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01 Dezembro 2019

Estudantes universitários e secundários lideram uma luta pela democracia na Nicarágua, apesar das prisões, do exílio e da morte causada pela repressão.

A reportagem é de Julián Navarrete, publicada por Connectas e reproduzida por CPAL Social, 27-11-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Os irmãos Kevin Sergei Pérez, de 24 anos, e Kitzel Alexander Pérez, de 23, pertencem a uma geração de jovens nicaraguenses batizados com nomes russos. O pai de ambos, Alex Pérez, foi militante da Frente Sandinista e nos anos 1980 foram enviados para treinar em Aviación, na extinta União Soviética, onde foram influenciados por essa cultura. Depois, na década de 1990, ele se tornou crítico deste partido.

Kevin e Kitzel se definem como opositores ao governo Daniel Ortega, que foi presidente pela primeira vez entre 1984 e 1990 e retomou o poder novamente desde 2007, prolongando-se no poder. “Quase toda minha família paterna esteve na luta armada da Frente Sandinista. Isso marcou minha forma de pensar porque eles morreram por uma liberdade plena e agora estamos lutando pela mesma liberdade”, disse Kevin Pérez, que igual ao seu irmão foram libertos em 27 de fevereiro de 2019. Durante cinco meses estiveram enclausurados, formando parte dos mais de 770 opositores que foram aprisionados no contexto dos protestos do ano passado no país.

Os jovens na Nicarágua são maioria na população. Segundo dados do Banco Central, somente os que estão nos níveis de idades entre 15 e 24 anos como os irmãos Pérez somam 1,3 milhão, isso é 20% dos nicaraguenses. “Constituem a maioria dos potenciais eleitores nas próximas eleições e são os portadores de uma nova cultura política na Nicarágua, onde se promovem as ações políticas cívicas e pacíficas”, considera a pesquisadora Elvira Cuadra, uma das especialistas que estudou o tema da juventude no país centro-americano.

De acordo com o sociólogo José Luis Rocha, os jovens tiveram um “celebrado protagonismo” na política nacional desde abril de 2018, quando saíram às ruas em milhares para protestar contra o governo. Uma parte foi de universitários, que na Nicarágua são mais de 283 mil, segundo as estatísticas do mesmo Banco Central em 2017. Se ocuparam de forma progressiva quatro universidades, promoveram massivas marchas, se entrincheiraram em barricadas, se agruparam em cinco organizações estudantis e participaram nos diálogos da oposição com o governo, nos quais Ortega e Murillo quiseram convencê-los de que a Polícia se encontrava aquartelada e com ordens de não disparar, quando na realidade os mandaram fazer o contrário.

O mandatário chegou a lhes pedir uma lista dos falecidos até 16 de maio de 2018, quase um mês depois do início das manifestações, quando se deu a primeira sessão televisionada do diálogo. Uma delas, Madelaine Caracas, respondeu ao governante e listou nome a nome as vítimas da repressão, enquanto um coro de vozes juvenis gritava “presente”.

Os rostos de vários daqueles rebeldes, como os líderes universitários Lesther Alemán e Amaya Coppens, um estudante de Comunicação e uma de Medicina, entre outros, são reconhecidos agora na Nicarágua porque são membros de novas organizações opositoras. No nível secundário os estudantes concordam com essas ideias e sua demanda parece ser a mesma que a dos mais velhos: democracia para um país que, depois da ditadura da família Somoza, viu Ortega governar pelo menos 20 anos na presidência, sem incluir a sua influência ativa na oposição entre 1990 e 2006.

“Lutamos pela democracia do país, para que esse regime se renda e diga que está fazendo o mal, e que se dê conta de que matou gente”, explica Bela, de 15 anos de idade, estudante do quarto ano de um colégio privado religioso do país, consultada para essa reportagem e que, por temor das represálias contra ela ou seus pais, pede que não mencione seu nome.

Os interesses que movem os jovens também estão enfocados em temas como respeito ao meio ambiente, feminismo e prevalece sempre o questionamento do abuso de poder. De fato, os milhares de jovens que protestaram contra Ortega iniciaram suas mobilizações pela negligência do governo ante um incêndio em uma das maiores reservas florestais do país, Indio Maíz, e também pela Reforma da Previdência que estabelecia uma redução da aposentadoria dos idosos, ou seja, seus avós.

