O Evangelho de Mateus: uma catequese para os nossos dias

Ícone de São Mateus Evangelista. Fonte: Monastery Icons

28 Novembro 2019

"O evangelista Mateus produz sua catequese para ajudar os irmãos de fé a enfrentar os desafios que provinham tanto do ambiente romano quanto do ambiente judaico. Havia, também, problemas gerados no interior da comunidade cristã, como era o caso do autoritarismo dos líderes, a marginalização das mulheres, das crianças e dos considerados pecadores, o enfraquecimento da fé, inclusive dos líderes. Os problemas surgiam de todos os lados", escreve Jaldemir Vitório, S.J., doutor em Teologia Pública pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro –  PUC-Rio, professor da graduação e pós-graduação da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE e membro da Comissão de Teólogos Jesuítas da América Latina.

Eis o artigo.

A transmissão e o incentivo à vivência da fé em nossas comunidades constituem–se em verdadeiros “nós” da ação evangelizadora. Se, por um lado, o ambiente familiar se torna sempre menos propício para o cultivo da fé e da religião, por outro, as comunidades eclesiais são incapazes de pensar uma pedagogia adequada no âmbito da catequese. A transmissão de doutrinas ou a insistência em conteúdos irrelevantes são ainda práticas catequéticas comuns. Somem-se a isso a catequese oferecida em ambientes que se parecem com salas de aula e a catequese em função dos sacramentos: catequese de batismo, catequese de primeira eucaristia, catequese de crisma, como se a vida de fé se reduzisse a esses momentos eventuais e separados.

Os frutos da catequese pensada nesses termos estão à vista: dificuldade de criar o espírito eclesial-comunitário nos batizados, ausência de ardor missionário, proliferação de práticas devocionais incapazes de gerar uma religião engajada com o projeto de Jesus, abandono da Igreja e das práticas de fé, transformação da liturgia em encontros barulhentos sem qualquer espaço para a interioridade, surgimento de gurus, especialmente os da mídia, como lideranças religiosas. A lista dos malefícios da catequese proposta com pedagogia, didática e conteúdos inadequados pode ser largamente estendida.

A catequese do evangelista Mateus, que será lida nos domingos do Tempo Comum no próximo ano, contém pistas preciosas para nosso fazer-catequético, apesar da distância no tempo e no espaço. Seu lugar de origem foi a comunidade cristã de Antioquia, naquela época, pertencente à Síria, por volta dos anos 80. Essa cidade às margens do Mar Mediterrâneo era a sede do Império Romano no Oriente, de onde se fazia o controle dos povos dominados pelo poder imperial naquela parte do mundo. A convivência com os romanos suscitava uma série de problemas para as comunidades cristãs, de modo especial, no referente ao culto prestado ao imperador, abominado pelos discípulos de Jesus de Nazaré. A mentalidade imperial, centrada na violência, na força das armas e no espírito de grandeza, contrastava-se com o projeto de vida das comunidades cristãs, focado no amor, no perdão e no serviço ao próximo. Praticar a fé em tal contexto pressupunha fazer frente ao gigante imperial, com os riscos inerentes dessa opção. Ser discípulo de Jesus significava optar por uma vida arriscada.

Por outro lado, a comunidade de Mateus passava por sérias dificuldades no trato com as sinagogas dos judeus. Até aquele momento, as comunidades cristãs estavam inseridas no ambiente judaico, consideradas como um movimento a mais dentre as várias correntes do judaísmo. Na catequese de Mateus, o grupo mais referido será o dos escribas e fariseus, apresentados como inimigos de Jesus, sempre à espreita para lhe colocar armadilhas, com a finalidade de pegá-lo em alguma palavra e terem como denunciá-lo seja às autoridades religiosas seja aos romanos, que mantinham os povos do Oriente sob seu domínio.

