A Igreja peruana exalta Gustavo Gutiérrez: “Ensinou-nos a ver a realidade com os olhos dos pobres”

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14 Dezembro 2019

“Ensinou-nos não somente a amar o nosso povo, como também a olhar a partir dele, não somente nos abriu os olhos para ver a realidade, mas também olhá-la com os olhos dos pobres”, afirma Carlos Castillo, arcebispo de Lima, sobre o seu professor, um dos fundadores da Teologia da Libertação, Gustavo Gutiérrez.

A reportagem é publicada por Religión Digital, 12-12-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Nesta quarta-feira a Universidade Ricardo Palma outorgou a distinção de Doutor Honoris Causa ao padre Gustavo Gutiérrez Merino O.P.: “necessitamos conhecer, reconhecer, esta nossa pátria em sua altura e em sua profundidade, em seus caminhos largos e estreitos, em suas possibilidades e becos sem saída. Não esqueçamos que o futuro não chega por conta própria, forja-se com as mãos, a mente e o coração”, disse durante seu discurso.


Premiação a Gustavo Gutiérrez (o segundo da direta para a esquerda) na Universidade Ricardo Palma, no Peru. Foto: Religión Digital

No marco dos 50 anos de sua criação, a Universidade Ricardo Palma outorgou o máximo grau acadêmico ao filósofo e teólogo peruano Gustavo Gutiérrez Merino, O.P., por suas contribuições acadêmicas e sociais a favor dos menos favorecidos de nosso país e da América Latina.

O discurso de ordem do padre Gustavo Gutiérrez Merino, O.P., como flamante membro acadêmico da Universidade Ricardo Palma foi denominado: “Não há nada mais concreto que uma boa teoria”.

“Quero agradecer muito sinceramente ao Reitor, Iván Rodríguez Chávez, pela desmerecida honra que me faz a Universidade Ricardo Palma ao me outorgar um doutorado honoris causa”, comentou no início do seu discurso.

Não há nada mais concreto que uma boa teoria

“Temos em comum o compromisso de fazer com que todos os nascidos nesta terra a reconheçam realmente como sua nação na qual, respeitado os seus direitos, possam viver e se realizar como pessoa – prosseguiu – como a Bíblia diz a cada passo, e dita o sentido comum, não há paz autêntica sem justiça, sem respeito pelos direitos humanos e, claro está, por primeiro deles: o direito à vida. Não estamos frente a um assunto que possa ser dirimido unicamente no campo das políticas aplicadas ou dos fatores econômicos. Na raiz há uma questão ética, de sentido da pessoa humana, do porquê da vida em sociedade”.


Foto: Religión Digital

Não há nada mais concreto que uma boa teoria, parafraseando poderíamos afirmar que no Peru de nossos dias que não há nada mais político (tanto na construção da pólis, da cidade e da nação) que um bom e exigente comportamento ético. As variadas formas de corrupção (o dinheiro fácil, o jogo de influências, a embriaguez do poder, o uso sistemático da mentira) corroem a vida social e a credibilidade dos quais possuem importantes responsabilidades nela”, indicou.

Em outro momento, o padre Gustavo Gutiérrez destacou que “já não é necessário fazer longas viagens para encontrar o ‘Peru profundo’ que falava Basadre, as entranhas da nação – com seu cortejo de fome e marginalização, porém também de possibilidades e de energias – irrompem crescentemente o conjunto do território e chegam a nosso encontro. Hoje o Peru profundo está em todas partes. Lima, a capital que viveu de costas para o país, é hoje a cidade com maior número de quechuhablantes (quem fala quéchua) do Peru. Por outro lado, nos últimos anos assistimos ao crescente protagonismo das populações amazônicas, em defesa de seu território e outros direitos”.

