Cem anos após da “Maximum illud” de Bento XV

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05 Dezembro 2019

Em 30 de novembro de 1919, no final da Primeira Guerra Mundial, Bento XV publicou a carta apostólica Maximum illud, com a qual ele inaugurava uma nova era da missão "ad gentes" da Igreja. O Papa exortava os missionários a entrar nas peculiaridades culturais dos povos e, acima de tudo, a formar um clero local.

O padre Gabriele Ferrari, missionário e ex-superior geral dos Padres Xaverianos, comenta neste artigo escrito para a revista Testimoni (n. 9/2019), o grande significado daquela carta apostólica e os desenvolvimentos que dela derivaram no entendimento da missão evangelizadora da Igreja até a atual visão do Papa Francisco.

O artigo é publicado por Settimana News, 03-12-2019.

Eis o artigo. 

Em 22 de outubro de 2017, o Papa Francisco anunciou um mês de extraordinária animação missionária por ocasião do centenário da promulgação da carta apostólica Maximum illud, publicada em 30 de novembro de 1919. Com aquela carta, Bento XV quis relançar a responsabilidade missionária do povo de Deus, e fez isso com os termos da teologia da época que ainda não havia aberto um capítulo sobre a missiologia.

Era 1919, e só recentemente havia terminado aquele terrível conflito mundial que Bento XV, sozinho, entre muitos que apoiaram a validade daquela guerra, ousou chamá-lo de "massacre inútil". Naquele novembro de 1919, o papa sentiu a necessidade de relançar a missão no mundo, requalificando-a evangelicamente, para que fosse livre de qualquer incrustação colonial e se mantivesse afastada daqueles objetivos nacionalistas e expansionistas que tantos desastres haviam causado.

Uma Igreja universal não é estrangeira para nenhum povo

Hoje, Francisco repete a palavra de Bento XV, que afirma que "a Igreja é universal, não é estrangeira para nenhum povo" e exorta a recusar na missão qualquer forma de interesse, pois apenas o anúncio e a caridade do Senhor, espalhados com a santidade da vida e com as boas obras, podiam justificar a missão.

Bento XV, com uma linguagem que para nós hoje soa obsoleta, propôs dar um impulso especial à missio ad gentes e, em particular, à criação do clero local e despertar, de maneira especial no clero, o senso de responsabilidade missionária. Aconselhado pelo Beato Paul Manna e com o apoio de autoridade de São Guido Maria Conforti, Bento XV promoveu a União missionária do clero, convencido de que uma melhor consciência missionária dos padres resultaria em uma fermentação geral da consciência missionária no povo cristão.

Ele não se equivocava. As décadas seguintes trouxeram, de fato, um notável avivamento missionário que levou ao Concílio Vaticano II. Francisco sabe que inclusive hoje haveria a necessidade de uma renovação semelhante para retomar o ímpeto de acolher com novo fervor o perene convite de Jesus: "Ide por todo o mundo e proclamais o Evangelho a toda criatura" (Mc 16:15). Obedecer a essa palavra do Senhor não é uma opção facultativa aceita por alguns, que dessa maneira aliviaria a responsabilidade de outros, nem pode ser uma obra boa a ser feita uma vez por ano ... A consciência missionária é uma dimensão perene da vida cristã e eclesial; uma "tarefa imprescindível", conforme oportunamente lembrou o Concílio Vaticano II, que fez evoluir positivamente a doutrina da missão e afirmou que a Igreja é "por sua própria natureza missionária" (Ad gentes 2).

Os pontífices sucessivos

Paulo VI esclareceu ainda que "evangelizar é a graça e a vocação próprias da Igreja, sua identidade mais profunda" (Evangelii nuntiandi 14). Para corresponder a essa identidade e proclamar o evangelho do Senhor crucificado e ressuscitado, rosto da Misericórdia que salva, "é necessário que a Igreja, sempre sob a influência do Espírito de Cristo, deve seguir o mesmo caminho de Cristo: o caminho da pobreza, da obediência, do serviço e da imolação própria até à morte" (Ad gentes 5) e, assim, ofereça ao mundo um "modelo de humanidade renovada, e imbuída de amor fraterno, sinceridade e espírito de paz, à qual todos aspiram" (ibid. 8).

O que Bento XV pedia cem anos atrás e que o decreto conciliar Ad Gentes propôs, agora há mais de cinquenta anos, ainda não foi realizado: "A missão do Cristo Redentor, confiada à Igreja, ainda está longe de ser cumprida". De fato, se olharmos para o mundo, devemos reconhecer que "a missão ainda está no começo" (Redemptoris missio 1). Isso em 1990, quando João Paulo II escrevia a Redemptoris missio.

Francisco mais uma vez chama a atenção de todos para a urgência de continuar essa empreitada, pedindo um "renovado empenho missionário", na convicção de que a missão "renova a Igreja, revigora a fé e a identidade cristã, dá novo entusiasmo e novas motivações" (ibid. 2). Embora hoje devamos reconhecer que em muitos lugares, especialmente no mundo ocidental, a fé parece perder força, a comunidade cristã encontrará inspiração e sustentação graças a um renovado empenho na missão universal.

Francisco, instituindo o mês extraordinário da missão, lembrou que "a causa missionária deve ser a primeira", também porque é o paradigma de toda obra da Igreja. A missão é um empenho que não pode ser adiado: “Tem um significado programático e consequências importantes. Espero que todas as comunidades se esforcem por atuar os meios necessários para avançar no caminho duma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão. Neste momento, não nos serve uma ‘simples administração’. Constituamo-nos em ‘estado permanente de missão’" (Evangelii gaudium 25).