A comunidade de Mateus sofria forte pressão para abrir mão de sua identidade cristã, correspondente à maneira como Jesus de Nazaré entendia e vivia a fé judaica, para se submeter às imposições das lideranças da sinagoga que, naquela ocasião, tentava fazer uma grande reforma no judaísmo, gravemente golpeado com a destruição do Templo de Jerusalém, no ano 70, pelas tropas romanas.

O evangelista Mateus produz sua catequese para ajudar os irmãos de fé a enfrentar os desafios que provinham tanto do ambiente romano quanto do ambiente judaico. Havia, também, problemas gerados no interior da comunidade cristã, como era o caso do autoritarismo dos líderes, a marginalização das mulheres, das crianças e dos considerados pecadores, o enfraquecimento da fé, inclusive dos líderes. Os problemas surgiam de todos os lados.

Vejamos dez lições que o Evangelho de Mateus nos oferece, quanto à pedagogia catequética nas comunidades cristãs.

 

1. Fazer catequese a partir da vivência da fé


Sermão da Montanha, por Jesus Mafa

A primeira lição ensina-nos a fazer catequese a partir das questões levantadas pela vivência da fé, de modo especial, nos momentos de crise, quando é grande a tentação de abandonar tudo e romper com o projeto Jesus de Nazaré. Em Mt 24, 12, Jesus alerta para o fato que, “pelo crescimento da iniquidade, o amor de muitos esfriará. Aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo”. O catequista Mateus não está interessado em ensinar os irmãos de comunidade a interpretar a Lei de Moisés, como faziam os escribas e fariseus, e, sim, uma sabedoria de vida que os permitisse caminhar com sentido, embora perseguidos. Só assim poderiam viver a bem-aventurança da perseguição, sem se deixarem abalar. São para eles estas palavras de Jesus: “Felizes sois, quando vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e regozijai-vos, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois foi assim que perseguiram os profetas, que vieram antes de vós” (Mt 5,11-12). A fidelidade ao projeto de vida abraçado por causa de Jesus os tornaria como uma casa construída sobre a rocha. “Caiu a chuva, vieram as enxurradas, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, mas ela não caiu, porque estava alicerçada na rocha” (Mt 7,25).

 

2. Transmitir a fé, narrando a vida de Jesus de Nazaré


Arte: Aurélio Fred | Ateliê 15

Uma segunda lição a ser aprendida com o catequista Mateus consiste em transmitir a fé narrando a vida de Jesus de Nazaré. Sua catequese é construída a partir daquilo que a comunidade conservou e transmitiu da vida e do testemunho do Mestre. Diferentemente dos escribas que tomavam como base a Lei e se punham a interpretá-la, Mateus, possivelmente um escriba que se tornou “discípulo do Reino dos Céus” (Mt 13,52) parte de uma pessoa. O formato dos evangelhos permite seguir o itinerário de Jesus, desde o nascimento até a morte e ressurreição, e fazer dele o catequista do leitor – ouvinte e da comunidade, por meio de suas palavras e suas ações. A contemplação e a escuta do Mestre, quando feitas com sinceridade de coração, têm a força de penetrar no coração da pessoa de fé e transformá-la desde o mais íntimo. Essa pedagogia catequética exige engajamento de quem faz o percurso da fé, tirando-o da passividade de quem escuta lições de doutrina, com a finalidade de aceitá-la, mesmo sem compreendê-la, como exigência das igrejas. Santo Inácio de Loyola fala de “conhecimento interno de Jesus Cristo”, que podemos contrapor ao conhecimento externo e superficial ou ao conhecimento puramente racional. Quem conhece Jesus Cristo internamente, deixa-se moldar por ele, ao escutar seu convite: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29).