Encontrar os caminhos de uma autêntica democracia

"Aceitar o desafio da criatividade que nos chega da situação traçada, desta terra tocante em termos de conhecimento do país, significa encontrar os caminhos de uma democracia autêntica – continuou o teólogo Gutiérrez – discernir na crise atual, perceber sua profundidade além da conjuntura, e saber como sair dela com imaginação implica libertar-se de um dos piores flagelos que deixam as pessoas doentes e envenenam o relacionamento entre os peruanos. Queremos dizer como pouca vida humana parece valer entre nós.

“Nesse conhecimento, o papel da universidade é insubstituível. Depende de sua qualidade acadêmica, científica e técnica que ele possa cumprir a tarefa de que o país precisa – ressalta Gutiérrez –, precisamos ter universidades abertas a jovens de todas as camadas socioeconômicas do país. Devemos exigir que o Estado, de uma só vez, cumpra sua responsabilidade em um campo decisivo do trabalho nacional”.

O profundo desdém pela condição humana das mulheres

Gustavo Gutiérrez também se referiu à situação das mulheres em nossa sociedade, que apesar de certos “passos positivos”, ainda está em uma “escala de valores que mostra um profundo desdém por sua condição humana, a quem é negada a plenitude de seus direitos como pessoas, para elas encarregam tarefas inferiores na família, no trabalho, na organização social, na Igreja. Mas é claro que esse desprezo é, acima de tudo, uma degradação do homem como ser humano. O entendimento de que as mulheres têm direitos iguais aos homens não são um favor é o reconhecimento de uma equidade necessária”.

Competência profissional, solidariedade na construção de uma sociedade justa são tarefas do ensino universitário. Mas é também para ajudar todos nós a olharmos para longe, para não cairmos em atitudes nostálgicas que nos fixam no passado e não constroem nada, para não nos trancarmos no momento presente, para tomar consciência de nossas energias e possibilidades como povo.

“Devemos fazer com que a luz do conhecimento ilumine nossa caminhada histórica e, paradoxalmente, não acrescente mais obscuridade a um povo pobre que luta bravamente por sua dignidade e sobrevivência – disse ele antes de finalizar –  o grande desafio da juventude é assumir sua tarefa antes os espinhosos problemas do país, dado o sofrimento e as expectativas de muitos de seus habitantes; não trair sua responsabilidade para com o povo a quem ele pertence”.

“Não vamos esquecer que o futuro não chega por conta própria, mas é forjado com mãos, mente e coração”, concluiu.

Olhar com os olhos dos pobres e amar nosso povo

Dom Carlos Castillo, arcebispo de Lima e primaz do Peru, também expressou algumas palavras de agradecimento pelos ensinamentos do padre Gustavo Gutiérrez ao longo de sua vida: “Ensinou-nos não somente a amar o nosso povo, como também a olhar a partir dele, não somente nos abriu os olhos para ver a realidade, mas também olhá-la com os olhos dos pobres”, afirmou.


Foto: Religión Digital

“Como comunidade nos acompanhou e nos inspirou permanentemente com tua palavra baseada na Palavra de Deus e na palavra do pobre, e há algo que nos marcou definitivamente: a firmeza e, ao mesmo tempo, a delicadeza com a qual nos explicava as coisas. A firmeza porque nunca se rendeu diante da injustiça e a delicadeza porque soube nos tratar”, ressaltou.

A Teologia da Libertação é colocarmo-nos na vida dos pobres, caminhar com eles, escutá-los e refletir criticamente sobre a experiência. Uma reflexão, uma ideia que possa acompanhar oportuna e credulamente o povo.

“Hoje que estamos neste país desgarrado que tu nos descreveu, o mais importante é que não apostamos somente pela democracia, mas sim pela expansão da democracia. Essa é a nossa aposta, expandir as possibilidades de entendermos e sararmos as feridas históricas entre nós com lucidez e com profundidade de amor”, comentou o arcebispo de Lima.

“Obrigado Gustavo, a vida que agora te falta é a vida que nos deste”, finalizou.

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