A tentação do muro

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02 Dezembro 2019

“Após a embriaguez inconsequente da pulsão neoliberal que negou qualquer senso de limite, dissolvendo a autoridade simbólico-carismática do pai e com ela qualquer sentimento identitário da fronteira, estamos testemunhando hoje um prepotente retorno do impulso securitário da pulsão que coloca na defesa da fronteira, ou, melhor, da própria fronteira, seu inédito objeto de libido. Mas o muro pode ser apenas uma representação patológica da fronteira, porque nele a fronteira como local poroso (de trânsito e intercâmbio), dá lugar à barreira segregativa, ao porto fechado”, escreve Massimo Recalcati, psicanalista italiano e professor das universidades de Pavia e de Verona, em artigo publicado por la Repubblica, 30-11-2019. A tradução é de Luisa Rabolini

Segundo ele, “afloram novas doenças mentais, especialmente entre as novas gerações, que compartilham as características do retiro, da introversão libidinal, da desconexão dos vínculos, da opção depressiva e da fobia social. Defino essas formas atuais do desconforto contemporâneo como 'novas melancolias'. Trata-se de um sofrimento que tem como característica fundamental o domínio da pulsão securitária sobre aquela erótica, do fechamento sobre a abertura, da defesa sobre a troca”.

Eis o artigo.

A tentação do muro ainda está presente, após a terrível temporada de totalitarismos do século XX, no Ocidente: dos Estados Unidos de Trump à Hungria de Orbán, passando pelo Brexit inglês.

Essa tentação não é apenas política, mas está enraizada nas pulsões primárias do ser humano. De fato, no homem não está apenas o desejo de liberdade, tensão para o aberto, paixão para viagens, nomadismo, errância, mas também, primariamente, paixão pelas raízes, o solo, a fronteira. A necessidade da fronteira e de sua defesa não é uma aberração reacionária, mas conota uma profunda necessidade humana.

Sua declinação patológica mostra-se apenas quando essa necessidade prevalece em um único sentido sobre a dimensão aberta da existência, fechando melancolicamente a vida. Mas basicamente essa tentação permanece "humana demasiado humana”. A sabedoria freudiana não ignora esse paradoxo: estamos dispostos a contrabandear a nossa felicidade em troca da nossa segurança.

É um velho ditado que também encontramos em Spinoza: o humano pode paradoxalmente mostrar que ama mais as correntes que a liberdade. Está em jogo a subversão da definição aristotélica do homem como "animal social".

É o passo inaudito realizado derradeiramente por Freud: existe uma pulsão mais antiga que aquela vital do Eros. A tendência original do humano é de confundir o estrangeiro com o hostil. Isso não é um simples analfabetismo político ou uma barbárie. O ódio, escrevia Freud, é mais antigo que o amor. Sua manifestação primeira é a pulsão securitária. Se o mundo é estrangeiro e hostil, é uma questão de se fechar, para se proteger contra o mundo. É aqui que a pulsão de autoconversação se revela como uma pulsão de morte: quanto mais a vida se retrai e se defende do mundo vivido como um lugar de perturbações ameaçadoras, mais a vida destrói a si mesma, contrai sua tendência ao aberto e à liberdade. Então, no fundo, instala-se aquilo que Umberto Eco definiu de "fascismo eterno", ou seja, a inclinação própria do ser humano para viver o mundo como um lugar de intrusões e contaminações perigosas que devem ser rejeitadas. Nesse caso, o termo fascismo obviamente não conota um período histórico do século XX ou uma determinada ideologia, mas algo que define a orientação primariamente conservadora do desejo humano: defender as próprias fronteiras, levantar barreiras diante do ingovernável, engrossar o próprio escudo protetor. Uma espécie de protecionismo ou soberanismo psíquico que tende a reparar a vida contra a inevitável perturbação da vida. Trata-se de uma pulsão enclausurada que não é de forma alguma desumana, mas reflete uma profunda inclinação do ser humano. É, pelo menos aos meus olhos, uma evidência de que o nosso tempo manifesta a hegemonia clínica e política do paradigma securitário. O símbolo do muro tornou-se protagonista da vida coletiva. A fronteira tende a militarizar-se, a perder sua função de troca e comunicação, para enrijecer-se em uma identidade tipo carapaça.

Após a embriaguez inconsequente da pulsão neoliberal que negou qualquer senso de limite, dissolvendo a autoridade simbólico-carismática do pai e com ela qualquer sentimento identitário da fronteira, estamos testemunhando hoje um prepotente retorno do impulso securitário da pulsão que coloca na defesa da fronteira, ou, melhor, da própria fronteira, seu inédito objeto de libido. Mas o muro pode ser apenas uma representação patológica da fronteira, porque nele a fronteira como local poroso (de trânsito e intercâmbio), dá lugar à barreira segregativa, ao porto fechado.

Está acontecendo tanto na vida coletiva quanto na individual. Afloram novas doenças mentais, especialmente entre as novas gerações, que compartilham as características do retiro, da introversão libidinal, da desconexão dos vínculos, da opção depressiva e da fobia social.

Recentemente, defini essas formas atuais do desconforto contemporâneo como "novas melancolias". Trata-se de um sofrimento que tem como característica fundamental o domínio da pulsão securitária sobre aquela erótica, do fechamento sobre a abertura, da defesa sobre a troca.

Uma melancolia sem sentimento de culpa, sem delírio moral, sem autoflagelação do sujeito sob os golpes de uma lei cruel; uma nova melancolia que avaliza o desejo da vida de sair da vida, de rejeitar a inevitável e necessária contaminação da vida.

 

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