 

3. Insistir na centralidade do Reino de Deus


Imagem: CEBs México

A terceira lição que aprendemos de Mateus diz respeito à centralidade do Reino de Deus na catequese. O imperativo “Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e sua justiça” (Mt 6,33) corresponde à baliza da vida do discípulo. A expressão Reino de Deus significa o senhorio de Deus na vida das pessoas e da sociedade. Onde o Reinado de Deus acontece não existe espaço para o egoísmo, a violência, as divisões e tantas outras formas de destruição da “imagem e semelhança de Deus” que cada ser humano traz consigo. O Reinado de Deus afasta para longe todo tipo de idolatria, onde as criaturas ocupam o lugar do Criador e impõem sua tirania, de modo especial sobre os mais fragilizados da sociedade. Assim acontece com o ídolo do dinheiro, do poder, do saber, do narcisismo e tantas outras maneiras de afastar Deus do coração humano. A busca continuada do Reino de Deus permite à pessoa de fé conhecer a vontade de Deus e, como Jesus nos ensina a rezar, lutar para que ela “aconteça assim na terra como no céu” (Mt 6,10), ou seja, sempre e em toda parte. Torna-se inútil a catequese cujo efeito primeiro e fundamental não seja o centramento da vida do catequizando no querer divino, conhecido e assimilado, como aconteceu com Jesus de Nazaré, a quem o próprio Deus reconhece como “o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3,17; 17,5). Quem abraça o Reino de Deus e se deixa guiar pela justiça do Reino, como Jesus, torna–se também Filho amado, pela obediência e docilidade ao querer do Pai e seu projeto de amor misericordioso para a humanidade.

 

4. Mostrar como o Espírito Santo está presente e age em nossa vida de fé


Arte: Aurélio Fred | Ateliê 15

A quarta lição da catequese de Mateus diz respeito à presença do Espírito Santo em nossa vida de fé. O Espírito de Deus está na origem da existência de Jesus de Nazaré, “gerado do Espírito Santo”, como diz o anjo do Senhor em Mt 1,20. Portanto, no DNA de Jesus estão a santidade e o dinamismo divinos, que o moverão a agir em conformidade com o querer do Pai, até a morte de cruz. Trata-se de espírito de ação, de entrega da própria vida ao serviço da misericórdia e à prática do bem. O Espírito de Deus aparecerá por ocasião do batismo, “descendo como uma pomba” (Mt 3,16), recordando o espírito (ruah) de Gn 1,1, como se naquele momento acontecesse em Jesus a criação ansiada por Deus, desde o começo dos tempos. Como nova criatura, Jesus foi investido pelo Pai nas tarefas do Reino. O Espírito aparece levando Jesus “ao deserto para ser tentado pelo diabo” (Mt 4,1), e lhe dá força para enfrentar a tentação da infidelidade ao querer do Pai e se manter firme até a morte de cruz. Quando no final da catequese, Jesus envia os discípulos em missão, manda-os batizar “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19), sublinhando que a vida dos discípulos do Reino, como a caminhada do Mestre, haveria de ser dinamizada pelo Espírito de Deus. Por isso, quando estivessem em missão, nos momentos de apuros, deveriam manter-se seguros “porque não sereis vós que falareis, mas o Espírito de vosso Pai é que falará em vós” (Mt 10,20). Essa teologia missionária-apostólica do Espírito Santo deveria ser retomada em nossa catequese, haja vista uma espécie de pentecostalismo selvagem que se alastrou em nossas igrejas, sem qualquer conexão com a catequese cristã original.

 

