oração exigidos para um bom sacerdote. Conseguimos pensar um modelo para os pastores que delegue parte do trabalho que vai além daquele que o senhor trata no livro?

A Igreja hoje está em perigo de emborcar. Por esse motivo, muitos marinheiros e oficiais pularam para fora do navio. Quando bispos e padres, hoje, propagam as piores heresias, pregam sem preparação e não gostam de ouvir confissões, dificilmente serão admoestados por seus superiores, apesar do fato de que, ao agirem assim, privam os fiéis da Palavra de Deus, recusam-lhes a graça do perdão e, ao celebrarem uma missa indignamente, negam-lhes a possibilidade de unirem os sacrifícios de suas vidas com o sacrifício de Cristo e de se fortalecerem na comunhão com Cristo para as tarefas que desempenham na família, na sociedade, na Igreja e no Estado. Somente nos casos de má gestão financeira é que ouvimos pedidos para que os bispos renunciem ou que os padres sejam severamente punidos. O Vaticano, as dioceses e as paróquias precisam se organizar de tal modo que a evangelização, a catequese e o acompanhamento pastoral sejam prioritários. A administração externa não é um fim burocrático em si, e sim tem uma função subordinada. Essas tarefas precisam ser feitas com diligência também. Para elas, deveríamos envolver leigos competentes que estejam profundamente comprometidos coma fé católica.

Vimos algumas pessoas escrevendo que, nos últimos anos, os padres que têm a sua formação em seminários estão sendo, em muitos casos, afastados da convivência com os leigos e do modo como o mundo funciona – e que isso tem prejudicado a habilidade deles de se conectarem e ter relações saudáveis com as pessoas e especialmente com os ministérios comandados por leigos. O que acha disso?

O que conta é uma formação teológica e pastoral sólida, que desenvolva, em particular, uma espiritualidade profunda de imitação de Cristo, baseada no amor por Jesus (cf. João 21,15-19), o Sumo Sacerdote e o Bom Pastor que “dá a vida por suas ovelhas” (Jo 10,11). Sempre podemos melhorar os detalhes da formação sacerdotal, de acordo com as circunstâncias das comunidades particulares e nos diferentes tempos. Precisamos redescobrir o sacerdócio como pretendia Cristo, não “reimaginar” segundo nós mesmos, preferências sempre questionáveis. Precisamos formar os seminaristas em cooperação com os leigos que trabalham para a Igreja – ambos os lados têm que aprender isso.

Para o trabalho de evangelização, será particularmente importante educar os futuros padres na habilidade de liderança, o que é um aspecto essencial do ministério sacerdotal. Sem um bom protagonismo, não haverá uma boa cooperação. E sem fidelidade doutrinal, não pode haver evangelização autêntica.

Em alguns países, a formação conjunta de padres e ministros leigos diluiu o perfil teológico dos sacerdotes ordenados. Inclusive alguns líderes eclesiásticos ainda parecem acreditar que, no futuro, o ministério dos padres pode, ou deveria – de algum modo –, ser substituído por leigos. Isso é um erro grave, em termos teológicos e pastorais. No processo sinodal em curso na Alemanha, muitos participantes estão interessados em ganhar mais poder político na Igreja. Por essa razão, exigem que as mulheres sejam ordenadas ao sacerdócio, independentemente do magistério católico dogmático, que tem origem na instituição e na essência do sacramento das Ordens, e que não deve ser difamado como expressão de discriminação contra as mulheres na Igreja. Além disso, o celibato sacerdotal é atacado como uma visão supostamente puritana e hostil da sexualidade humana.