Daquelas petições iniciais, as demandas evoluíram à exigência de eleições livres e justas, justiça para as vítimas da repressão que deixou 328 pessoas assassinadas e 2 mil feridas, segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Por meio de dez testemunhos, recolhidos para essa reportagem, que abarcam as vozes de jovens com raízes sandinistas, outros apáticos com a política, universitários irritados pela repressão, pode ser feita uma aproximação do que essa geração reivindica: uma mudança política, o que os enfrenta a outro grupo de sua mesma idade que respalda o governo e forma parte da chamada Juventude Sandinista, acusada pelo governo dos Estados Unidos de participar nas violações de direitos humanos.

A insurreição cívica de abril

A geração que se rebelou contra Ortega tem algumas semelhanças com a que protagonizou a revolução contra a ditadura de Somoza nos anos 1950, 60 e 70, segundo a analista nicaraguense Elvira Cuadra. Ambas gerações enfrentaram regimes fortes, acusados de corrupção, com vícios de caudilhismo, falta de independência de poderes do Estado e um claro caminho para a dinastia: a primeira com os filhos de Somoza García, Luis e Anastasio, que foram presidentes; a segunda com a nomeação da primeira-dama Rosario Murillo, em 2017, como vice-presidente do país e sucessora constitucional, enquanto os filhos ocupam postos chaves como assessores de investimentos, chancelaria e a presidência.

Para Cuadra, os jovens foram protagonistas da mudança política na Nicarágua desde algumas décadas. “Os jovens da insurreição de abril de 2018 não são diferentes dos jovens das gerações anteriores”, acrescenta. No entanto, a socióloga esclarece que existe uma diferença importante: os jovens de agora optaram pela ação cívica como método para a mudança política, quando “as gerações anteriores utilizaram as ações bélicas ou armadas para o mesmo propósito”.

O eurodeputado espanhol Javier Nart, que foi um dos estrangeiros que apoiou a guerrilha sandinista contra a ditadura somozista, disse aos meios nicaraguenses, em abril de 2019, que o sandinismo traiu os jovens protagonistas daquela revolução, a segunda no continente depois da cubana. A razão, explica ele, é que seus dirigentes se tornaram em uma nova oligarquia. “Os comandantes se configuraram nos proprietários da Nicarágua, e a militarização do que era um movimento político da liberdade era uma constante. Tampouco se produziram eleições livres. Progressivamente se tornou uma cópia ruim do castrismo”, afirma Nart.

Essas críticas ao sistema político instaurado por Ortega se expressou durante meses, inclusive por alguns familiares dos atuais funcionários do governo. Nas marchas do ano passado, uma mulher que se identificou como Maria Pichardo carregava uma manta que dizia: “Tio Edwin Castro (chefe da bancada sandinista na Assembleia Nacional), aqui está tua sobrinha vândala. Vai mandar me matar? Não sou de direita, sou do povo”. Era uma mensagem em alusão ao adjetivo “vândalos de direita” que usou a vice-presidente Rosario Murillo contra os opositores. Também, em 16 de março deste ano, a Polícia prendeu Sofana Arce, filha do assessor presidencial e comandante guerrilheiro, Bayardo Arce Castaño, por participar de um piquete de protesto em Manágua. O funcionário se manteve leal a Ortega, apesar da visão de seu descendente.

No livro Autoconvocados y conectados, do sociólogo José Luis Rocha, publicado neste ano na Nicarágua e El Salvador, destaca que a proporção de estudantes universitários é maior que a de membros da Polícia Nacional, que foi encarregada da repressão: 4.4 estudantes por cada polícia no país, segundo os dados oficiais. “Esse é o contexto demográfico e do peso relativo que produz pânico no governo de Ortega. Na revolta de abril de 2018, uma porcentagem muito reduzida de universitários dispostos a apostar a vida puderam virar um país tão pequeno como a Nicarágua de cabeça pra baixo”, avalia o especialista.

