O motivo pelo qual o Papa pediu a renúncia do cardeal Sodano

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06 Janeiro 2020

Em 21 de dezembro se encerrou uma era no Vaticano. A era de Sodano. Com um duplo coup de théâtre. De fato, o Papa Francisco anunciou que aceitou a renúncia do cardeal de 92 anos como decano do Colégio cardinalício e reduziu o mandato do cargo para cinco anos renováveis.

A reportagem é publicada por Linkiesta, 25-12-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Uma reforma, esta última, que, disposta com motu proprio, representa uma novidade absoluta pois, desde o início do século XII – ou seja, quando os primeiros decanos são atestados com certeza -, o cargo tem sido vitalício. Os únicos que renunciaram ao longo de nove séculos foram os cardeais Agnelo Rossi (1993) e Bernardin Gantin (2002). Mas pelo simples fato de que, aos 80 anos, eles preferiram, respectivamente, retornar ao Brasil e ao Benin, suas terras natais, encontrando-se, assim, impossibilitados de desempenhar as principais funções de decano do Sagrado Colégio. Como aquela, por exemplo, de convocar um eventual conclave.

Quando, em 22 de abril de 2005, foi escolhido como decano pelos cardeais da ordem dos bispos em substituição a Joseph Ratzinger, eleito papa, Angelo Sodano já tinha 78 anos. Reconfirmado secretário de Estado por Bento XVI (tornando-se o primeiro cardeal, desde 1828, a ocupar simultaneamente tal cargo e o de decano do Colégio cardinalício) e substituído, um ano depois, naquele ministério por Tarcisio Bertone, ele continua desde então morando no Vaticano em um mega apartamento dentro do Colégio Etíope.

E foi precisamente a sua permanência dentro dos muros leoninos que lhe permitiu continuar desempenhando com grande influência a função de decano do Sagrado Colégio até os 92 anos de idade. Nessa condição, após a renúncia de Bento XVI, ele convocou o conclave de 2013. E, embora não fosse eleitor por ter passado dos 80 anos de idade, foi o titereiro do consórcio curial que se opunha à candidatura de Scola e decisivo para a eleição de Jorge Mario Bergoglio como papa.

Estatura imponente e saúde de ferro, mesmo sendo um nonagenário, Sodano saiu de repente de cena no sábado, 21 de dezembro de 2019. Mas aquela que Francisco, durante os votos de Natal à Cúria Romana, apresentou como uma renúncia voluntária do idoso cardeal e como uma oportunidade de limitar a cinco anos a duração do mandato dos futuros decanos, é realmente bastante diferente.

Nos últimos anos, de fato, o nome do todo-poderoso ex-secretário de Estado de João Paulo II e Bento XVI continua sendo objeto de conversas de bastidores. O que está em jogo não é mais apenas, como no passado, sua amizade duradoura e apoio a Pinochet nos anos em que foi núncio apostólico no Chile (1977-1988). Mas estar no centro como nume tutelar de sujeitos indefensáveis, de realidades assombrosas como estão se revelando, mais a cada dia, os abusos contra menores por parte de clérigos. Uma realidade que o próprio Sodano tentou desqualificar publicamente como "fofoca" em 4 de maio de 2010, provocando as reações imediatas de protesto do pupilo de Bento XVI, o cardeal-arcebispo de Viena Christoph Schönborn.

E foi justamente Schönborn, em novembro passado, quem revelou os bastidores dessa história durante uma conferência de 50 minutos na Universidade de Viena. Ele lembrou como Sodano foi o firme defensor do cardeal pedófilo Hans Hermann Groër, que não apenas sempre ficou isento de qualquer sanção canônica, mas, na morte, foi lembrado pelo então secretário de Estado como um fiel servidor da Igreja. E isso, inclusive, em um telegrama em nome de João Paulo II.

O arcebispo de Viena ressaltou como em 2010, durante um encontro com o decano sobre o tema, ele acabou recebendo a seguinte resposta: “O cardeal Sodano disse na minha cara: Vítimas? Isso é o que você diz!”.

Mas, além das revelações de Schönborn, pairam sobre o cardeal também acusações de ter feito promover ao episcopado, durante os anos da nunciatura, três bispos chilenos que encobriram o caso do padre Fernando Karadima, criminoso e pedófilo serial, a quem o Papa Francisco destitui do estado presbiteral em 27 de setembro de 2018.

E também no ano passado o nome de Sodano apareceu repetidamente no dossiê de Viganò. Não apenas por não ter se oposto à nomeação como arcebispo de Washington e a cardeal de Theodore McCarrick, que depois foi privado do título por assédio sexual em seminaristas maiores de idade e reduzido ao estado laico por Francisco em 16 de fevereiro passado. Mas também como protetor e encobridor dos escândalos de Marcial Maciel Degollado, fundador dos Legionários de Cristo, que continuou a defender mesmo depois das condenações da Congregação para a Doutrina da Fé e de sua morte (30 de janeiro de 2008)

Agora, no exato dia da "renúncia" de Sodano, os Legionários de Cristo publicaram os dados de um relatório referente aos abusos cometidos contra menores, em sua congregação, desde 1941 (o ano da fundação por Maciel) até 2019.

O quadro que desponta é assustador: 33 padres dos Legionários são acusados, como abusadores de 175 garotos entre 11 e 16 anos de idade. Destes, 60 foram estuprados por Marcial Maciel.

Por mais de 60 anos, o fundador e alguns de seus religiosos puderam agir imperturbados, graças a uma reputação de total fidelidade à "reta doutrina" e uma enorme riqueza acumulada através de doações. Riqueza utilizada, de acordo com a investigação de Jason Berry e Gerald Renner, também para manter um mecanismo de regalias para homens poderosos da cúria, como os cardeais Angelo Sodano, Stanisław Dziwisz (ex-secretário pessoal de João Paulo II), Eduardo Martínez Somalo e Franc Rodé.

O relatório dos Legionários de Cristo foi divulgado apenas quatro dias após a promulgação bergogliana da Instrução Sobre a confidencialidade das causas, que aboliu o segredo pontifício nos casos de abusos sexuais cometidos por clérigos em menores. E, enquanto naquele mesmo dia Sodano era elegantemente afastado e recebia o título honorário de "decano emérito" de Francisco, finalmente se tenta virar a página. Com uma mudança que, para Bergoglio, com base nas palavras de São John Henry Newman, significa "conversão, isto é, uma transformação interior".

Assim, a bola volta ao centro novamente no tabuleiro de xadrez curial, porque, como o próprio Bergoglio disse: “agora cabe aos cardeais bispos eleger um novo decano; espero que eles escolham alguém que atenda em tempo integral esse importante cargo". Aguardamos para ver.

 

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