Para Francisco, início de 2020 deve ser dominado por documentos em vez de ações

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08 Janeiro 2020

Normalmente, quando se olha para o novo ano de um papa, destacam-se as coisas que o papa deverá fazer nos próximos 12 meses – viagens ao exterior, por exemplo, e nomeações de bispos – ou coisas que ele provavelmente dirá, como discursos importantes ou entrevistas marcantes na mídia.

O comentário é de John L. Allen Jr., publicado em Crux, 07-01-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Haverá tudo isso para o Papa Francisco em 2020, mas, pelo menos no início do ano, parece mais provável que as maiores notícias bombásticas sobre o papa virão de coisas que o papa deverá publicar, especialmente dois textos aguardados: as conclusões de Francisco sobre o Sínodo dos Bispos de outubro passado sobre a Amazônia e o relatório do Vaticano sobre o caso do ex-cardeal e ex-padre Theodore McCarrick.

Provavelmente, também deverá estar nessa lista a Praedicate Evangelium, a tão esperada revisão de Francisco da Cúria Romana, embora seja provável que ela não será o “trovão” que os outros dois textos representarão. Muitas de suas principais conclusões já foram tornadas públicas, incluindo o plano do papa de tornar a evangelização e a missão a força motriz do Vaticano.

Tanto as conclusões do Sínodo quanto o relatório sobre McCarrick podem ser divulgados no primeiro trimestre do ano, e ambos provavelmente alimentarão os debates e as polêmicas por algum tempo.

Em uma declaração no fim do Sínodo sobre a Amazônia, as autoridades da Repam, a Rede Eclesial Pan-Amazônica, uma das forças motrizes por trás do encontro, pediram paciência na espera das conclusões de Francisco sobre o encontro que durou um mês, sugerindo que elas poderiam vir em um documento em março.

Sem dúvida, a pepita mais esperada desse documento será o que ele dirá sobre a ordenação dos viri probati, ou homens casados de fé comprovada, ao sacerdócio em algum tipo de base regional limitada. O Sínodo endossou os viri probati como uma solução para a escassez crônica de padres, embora os bispos tenham circunscrito um pouco a ideia dizendo que os homens casados chamados ao sacerdócio devem ser diáconos primeiro.

O debate sobre os padres casados dominou as discussões no Sínodo, irritando Francisco em certa medida, que insistiu que a verdadeira pauta deveria se concentrar em questões sociais, culturais e ecológicas mais amplas (a esse respeito, será interessante ver se o pontífice mais uma vez expressará a sua frustração com o que ele considera como um foco míope em uma questão candente, ao abordar os viri probati em uma nota de rodapé, como ele fez sobre a comunhão a divorciados e católicos recasados civilmente na Amoris laetitia).

O Sínodo também exortou Francisco a reabrir a reflexão sobre as diáconas e a iniciar um estudo para a criação de um “rito amazônico” específico da missa católica para honrar o patrimônio cultural e espiritual dos povos indígenas da região. Independentemente do que o papa dirá sobre esses assuntos – incluindo, aliás, absolutamente nada – alguns estão destinados a ficar menos do que totalmente satisfeitos.

Falando em infelicidade, também é provável que essa será a reação ao relatório do Vaticano sobre McCarrick, quando ele for publicado. Embora ele possa documentar alguns dados sobre altas autoridades tanto em Roma quanto nos EUA que estavam cientes dos rumores e das preocupações sobre McCarrick ao longo dos anos, talvez ele não mostrará nenhuma “arma fumegante” que prove um encobrimento ativo e que forneça uma base para sanções de acordo com a lei da Igreja.

Dito isso, é provável que o documento seja de longe a revelação mais abrangente que o Vaticano já ofereceu sobre as suas decisões e reações em torno de um caso específico e reavivará o debate sobre como deve ser a responsabilização pelo encobrimento de abusos, e não apenas pelo crime.

Além desses momentos decisivos, Francisco deve ter muito mais em sua agenda em 2020, incluindo que ele também vai acumular mais milhas.

Embora nenhuma viagem ao exterior seja oficial por enquanto no calendário do pontífice para 2020, ele disse repetidamente que há dois lugares que deseja visitar este ano: o Sudão do Sul, na companhia do arcebispo Justin Welby, de Canterbury, e o Iraque.

Em ambos os casos, o papa estaria tentando fazer avançar uma agenda de paz e de resolução de conflitos, embora, também em ambos os casos, o seu desejo de viajar possa ser suspenso por questões de segurança.

Também se fala de uma viagem papal à Indonésia, ao Timor-Leste e à Malásia em algum momento de 2020, assim como possíveis visitas à Hungria, para um Congresso Eucarístico, e ao Chipre e ao Líbano, embora essa saída possa ser suspensa dependendo de como as coisas evoluírem diante das atuais tensões entre os EUA e o Irã e da possibilidade de um conflito regional mais amplo.

Em termos de grandes compromissos, três cardeais altamente influentes vão aderir neste ano a uma crescente lista de príncipes da Igreja com mais de 75 anos e, portanto, teoricamente, serão substituídos em seus cargos atuais: Christoph Schönborn, de Viena, Robert Sarah, da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, e Vincent Nichols, de Westminster, no Reino Unido. Embora não haja razão imediata para acreditar que eles irão a algum lugar, trata-se de um lembrete de que Francisco tem a possibilidade de embaralhar as cartas episcopais de um modo significativo neste ano.

De fato, em 2020, dois cardeais completarão 80 anos ainda em atividade: Béchara Boutros Raï, do Líbano, e Lorenzo Baldisseri, da Itália, atualmente chefe do Sínodo dos Bispos. Mais uma vez, Francisco parece inclinado a manter ambos em seus cargos o quanto puderem, mas as mudanças podem ocorrer a qualquer momento.

Nos EUA, Francisco enfrenta escolhas importantes em Atlanta, Filadélfia e St. Louis, que são cargos determinantes para a Igreja em uma determinada região do país.

Finalmente, Francisco também enfrenta uma contagem regressiva em 2020 em relação à sua reforma financeira, pois o Vaticano deverá passar pela sua próxima rodada de revisão por parte da Moneyval, a agência de combate à lavagem de dinheiro do Conselho da Europa e que administra as “white lists” globais de virtude financeira. A agência pode muito bem expressar alerta em relação a vários desdobramentos recentes, incluindo um escândalo envolvendo um negócio imobiliário de 220 milhões de dólares em Londres e a saída de funcionários-chave, especialmente o ex-chefe da Autoridade de Informação Financeira do Vaticano, o renomado advogado suíço e especialista em lavagem de dinheiro René Brülhart.

Francisco ainda goza de uma considerável boa vontade em âmbito internacional, mas os fracassos da reforma até agora para conter a onda de escândalos e revelações embaraçosas, mais cedo ou mais tarde, poderão fazer com que os observadores se perguntem se o papa realmente está preocupado com isso.

Tudo isso sem falar do modo como o Vaticano poderá optar por reagir, mesmo que de forma oblíqua e indireta, ao drama político nos EUA neste ano, ou que papel Francisco e o Vaticano poderão optar por desempenhar se as coisas ficarem violentas no Oriente Médio em meio às atuais tensões entre os EUA e o Irã.

Em outras palavras, 2020 promete ser um ano tumultuado, acidentado e divisivo para o Vaticano – tornando-o, portanto, provavelmente não muito diferente dos seis anos anteriores da era Francisco.

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