Camila, de 15 anos de idade, participou de marchas da oposição antes que fossem proibidas em setembro de 2018, disse que sua família pertenceu sempre ao Partido Liberal Constitucionalista (PLC), que antes era um grupo contrário ao governo e agora seu líder, o ex-presidente Arnoldo Alemán, é criticado por ser aliado do mesmo. Ela decidiu se integrar a um movimento estudantil opositor depois que soube que mataram seu amigo, Gerald Vásquez, em um ataque armado de mais de 15 horas contra a Igreja Divina Misericórdia, do residencial Villa Fontana de Manágua, onde se refugiaram dezenas de estudantes que durante meses se entrincheiraram na Universidade Nacional Autônoma de Manágua (UNAM), a maior do país e próxima ao templo católico. “O que queremos é provocar os secundaristas para que se unam à luta, porque consideramos que o maior problema que existe agora é o medo”, defende.

No movimento de Estudantes Autoconvocados do Secundário (EAS), que integram Camila e 50 outros estudantes de Manágua, realizam ciberativismo nas redes sociais, fazem denúncias a organismos internacionais, participam em plantões, piquetes, colam cartazes e balões com as cores da bandeira nacional, azul e branco, e realizam reuniões pelo Zoom e Telegram para falar sobre os temas políticos conjunturais. Se financiam, segundo seus membros, com o dinheiro de seus pais. “Se minha mãe não tivesse dado dinheiro para a passagem de ônibus, não poderia ter vindo a essa entrevista”, conta.

O número de integrantes dessa agrupação estudantil parece modesto, porém até dois anos atrás era raro ver adolescentes como Camila no ativismo político, tal como ocorre agora. A geração Millenial, que abarca os nascidos entre 1980 e 2000, foi descrita como apática com a política nacional por especialistas como a socióloga e jornalista Sofía Montenegro. “Em contraste com a juventude de seus pais, a geração seguinte aparece mais sossegada e ligada ao interior da família, ocupada com estudos e diversão e uma participação limitada a espaços desportivos e religiosos... dizem não estar interessados na política e alguns expressam medo de participar da política”, aponta o estudo publicado pela socióloga em 2016.

A socióloga Elvira Cuadra disse que na realidade antes de abril de 2018 “os jovens aparentemente manifestavam um desinteresse na política, porém ao aprofundar sobre o tema, explicavam que isso se devia a um forte rechaço ou distanciamento das formas e atores tradicionais da política na Nicarágua”.

Charlotte, de 16 anos, era uma estudante de segundo ano do secundário, que não gostava de se meter na política. Foi depois de ver as imagens dos grupos paraestatais disparando contra os opositores ao governo no final de abril de 2018, que decidiu sair às ruas para protestar.

Charlotte saiu em marchas, plantões e terminou, como centenas de estudantes, entrincheirada na UNAM. Esteve lá até 13 de julho de 2018, quando ocorreu o ataque que deixou dois jovens mortos: Gerald Vásquez, amigo de Camila, e Francisco Flores, de apelido El Oso (O Urso), seu amigo: “Eu quero justiça para todos os mortos. Porém sobretudo para El Oso. Quero que paguem por todo o dano que nos fizeram”, disse ela, que denuncia que sofreu também assédio, foi presa e torturada por ser opositora.

O dia que um jovem enfrentou Ortega

Um dos rostos universitários mais conhecidos da Nicarágua, na nova conjuntura, é o de Lesther Alemán. Estudava Comunicação Social, já no quarto ano, aos 20 anos de idade, quando interrompeu o presidente Daniel Ortega durante a primeira sessão do Diálogo Nacional, em maio de 2018. Alemán disse então ao mandatário nicaraguense que se rendesse para que desse lugar a uma mudança democrática no país.

“Muitos dizem que Daniel Ortega o viu como um problema pessoal comigo. Porque toquei no seu ego, o intocável que muitos olhavam. O que fiz foi dizer à Nicarágua que podemos lhe apontar e contrapor em qualquer momento”, disse Alemán ao jornal La Prensa, em outubro de 2019, um mês depois de voltar de um exílio de um ano nos Estados Unidos, devido a um plano de assassiná-lo que, assegura, revelou a embaixada norte-americana na Nicarágua, em julho de 2018.

Alemán desta maneira foi parte dos 80 mil nicaraguenses que, devido à crise política, pediram asilo ou refúgio em distintos países do mundo, segundo a Agência da Organização das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Foi para a Costa Rica, o país onde se concentram 50 mil nicaraguenses exilados depois da crise. 63% destes têm idade entre 16 e 30 anos, segundo um estudo realizado pela Fundación Arias para la Paz y el Progreso Humano, isso é, pertencem à geração que se rebelou contra Ortega.