5. Formar discípulos e discípulas, instruídos pelo Mestre Jesus, que é “manso e humilde de coração”


Imagem: Pexels

A quinta lição da catequese de Mateus diz respeito à formação dos discípulos do Reino. Afinal essa foi a meta visada pelo evangelista, quando se dispôs a produzir seu evangelho. Ou seja, seu interesse não consistiu em recuperar a história de Jesus de Nazaré, pura e simplesmente. Antes, ao falar do Mestre, seu olhar se voltava para os irmãos e irmãs de comunidade, desafiados por todos os lados, em sua condição de seguidores de Jesus. O Jesus Mestre de Mateus torna-se, ele mesmo, o catequista da comunidade, para a qual propõe um projeto de vida, como é o caso do Sermão da Montanha (Mt 5–7), traça um projeto missionário (Mt 10), dá as chaves para compreender como o Reino de Deus acontece na história, chamado de “mistérios do Reino” (Mt 13), indica como deve ser a vida em comunidade (Mt 18) e, por fim, ensina como se deve viver no presente, à espera da plenificação do Reino (Mt 24-25). Esses são os cinco grandes discursos da catequese de Mateus, nos quais Jesus instrui a comunidade com seus ensinamentos. Os gestos do Mestre, por sua vez, completam os ensinamentos das palavras. Cada um de seus atos, em favor dos pequenos e marginalizados, torna-se lição de vida para os discípulos. Ao contemplá-los, o discípulo do Reino defronta-se com o desafio de assimilar um modo de proceder, que será seu distintivo no trato com todas as pessoas, sem distinção, que cruzarem seu caminho.

Na formação do discipulado, Mateus insiste em que o discípulo do Reino deve ter como meta a perfeição do Pai – “Sede perfeitos, como o Pai dos céus é perfeito” (Mt 5,48) –, no sentido de se espelhar no modo de proceder de Deus, no trato com os semelhantes. Desta forma, a “justiça” do discípulo será superior à dos escribas e fariseus (Mt 5,20), pois terá como foco a misericórdia do Pai, que “quer misericórdia e não sacrifício”. Está citação do profeta Oséias 6,6 acontece duas vezes no evangelho de Mateus (Mt 9,12; 12,7), para reforçar que tudo quanto o discípulo do Reino faz deve ser motivado pela misericórdia, seguindo os passos de Jesus de Nazaré.

Mateus insiste com os irmãos e irmãs de comunidade a não seguirem o exemplo dos escribas e fariseus que, em seu tempo, apresentavam-se como modelo de pessoas religiosas. Nesse movimento, havia pessoas exibicionistas que, quando davam esmolas, tocavam trombetas em público, “com o propósito de serem elogiados pelos homens” (Mt 6,2); rezavam “em pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos homens” (Mt 6,5); desfiguravam o rosto quando jejuavam “para serem percebidos pelos homens” (Mt 6,16). No evangelho, muitas vezes, Jesus chama essa gente de “hipócritas”. Mt 23 concentra uma série de “aí de vós, escribas e fariseus hipócritas”, para denunciar atitudes que podem acontecer em qualquer comunidade cristã, inclusive hoje. De fato, o evangelista está preocupado com os cristãos hipócritas de sua comunidade que falam uma coisa e vivem outra. Daí ter mostrado o Mestre Jesus censurando esse desvio de conduta. O modo de proceder do discípulo tem como padrão o modo de proceder de Jesus que, em tudo, foi obediente e submisso ao querer do Pai dos Céus.

 

6. Ensinar a valorizar o cotidiano, onde a salvação acontece nos pequenos gestos de misericórdia

A sexta lição para nós diz respeito à valorização do cotidiano. Na comunidade de Mateus havia gente preocupada em conhecer o momento preciso do fim do mundo (Mt 24,3). Esse tipo de preocupação leva as pessoas se concentrarem no futuro e se esquecerem do presente. Cada vez que alguém “prevê” o fim do mundo, tem gente que fica angustiada e se deixa seduzir por líderes religiosos fanáticos, com suas propostas estapafúrdias. Na catequese de Mateus, os discípulos do Reino são ensinados e perceber a presença de Jesus Ressuscitado, mesmo nas pequenas ações. Por isso, quando alguém dá de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede, acolhe os peregrinos, oferece roupa a quem está nu, visita os doentes e prisioneiros está sendo misericordioso com o próprio Jesus. Por isso, no final de sua caminhada, ouvirá as palavras de acolhida: “Vinde, benditos do meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo” (Mt 25,34). Um elemento chama a atenção nas palavras de Jesus: “Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25,40). A salvação acontece no cotidiano, de modo muito especial, quando o discípulo do Reino se mostra sensível ao sofrimento dos irmãos e das irmãs sem reconhecimento social e religioso. Os pequenos passos do dia a dia vão se direcionando para Deus, autor da nossa salvação.