O Papa convida a empreender, com confiança em Deus e coragem, "uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à auto-preservação. A reforma das estruturas, que a conversão pastoral exige, só se pode entender neste sentido: fazer com que todas elas se tornem mais missionárias, que a pastoral ordinária em todas as suas instâncias seja mais comunicativa e aberta, que coloque os agentes pastorais em atitude constante de ‘saída’ e, assim, favoreça a resposta positiva de todos aqueles a quem Jesus oferece a sua amizade. Toda renovação na Igreja há de ter como alvo a missão, para não cair vítima duma espécie de introversão eclesial" (Evangelii gaudium 27).

A coragem de superar fronteiras

A carta apostólica Maximum illud havia exortado os fiéis, com espírito profético e franqueza evangélica, a superar as fronteiras da própria nação para testemunhar a vontade salvífica de Deus na missão universal da Igreja. Esperamos que a celebração do centenário desse importante documento incentive os cristãos de hoje a superar a tentação recorrente da introversão eclesial e de fechamento autorreferencial dentro das próprias fronteiras seguras, e o pessimismo pastoral ou a estéril nostalgia do passado, para se abrir para a novidade alegre do Evangelho.

Também em nossos tempos - escreve Francisco - dilacerados pelas tragédias da guerra e minados pelo desejo "soberanista" de fechar as próprias fronteiras, acentuando as diferenças e de fomentar os confrontos "as Boas Novas que em Jesus o perdão vence o pecado, a vida derrota a morte e o amor vence o medo, sejam levadas a todos com renovado ardor e instilem confiança e esperança".

Buscar caminhos adequados ao nosso tempo

Comemorando o centenário da Maximum illud que, em sua época, deu impulso à missão ad gentes, também pede que se busque com liberdade e parrésia aqueles caminhos missionários mais adequados para o nosso tempo para realizar o desejo de Deus que "deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade" (1 Tim 2: 4). Este centenário e este mês extraordinário nos ajudarão a avançar corajosamente naquela "conversão pastoral e missionária que não pode deixar as coisas como estão" (Evangelii gaudium 25).

Não podemos saber para onde esse caminho nos levará. Certamente nos fará abandonar para sempre certas escolhas típicas dos anos da missão colonial e pós-colonial que, apesar de tudo, persistem aqui e ali. Vamos nos dispor a empreender e percorrer até o fim novos caminhos que o Espírito sugere, superando a preguiça pastoral e o critério fácil de "sempre foi feito assim" (Evangelii gaudium 33.25).

Com o pontificado de Francisco, muitas coisas mudaram. O Papa nos chamou repetidamente para fazer a missão através do testemunho evangélico e não através do proselitismo, porque "os caminhos da missão não passam pelo proselitismo, mas pelo nosso modo de estar com Jesus e com os outros" (assim falou o Papa a sacerdotes e religiosos em Rabat em 31 de março de 2019). Ele repetiu isso vigorosamente aos missionários do PIME em 20 de maio passado: “Existe um perigo que volta à a aflorar, parecia superado, mas está começando a aflorar novamente: confundir evangelização com proselitismo. Não. A evangelização é testemunho de Jesus Cristo, morto e ressuscitado. É Ele quem atrai. É por isso que a Igreja cresce por atração e não por proselitismo, como Bento XVI havia dito. (...) Depois a presença, a presença concreta, por causa da qual te perguntam por que és assim. E então anuncias Jesus Cristo. Não é procurar novos parceiros para esta ‘sociedade católica’, não, é mostrar Jesus".

Hoje, a missão passa por um diálogo inter-religioso, percorre com determinação e perseverança o caminho da inculturação, e aquele - muitas vezes afirmado, mas raramente percorrido - da corajosa escolha dos pobres.

Não é mais possível fingir que nada esteja acontecendo.

Essas atitudes já sugeridas pela Evangelii gaudium modificam profundamente a missão e, junto com a Laudato si', implicam uma mudança de paradigma missionário. As viagens do papa à Turquia, Suécia, Egito, Arábia Saudita e Marrocos no coração do Islã atual mostram âmbitos privilegiados de missão. Não é que o papa tenha mudado a história: ele apenas compreendeu as mudanças na história e está acelerando as respostas da missão à história. Agora não é mais possível fingir que nada esteja acontecendo e permanecer ligado a um passado ... passado!

Esse é o "projeto ousado" (como Guido M. Conforti chamava de sua decisão de fundar nosso Instituto missionário) para o qual devemos nos colocar à disposição: uma missão nova ou, pelo menos, profundamente renovada. Não iremos mais conquistar para Cristo os povos oferecendo a nossa fé e a nossa civilização, mas vivendo a fé e compartilhando-a com aqueles que buscam esperança, o sentido da vida, testemunhando o Evangelho vivido. E quando as portas se abrirem ... estaremos prontos para acolher a fé e introduzir na Igreja aqueles que se sentem chamados a seguir Jesus,

Abandonemos as pretensões de ensinar, fazer e salvar que escondem uma vontade inconsciente de poder alheia ao Evangelho: nós, missionários, somos os primeiros a precisar da graça e da salvação. Vamos viver com generosa dedicação o séquito de Jesus e não nos preocuparmos ansiosamente em recrutar novos missionários, que certamente são necessários: o Senhor da colheita, que se preocupa com a salvação do mundo, os oferecerá na medida em que realmente buscarmos o seu reino.

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