Agravam-se as contradições estruturais do projeto neoliberal

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10 Janeiro 2020

"Nas últimas décadas, acentua-se simultaneamente a concentração de renda e a exclusão social. Cresce o fosso abissal entre os donos dos meios de produção e a classe trabalhadora. Boa parte do capital sequer entra no mercado de produção. Navega no cassino virtual, volátil e global do capital financeiro, usufruindo oportunisticamente a força e da fraqueza das economias locais e nacionais", escreve Alfredo J. Gonçalves, padre carlista, assessor das Pastorais Sociais e vice-presidente do SPM. 

Eis o artigo.

O projeto liberal, historicamente nascido das revoluções científica, tecnológica, industrial e política, no século XIX, funda-se no modo de produção capitalista. Desde o berço abriga em seu DNA profundas contradições estruturais. Não é diferente com a versão contemporânea ou neoliberal. Esta acrescenta, nos dias atuais, uma gestão política nacionalista e populista, num viés ideológico de obtuso retrocesso. No contexto de uma polarização extremada entre avanços e recuos, emergem com força redobrada as contradições assinaladas.

A primeira contradição tem a ver com o consumismo desenfreado versus limites naturais do planeta terra. O projeto do “viver bem”, desfrutando hoje, aqui e agora os bens da natureza e a força de trabalho humana, entra em rota de colisão frontal com o projeto do “bem viver”. Este último tem no cuidado com as relações eu-tu e nas relações do ser humano com o meio ambiente seu conceito chave. Daí a preocupação com as desigualdades sociais, crescentes e estridentes, com a preservação de “nossa casa comum” (Papa Francisco) e com as gerações futuras. Em lugar de um exacerbado consumismo que segue os interesses pessoais e/ou corporativos, aponta para uma sociedade social e ecologicamente justa, democrática e solidária. A devastação egoísta e inescrupulosa daquilo que a natureza coloca à disposição é substituída por uma gestão fraterna e responsável dessa dádiva da criação.

Outra contradição expõe a nudez de um crescimento da produção e da produtividade sem o corresponde aumento dos postos de trabalho. Ao contrário, as inovações tecnológicas aplicadas de forma inadequada, condenam enormes fatias da população à errância. Sequer conseguem o “luxo de serem exploradas”, permanecendo à margem do mercado de trabalho ou nele entrando pela porta dos fundos. Nesta globalização econômica que “exclui, descarta e mata” (Francisco), “os condenados da terra” (Frantz Fannon) sofrem a exclusão social ou a “inclusão preserva” (J. Souza Martins). Gigantesco exército de reserva sem raiz e sem rumo, como aves de arribação, que vem batendo às portas e pressionando as fronteiras, na disputa ingrata pelas migalhas raras e parcas que caem da mesa dos milionários e bilionários, estes últimos ao mesmo tempo magros em número e grossos em riqueza e poder.

Depois temos a contradição que faz de trabalhador e consumidor o mesmo sujeito. Os salários são a promessa do consumo e a realização do lucro, motor que faz gerar a roda da exploração capitalista. À medida que o salário é reduzido, a roda gira mais lenta e os ganhos decrescem. Num primeiro momento, o trabalhador é explorado enquanto vendedor de sua força de trabalho; no segundo momento, é explorado enquanto comprador de outros bens produzidos. Ou seja, se e quando reduzido ao extremo, o salário trava o consumo e o giro da roda. As mercadorias se acumulam, diminuindo a acumulação do capital. O ideal seria se o capitalismo pudesse produzir na terra e vender em outro planeta, explorando sem contradição os dois lados da cadeia.

Nas últimas décadas, acentua-se simultaneamente a concentração de renda e a exclusão social. Cresce o fosso abissal entre os donos dos meios de produção e a classe trabalhadora. Boa parte do capital sequer entra no mercado de produção. Navega no cassino virtual, volátil e global do capital financeiro, usufruindo oportunisticamente a força e da fraqueza das economias locais e nacionais. O pico da pirâmide social se fortalece às custas dos extratos que habitam os andares de baixo. Não sendo trabalhador “qualificado e aproveitável” nem consumidor “regular”, o exército de errantes converte-se em uma “turba de párias descartáveis”. Fora do mercado formal de trabalho, mas dentro das engrenagens que lhe moem os ossos e devoram os sonhos.

Conclui-se, enfim, que os investimentos na tecnologia, progresso e crescimento contradizem uma razoável distribuição de renda. Amplia-se, em lugar diminuir, a dicotomia dualista entre crescimento econômico e desenvolvimento integral, para voltar à temática central da carta encíclica Populorum Progressio, publicada por Paulo VI em 1967.

 

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