Quem opta pelo egoísmo e pela insensibilidade no trato com os irmãos e irmãs “mais pequeninos” afasta-se cada vez mais da salvação. Resultará daí a infeliz experiência de escutar do Senhor do Reino as terríveis palavras: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos” (Mt 25, 41). A certeza de estar no caminho da salvação, talvez, pela fidelidade à Lei de Moisés e às práticas cultuais, se mostrará enganosa, quando o discípulo passar pelo crivo da misericórdia. Vale a pena ler Mt 7,21-23 – “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino dos Céus, mas sim, aquele que pratica a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos e em teu nome que expulsamos demônios e em teu nome que fizemos muitos milagres? Então, sem rodeios, eu lhes direi: ‘Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade’”.

Esse ensinamento da catequese de Mateus desmascara aquelas pessoas que se consideram muito religiosas, por praticarem uma religião moralista, legalista e excludente, serem fidelíssimas às normas das igrejas, porém, despreocupados com a misericórdia e o cuidado com o semelhante (Mt 23,23). As palavras de Jesus, na catequese de Mateus, devem servir de alerta para quem investe num tipo de religião vazia, sem força de salvação, a religião dos escribas e fariseus hipócritas de todos os tempos.

 

7. Motivar a prática da fraternidade, do perdão e da acolhida ao interno da comunidade de fé, a igreja dos discípulos e discípulas do Reino


Foto: Vatican News

A sétima lição que Mateus nos oferece toca o tema da vida em comunidade, em outras palavras, nosso modo de ser Igreja. Vou me deter apenas num aspecto: a questão das lideranças das comunidades cristãs. O princípio das relações na comunidade está formulado em Mt 23,8-12: “Não permitais que vos chamem de ‘Rabi’, pois um só é o vosso Mestre e todos vós sois irmãos. A ninguém na terra chameis ‘Pai’, pois um só é o vosso Pai, o Pai dos céus. Nem permitais que vos chamem ‘Guias’, pois um só é o vosso guia, Cristo. Antes, o maior dentre vós será aquele que vos serve. Aquele que se exaltar será humilhado, e aquele que se humilhar será exaltado”.

A declaração “Vós sois irmãos” coloca todos os membros da comunidade em pé de igualdade, sem hierarquias nem classes. O batismo iguala todos os discípulos e discípulas do Reino. Na igreja do Reino, não existem maiores e menores em dignidade. Existe sim distinção de ministérios, de serviços. Porém, em nome do ministério, ninguém tem o direito de se considerar superior aos irmãos. Falando fora da catequese de Mateus, podemos dizer que o sacramento da ordem não pode ser considerado superior ao sacramento do batismo; e os padres e bispos não podem se considerar superiores aos demais batizados e, sim, servidores das comunidades dos discípulos do Reino, a Igreja.

Em Mt 18, Jesus ordena: “Não desprezeis nenhum desses pequeninos” (v. 10), pois “não é da vontade de vosso Pai, que está nos céus, que um destes pequeninos se perca” (v. 14). Portanto, todos devem ser valorizados na comunidade. Quem cair na tentação de maltratar os membros mais frágeis da comunidade, estará agindo na contramão do Mestre Jesus. A atitude correta consistirá em incentivá-los a perseverar na caminhada de fé, cuidando para que não desanimem. Se, por acaso, fraquejarem, a comunidade com seus líderes deve estar disposta a perdoar o faltoso “até setenta vezes sete vezes” (v. 22), ou seja, sempre.