Amaya Coppens, 25, é outra excelente líder estudantil. Atualmente, ela está presa e acusada de "terrorismo" porque, na sexta-feira, 15 de novembro, pretendia entregar água e comida a 11 mães de presos políticos que entraram em greve de fome pela libertação de seus filhos em uma paróquia em Masaya, cidade localizada a leste de Manágua. Coppens já havia sido libertada em junho deste ano, depois de passar 245 dias na prisão por participar dos protestos em León, onde estudava o quinto ano de medicina. Ele deixou tudo para trás quando viu que membros do movimento estudantil pró-governo espancaram os idosos que se manifestaram contra a redução de suas aposentadorias, que propunham a reforma da Previdência Social proposta pelo executivo.

Coppens é a fundadora do Movimento Universitário em 19 de abril, em León, um dos quais foi organizado nas primeiras semanas de protestos no ano passado. Para Coppens, esse foi um dos maiores desafios que os jovens enfrentaram, porque tiveram que criar essas estruturas do zero. “Tudo aconteceu espontaneamente. Nada foi planejado. As coisas aconteceram e senti a necessidade de denunciar e participar ativamente do que estava acontecendo ”, disse Coppens à La Prensa em 16 de junho de 2019.

Os únicos movimentos juvenis organizados até 2018 foram a União Nacional dos Estudantes (UNEN), cujos líderes se identificam como situação, e a Juventude Sandinista (JS), que faz parte da estrutura do partido no governo. Um dos ex-presidentes desta última organização, Fidel Moreno, próximo a Rosario Murillo e, portanto, secretário político da FSLN em Manágua e secretário do prefeito de Manágua, foi sancionado em julho de 2018 pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos por “dirigir atos de violência cometidos pela Juventude Sandinista e grupos armados pró-governo que foram implicados em numerosos abusos dos direitos humanos. ”

Milton Ruiz, atual coordenador nacional da JS, em 13 de setembro de 2018, durante um bandeiraço dos estudantes atletas, disse à imprensa oficial: “Conseguimos derrotar os ataques do golpe e a prova disso é que estamos aqui, celebrando esta delegação”. Durante outra celebração deste movimento, em 23 de agosto de 2019, um de seus membros, Scarleth Méndez, disse à mídia que a erradicação da ignorância só poderia ser alcançada por um "governo revolucionário" chefiado pelo casal presidencial.

O destino dos membros da JS mais ativos na defesa do governo foi se tornarem funcionários públicos. O executivo tem outros membros dessa organização do partido, como Bosco Castillo, ministro da juventude ou Darling Rios, nomeada em 11 de novembro passado como Procuradora de Direitos Humanos.

Um dos grandes paradoxos da Nicarágua é que, embora sua população seja majoritariamente jovem, ela tem o presidente mais velho da região. Aos 74 anos, Daniel Ortega ultrapassa a média de 55 anos dos outros líderes em duas décadas. Em junho de 2018, os jovens da oposição explicaram o que estava acontecendo no país com uma faixa que dizia “há décadas em que nada acontece e há semanas que passam décadas”.

A 142 quilômetros de Manágua, no bairro Sandino de Jinotega, no norte do país, onde três jovens morreram pela repressão estatal em 24 de julho de 2018, Mirtha Pérez ainda espera que seu filho Leyting Chavarría, assassinado naquele dia aos 16 anos, bata o cadeado na porta da casa de madeira da família. “Leyting sempre me disse que lutaria por sua terra natal e que ele seria um herói se algo acontecesse com ele”, diz a mãe. O assassinato desse adolescente aumentou os dados da Coordenadoria de Infância na Nicarágua (CODENI), que registrou 29 mortes de crianças e adolescentes até os 17 anos em todo o país, nesse período. Em um país que adora seus mortos, com bairros cujos nomes são os mortos na revolução ou com monumentos públicos dedicados a eles, a luta é diária para as famílias de vítimas de repressão que desejam impedir ideias dos jovens mortos morrem com eles, incluindo a demanda por democracia para seu país.

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