Se a cooperação entre bispos, padres, diáconos e leigos nos muitos ministérios das paróquias alemãs, das entidades de caridade e faculdades católicas deveria edificar-se para o corpo de Cristo e não para servir à ambição pessoal, precisamos todos nos orientar, teológica e espiritualmente, nos ensinamentos biblicamente assentados do Concílio Vaticano II sobre o sacerdócio comum dos batizados e do sacerdócio hierárquico (de bispos, padres e diáconos: cf. Lumen gentium, 28). As duas formas do sacerdócio “[diferenciam entre si] essencialmente” – com respeito à representação de Cristo como o a cabeça e o corpo da Igreja –, mas “ordenam-se mutuamente um ao outro” (Lumen gentium 10). No Espírito Santo, todos os fiéis e seus pastores, com suas habilidades e carismas, e realizando “ diversas obras e encargos”, contribuem para a “renovação e cada vez mais ampla edificação da Igreja” (Lumen gentium 12).

Uma das coisas que considero mais frustrantes com respeito à forma como a teologia contemporânea é feita em certos setores atualmente é que Jesus é tão pouco mencionado. Diferentemente, uma das coisas que mais gostei de seu livro é a insistência de o sacerdócio de Jesus estar no centro da vida dos padres. Pode os falar mais sobre essa ênfase?

Jesus Cristo é o centro e o mediador da nossa relação com o Deus trino. É também o nosso fundamento, propósito e objetivo da existência humana, como indivíduos e como comunidade. A Igreja não pode se renovar a menos que paramos de acreditar que nós pobres seres humanos somos a luz e a esperança do mundo. “A luz dos povos é Cristo”; a Igreja será relevante para a nossa vida e a nossa travessia a Deus, nosso criador e redentor, somente se entender que “em Cristo” ela é “como que o sacramento” para a salvação do mundo, sua essência e missão é ser “sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (Lumen gentium 1).

O clericalismo prejudica a missão da Igreja, mas os padres e os bispos devem conduzir o povo a um compromisso e obediência mais profundos a Cristo, a começar com a própria obediência deles à vontade e aos ensinamentos do Senhor. No entanto, como seres humanos frágeis sabemos que sempre necessitamos de arrependimento e penitência. A Igreja, que é o Corpo de Cristo, não pode errar em seu ensino da fé; e Cristo está objetivamente a trabalho nos sacramentos. Sua graça é vitoriosa em Maria, nos apóstolos, nos mártires, nos doutores da Igreja e em todos os santos, conhecidos e desconhecidos. A Igreja, “simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação, exercita continuamente a penitência e a renovação” e “prossegue a sua peregrinação no meio das perseguições do mundo e das consolações de Deus” (Lumen gentium 8).

Finalmente, quais palavras de sabedoria pastoral o senhor tem para as pessoas (talvez também para as famílias que as apoiam) que estão discernindo os chamados ao sacerdócio católico?

Se Jesus o está chamando, querido jovem amigo, pelo seu nome e escolhe você para o ministério em seu Reino, então faça como os apóstolos: vá simplesmente a ele, ele o enviará, e o deixará participar de sua consagração e autoridade messiânica (Marcos 3,13-15). Recentemente, em viagem dos EUA a Roma, li o livro de Harold Burke-Sivers, “Father Augustus Tolton: The Slave who became the First African-American Priest” (Pe. Augustos Tolton: o escravo que se tornou o primeiro padre afro-americano, em tradução livre). Pessoas de dentro e fora da Igreja colocaram inúmeros obstáculos em seu caminho para o sacerdócio: ele foi ridicularizado, insultado, humilhado e sua dignidade humana foi violada. O seu amor por Jesus, entretanto, era maior do que todo o ódio e a estupidez deste mundo.

Quando aparecermos diante do tribunal divino, o que contará não serão as coisas humanas ditas ou escritas sobre nós, mas como Deus pensa de nós, que sozinho conhece o coração das pessoas.

Com as palavras de São Paulo a Timóteo, eu gostaria de dizer a todos os que são chamados ao ministério na vinha do Senhor: “Você, porém, homem de Deus, fuja dessas coisas. Procure a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança, a mansidão. Combata o bom combate da fé (...) Guarde o mandamento puro, de modo irrepreensível, até a Aparição de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Timóteo 6,11-14).

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