Para evitar que algum membro desviado caia nas mãos de líderes autoritários, Jesus aponta um expediente no qual a comunidade conduz o processo, sem depender do ponto de vista dos líderes (Mt 18,15-20). O primeiro passo consiste em alguém conversar com o irmão faltoso em particular. Se esse primeiro passo não surtir efeito, então, será abordado por mais uma ou duas pessoas, conjuntamente. Se o segundo passo também se mostrar ineficaz, então, toda a comunidade se reunirá, em oração, para se perguntar: o que o Pai dos Céus quer que façamos com esse irmão transviado? A comunidade em discernimento deverá estar consciente de ter Jesus em seu meio, pois ele mesmo garantiu: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles” (v. 20). Ou seja, trata-se de fazer a vontade do Pai dos Céus e a não dos líderes. A função desses consiste em ajudar a comunidade a ser o máximo fiel à vontade de Deus, que deve ser realizada “assim na terra como no céu” (Mt 6,10), porém, sem impor suas ideias.

 

8. Criar uma visão aberta de humanidade, superando a atitude de seita, gueto e “panelinha”


Foto: Ricardo Machado

A oitava lição que nos oferece a catequese de Mateus refere-se à visão aberta de humanidade, superando a mentalidade sectária, de guetos, de panelinhas, tão cultivada por muitos que se dizem cristãos. Esse tema abre e fecha a catequese de Mateus. A isso os estudiosos de Mateus chamam de inclusão. A inclusão serve de moldura para a mensagem e se torna uma pista para interpretá-la. Nesse caso, significa que só terá entendido a catequese quem tiver a mente e o coração abertos para compreender o amor do Pai dos céus abarcando a humanidade inteira, sem qualquer discriminação, pois todos os seres humanos são filhos e filhas, para além da classificação de “maus e bons”. Por isso, “o Pai que está nos céus, faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5,45).

Na abertura da catequese de Mateus, encontramos a figura dos “magos do Oriente” vindos a Jerusalém em busca do recém-nascido, rei dos judeus, guiados por uma estrela, com o propósito de adorá-lo (Mt 2,1-2). Em meio a muitas peripécias, afinal, chegam ao destino: “Ao entrar na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o adoraram. Em seguida, abriram seus cofres, e ofereceram-lhes presentes: ouro, incenso e mirra” (Mt 2,11). É o que acontece com muitas pessoas de boa-vontade que, ao se colocarem em busca da salvação, se defrontam com a pobreza e a simplicidade do Messias Jesus, que tem consciência de ser o Filho de Deus.

Na conclusão da catequese, temos dois episódios interessantes. O primeiro diz respeito à reação do oficial romano e seus subordinados, em face da ressurreição de Jesus. A primeira confissão de fé – “De fato, este era filho de Deus!” (Mt 27,54) – brota da boca de um não-judeu, ou seja, um pagão. O segundo refere-se ao envio missionário, os discípulos recebem a missão de fazer outros discípulos “em todas as nações” (Mt 28,19). Nenhum povo, cultura, grupo tem privilégio no tocante ao anúncio do Reino. Jesus estende a fraternidade do Reino a toda a humanidade. Se os membros da comunidade são “todos irmãos e irmãs”, como está dito em Mt 23,8, também se pode dizer da humanidade em seu conjunto: todos os seres humanos são irmãos e irmãs. O discípulo do Reino jamais deixará que a xenofobia (ódio aos estrangeiros) tome conta do seu coração, pois tem um coração ecumênico e aberto ao diálogo com todas as religiões e culturas.

