Nacional-catolicismo, um perigo para a Igreja

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13 Dezembro 2019

"Uma Itália soberanista não estará inclinada ao universalismo católico, legado dos papas e do Concílio, em cuja sombra cresceu a Europa unida e tantas visões e ações em relação ao mundo. O nacional-catolicismo será dilacerador para a Igreja. No século XX, os papas foram tenazes em marginalizar o nacionalismo católico".

A opinião é do historiador italiano Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio e ex-ministro italiano, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 11-12-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A entrevista do cardeal Ruini a Aldo Cazzullo agitou as águas um tanto paradas do catolicismo italiano. Especialmente a referência a Salvini: "O diálogo com ele, portanto, parece-me um dever", disse o cardeal, figura histórica nos anos de Wojtyla. De fato, vários membros da Igreja italiana já se encontraram com Salvini, mas a proposta de Ruini salientou a ausência de um debate e de uma reflexão na Igreja sobre a Liga. (Nota de IHU On-Line: Trata-se da 'Lega' partido político italiano, extrema-direita, liderado por Matteo Salvini, ex-ministro do Interior da Itália).

De fato, a Liga não é apenas um fenômeno político, mas também uma realidade que envolve muitos fiéis, tanto que nas últimas eleições foi o partido mais votado pelos católicos. Algo profundo está acontecendo na Igreja: uma parte dos católicos italianos não acolhe a mensagem social do papa Francisco, enquanto busca segurança e se mostra sensível a um catolicismo que dê identidade.

Isso abre questões sérias a serem enfrentadas. O fenômeno não é apenas italiano, mas, para dizer o mínimo, europeu. Em todos os lugares a Igreja é solicitada a olhar mais de perto a nação e a identidade. Em relação à Igreja, apresenta-se um pedido de "nacional-catolicismo", que já opera na Hungria secularizada que proclama a identidade cristã contra Bruxelas e fala em "invasão" de migrantes e muçulmanos. Não apenas no Leste, mas também no Ocidente, os movimentos soberanistas estão atentos aos valores e símbolos cristãos, mesmo sem excessivas identificações.

Hoje, invertendo a história do século XX, a demanda de ideologia vem - para simplificar - da direita. E a Igreja é solicitada a ser uma reserva de legitimação. Trata-se de uma recuperação do catolicismo tradicional? de um protesto contra o papa argentino? O tema da nação (no qual o cardeal Bergoglio trabalhou em seu país) foi tratado por João Paulo II, que formulou uma verdadeira teologia da nação, mas dentro de uma visão comunitária europeia. Em 2004, quis que a Polônia se juntasse à União, apesar da reticência dos bispos poloneses e do fato de que já podia se vislumbrar como não seriam reconhecidas as "raízes cristãs" do continente.

E então, sobre o tema dos migrantes, o magistério de Wojtyla, lendo-o cuidadosamente, parece quase mais forte sobre o acolhimento do que aquele de Bergoglio (embora tenha sido um período diferente). O nacional-catolicismo não é uma reedição da visão de Wojtyla. É algo novo, embora com referências ao antigo, fruto da desorientação global que pressiona pela redefinição antagônica das identidades e sentimentos nacionais. O que surpreende hoje é a falta de reflexão na Igreja sobre esse fenômeno. O problema das orientações da Liga não é apenas político, mas eclesial.

A Igreja de Pio XII, na Itália, que se opunha ao comunismo, fez uma comissão liderada pelo cardeal Lercaro, para estudar a atração dos fiéis pelo PCI. Nada se repete e a realidade é diferente. Hoje, porém, a Igreja parece preferir não enfrentar o problema. Assim, com o tempo, corre-se o risco de que os católicos sigam o compasso dos humores de massa, arquivando definitivamente uma cultura popular compartilhada ou pelo menos diretrizes comuns. O cardeal Bergoglio disse, reportando-se a Wojtyla, que "uma fé que não se torna cultura não é uma verdadeira fé". E nós, modernos - dizia Mircea Eliade - somos destinados a despertar para a vida do espírito através da cultura.

Mas esse é o ponto: caso contrário, avançamos para um catolicismo desculturado. Nem a Igreja pode se transportar, permanecendo tal como está, em uma época soberanista, se os eleitores o desejarem. O clima e as mudanças políticas provocadas por esse período levarão a uma outra Itália, do ponto de vista sociopolítico e antropológico. E essa Itália, embora venha a recorrer a símbolos religiosos, não será favorável à Igreja do povo e da comunidade, criada após o Vaticano II.

Uma Itália soberanista não estará inclinada ao universalismo católico, legado dos papas e do Concílio, em cuja sombra cresceu a Europa unida e tantas visões e ações em relação ao mundo. O nacional-catolicismo será dilacerador para a Igreja. No século XX, os papas foram tenazes em marginalizar o nacionalismo católico.

O verdadeiro problema para a Igreja não é militar contra a Liga, mas dialogar com os medos dos italianos, tentando tirá-los do medo da história. Isso é acompanhado pela passagem do eu (isolado e assustado) para nós, o que significa buscar juntos o sentido de um destino comum. Assim fala o papa Francisco, mas seu discurso não pode ser o de uma cúpula "profética", mas deve ser "lido" na realidade italiana. Isso significa debate na Igreja, extroversão e sinais. Em suma, um cristianismo de relevância histórica. Recentemente, foi publicada uma observação do cardeal Martini: “A primazia deve ser dada aos evangelhos, não aos valores. Apenas partindo da primazia do Evangelho, será possível dizer que também os valores serão arrumados”. Talvez devamos nos perguntar, quase sete anos após a eleição do Papa e seis da Evangelii Gaudium, como o cristianismo italiano comunicou o evangelho ou se, em vez disso, não estaria sofrendo de afonia.

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