Para inculcar essa consciência em seus irmãos de comunidade, o catequisa Mateus recuperou uma cena no ministério de Jesus de Nazaré. Certa vez, ele foi procurado por um oficial romano que lhe pedia a cura de seu empregado paralítico. Em face da disposição do Mestre de atender o pedido, indo curar o enfermo, o pagão faz uma comovente profissão de fé: “Senhor, não sou digno de receber-te sob o meu teto; basta que digas uma palavra e o meu criado ficará são” (Mt 8,8). Essas palavras tocaram no fundo do coração de Jesus e o moveu a declarar: “Em verdade vos digo que, em Israel, não achei ninguém que tivesse tal fé!” (Mt 8,10). Como Jesus, os discípulos do Reino são convidados a perceber a presença da fé para além dos limites de suas igrejas, grupos ou movimentos. Talvez, os de fora vivam a fé com mais verdade que os de dentro, ao praticarem a misericórdia em favor dos irmãos, à margem das práticas religiosas vazias, quando não estridentes e espalhafatosas, bem ao gosto dos escribas e fariseus denunciados na catequese evangélica.

Esse tipo de religião desfocada foi denunciado com a parábola dos vinhateiros homicidas, contada por Jesus para os sumos sacerdotes e os fariseus, em plena Cidade Santa, Jerusalém, onde a liderança religiosa se sentia em casa, como se fosse proprietária de Deus. Jesus conclui a parábola com uma afirmação que tirava o tapete de debaixo dos pés de seus acusadores: “Eu vos afirmo que o Reino de Deus vos será tirado e confiado a um povo que produza seus frutos” (Mt 21,43). Os “cabritos” colocados à esquerda do Filho do Homem ficarão chocados quando virem as “ovelhas” sendo acolhidas festivamente no Reino (Mt 25,31-46). Quanta frustração haverá para quem fecha a porta do Reino a quem não pertence a seu grupinho, povo, igreja, movimento... Não pertence à sua “seita”!

O espírito “católico” do projeto de Jesus de Nazaré não se limita a uma Igreja em particular. Toda comunidade que pretenda ser herdeira do espírito de Jesus e se coloca em seus passos deverá abrir-se para acolher a humanidade que se encarna em todos os seres humanos, sem qualquer exceção.

 

9. Ensinar a arte do discernimento cristão dos “sinais dos tempos”, para não se deixar enganar pelos falsos messias e falsos profetas, anunciadores do fim do mundo


Imagem: Cartaz Campanha da Fraternidade 2016

A nona lição abre-nos para o tema do discernimento dos sinais dos tempos, que permite aos discípulos do Reino caminharem com segurança, em meio aos muitos percalços da vida e da história. Em Mt 24–25, chamado Discurso Escatológico, Jesus faz um alerta contra “os falsos messias e os falsos profetas” (Mt 24,23) e seus discursos enganadores, à revelia de Deus. A sensatez exige “vigilância”, “porque o Filho do Homem virá numa hora que não pensais” (Mt 24,44) e o discípulo do Reino corre o risco de ser pego de surpresa.

A metáfora do ladrão serve de chave de leitura para a realidade do discípulo do Reino, no seu cotidiano. “Se o dono da casa soubesse em que vigília da noite viria o ladrão, vigiaria e não permitiria que a sua casa fosse arrombada” (Mt 24,43). Igualmente, a imagem do “servo fiel e prudente que o senhor constituiu sobre sua criadagem, para dar-lhe o alimento em tempo oportuno”. Esse servo cumpre sua tarefa e está pronto a prestar contas a seu senhor a qualquer momento em que chegar, mesmo de improviso. Já o servo mau, desconhecendo quando seu senhor voltaria, “começa a espancar os seus companheiros, a comer e beber em companhia dos bebedores”, será punido severamente, com “a sorte dos hipócritas” (Mt 24,45-50). Outra imagem é a das dez virgens, metade insensatas e metade prudentes, à espera da chegada do noivo. Quem não contou com a possibilidade de o noivo chegar muito tarde e, por isso, deixou de providenciar óleo de reserva, ficará fora da festa (Mt 25,1-12).

A advertência do Mestre dispensa explicações: “Vigiai, porque não sabeis nem o dia nem a hora” (Mt 25,13). A virtude da vigilância, fruto do discernimento continuado, exige engajamento na construção do mundo querido por Deus – o Reinado de Deus – pelo viés da caridade, da misericórdia e do cuidado com os pequeninos e fragilizados de nosso mundo. O papa Francisco, um grande discípulo de Jesus de Nazaré, alarga o horizonte da misericórdia e do cuidado para inserir nele a Casa Comum, como componente obrigatório do modo de proceder dos discípulos do Reino. Quando o Senhor vier, deverá louvar nossa atenção com a sustentabilidade da criação preparada pelo Pai dos céus para seus filhos e filhas.

 

10. Insistir com a comunidade para ser Igreja em saída, para anunciar a Boa-Nova até os confins do mundo, a todos os povos, consciente da presença do Ressuscitado

A décima lição aprendida do catequista Mateus tem muito a ver com um tema caro ao papa Francisco: fazer-nos ser Igreja em saída. O evangelista conclui sua catequese com a cena do Ressuscitado reunido com os discípulos em um monte na Galileia. É o momento em que ouvirão o imperativo que ressoa nos ouvidos e nos corações dos apóstolos: “Ide”. No capítulo 10, conhecido como Discurso Missionário, lemos que Jesus “chamou os doze discípulos, deu-lhes autoridade de expulsar os espíritos imundos e de curar toda a sorte de males e enfermidades [...] Esses Doze enviou Jesus com estas recomendações. [...]” (Mt 10,1.5). Diferentemente do que acontece em Marcos e Lucas, onde os discípulos são enviados, cumprem a missão e voltam para prestar contas ao Mestre, em Mateus a execução do mandato missionário só acontecerá no final do evangelho. Aí, sim, os apóstolos são enviados com a tarefa de “fazer com que todas as nações se tornem discípulos” (Mt 28,19). Ninguém pode ser excluído. Os apóstolos devem proclamar o evangelho, “até a consumação dos séculos” (Mt 28,20), seguros de terem consigo o Senhor que prometeu estar com eles todos os dias.

Essa missão não tem volta, pois não será mais necessário retornar e prestar contas ao Mestre da tarefa realizada. Afinal, os discípulos-missionários são acompanhados pelo Senhor que os enviou.

 

A conclusão da catequese de Mateus alerta-nos para nossa vocação de estar sempre a caminho, em vista de trilhar todas as veredas e atalhos do mundo, onde se encontra a humanidade carente da Palavra da Salvação, que chegou até nós pela mediação de Jesus de Nazaré. Supõe-se do discípulo-missionário uma fé adulta, livre das amarras do moralismo dos líderes das igrejas, capaz de enfrentar os desafios da missão, na certeza de ter consigo o mesmo Espírito que acompanhou o missionário Jesus de Nazaré. Com ele, será capaz de viver as bem-aventuranças sem se deixar abater. E, com o seu testemunho de vida, nos passos do Mestre, será um sinal do Reino de Deus, acontecendo entre nós.

Os rumos tomados pela catequese em nossas Igrejas, ao longo dos séculos, exigem que se volte às fontes da catequese cristã, centrada na formação de discípulos–missionários. A catequese preocupada em preparar a recepção de sacramentos, pela transmissão de dogmas e doutrinas, mostrou-se ineficaz quando se trata de levar adiante a missão inaugurada pelo Mestre de Nazaré.

O Evangelho de Mateus, catequese narrativa voltada ao discipulado do Reino, contém em suas entrelinhas pistas preciosas para a tarefa catequética das comunidades cristãs de todos os tempos. Sua leitura atenta pode servir de inspiração para os catequistas de hoje, que se dispõem a crescer enquanto discípulos-missionários e, nos passos de Jesus de Nazaré, anunciar o Reino de Deus a todas as gentes, até a consumação dos tempos (Mt 28,16-20).

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