Assembleia dos bispos dos EUA revela divisão sobre como influenciar o debate político

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16 Novembro 2019

Após décadas de um rosto público que enfatizava o aborto, o casamento gay e a liberdade religiosa, o órgão que reúne os bispos católicos dos EUA ainda está debatendo sobre como defender outras questões sociais e morais importantes.

A reportagem é de Heidi Schlumpf, publicada em National Catholic Reporter, 15-11-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A discussão mais intensa durante a reunião dos dias 11 a 13 de novembro da Conferência dos Bispos dos EUA girou em torno de saber se a oposição ao aborto é ou não uma questão “proeminente”.

Essa discussão envolveu uma carta para acompanhar o relançamento de um documento de 12 anos, Forming Consciences for Faithful Citizenship [Formando consciências para uma cidadania fiel], que não foi significativamente atualizado desde as eleições do Papa Francisco e do presidente Donald Trump.

A falta de uma declaração mais atual sobre a realidade política de hoje “não está lendo os ‘sinais dos tempos’, como o Concílio Vaticano II nos instruiu a fazer. Isso está ficando parado no tempo”, disse John Gehring, diretor do Faith in Public Life, com sede em Washington, uma think tank progressista e de defesa de direitos.

Gehring vê o debate dos bispos sobre a priorização do aborto como algo emblemático de uma luta mais profunda sobre até onde se deve adotar a visão de Francisco para a Igreja, com uma clara maioria dos bispos dos EUA ainda demorando a responder àquele que ele chama de “momento Francisco”.

“Já estamos há seis anos no papado de Francisco, e os bispos, como órgão, ainda estão se arrastando quando se trata de institucionalizar as prioridades do papa”, disse Gehring. No entanto, ele observou algumas “rachaduras nas fundações”, pois mais bispos amigos de Francisco estão ganhando alguma influência na Conferência.

Mas ele alertou que os bispos precisam navegar e se comunicar melhor em um sistema político dividido, “se não quiserem ser descartados simplesmente como um apêndice de um partido político”.

Embora grande parte da reunião plenária dos bispos tenha se concentrado nos assuntos internos da Igreja, como as traduções litúrgicas, a formação sacerdotal e a necessidade de atrair e reter católicos mais jovens, ela também incluiu algumas discussões e relatórios sobre questões politicamente relevantes, incluindo a imigração, o racismo e a violência armada.

A Comissão de Atividades Pró-Vida dos bispos fez uma apresentação visivelmente centrada na mulher, pedindo um programa de um ano de duração em que paróquias e dioceses ofereçam apoio a mulheres grávidas que pensam em levar sua gravidez até o fim. Chamado “Walking with Moms in Need” [Caminhando com mães necessitadas], o programa começaria em março.

Os bispos também aprovaram o início do desenvolvimento de uma declaração formal e de uma visão abrangente para o ministério hispânico-latino em resposta ao processo sinodal do V Encuentro. E elegeram o primeiro latino como presidente da Conferência, o arcebispo de Los Angeles, José Gomez.

No mesmo dia em que a Suprema Corte dos EUA começou a ouvir argumentos para decidir o destino do programa Ação Diferida para Chegadas na Infância (Daca, na sigla em inglês), um bispo na reunião pediu ações urgentes para proteger o programa e encontrar um caminho permanente para a cidadania dos imigrantes sem documentos.

Mas os bispos não discutiram nem receberam nenhum relatório sobre o recém-concluído Sínodo dos Bispos para a Amazônia, a as mudanças climáticas também não receberam muita atenção. De fato, durante uma coletiva de imprensa, o presidente cessante da Conferência Episcopal, cardeal Daniel DiNardo, de Galveston-Houston, chamou as mudanças climáticas de “importantes”, mas não “urgentes”.

Questão central

No entanto, os “fogos de artifício”, se é que se pode falar assim sobre um encontro morno, envolveram a apresentação do grupo de trabalho dos bispos sobre o documento “Cidadania fiel”. Como os bispos já haviam decidido no ano passado não emitir um novo documento sobre responsabilidade política, a discussão e a votação deste ano envolveram apenas materiais suplementares: roteiros para cinco vídeos e uma carta para acompanhar o relançamento do antigo documento.

Os roteiros de vídeo, que foram aprovados com grande maioria, encorajam o engajamento político e a defesa do bem comum, usando listas de várias questões para abranger um amplo terreno.

Um vídeo começa com um jovem adulto dizendo: “Como católicos, testemunhamos a vida e a dignidade humana inata de todas as pessoas. Os nascituros, as vítimas da guerra e do racismo, as pessoas com deficiência, os migrantes e refugiados, as famílias afetadas pela pobreza, as pessoas no corredor da morte. Os idosos e as pessoas que estão chegando ao fim de suas vidas”.

Um roteiro inclui esta declaração: “Não estamos alinhados com nenhum partido, mas refletimos a luz da nossa fé para influenciar os partidos aos quais possamos pertencer”.

Mas foi precisamente uma preocupação de que a Igreja pareça alinhada com o Partido Republicano que levou ao debate sobre a linguagem sobre o aborto na carta para o relançamento do documento “Cidadania fiel”.

Depois de pedir a participação na vida pública e as contribuições para o bem comum, o terceiro parágrafo da carta descreve a exortação apostólica de Francisco sobe o chamado à santidade, Gaudete et exsultate:

O chamado à santidade, diz o texto, requer uma defesa “firme e apaixonada” dos “nascituros inocentes”. “Igualmente sagradas”, afirma-se, são “as vidas dos pobres, dos já nascidos, dos necessitados, dos abandonados e dos desprivilegiados, dos enfermos vulneráveis e dos idosos expostos à eutanásia secreta, das vítimas do tráfico humano, de novas formas de escravidão e de toda a forma de rejeição.”

Esse parágrafo revisado foi o resultado das preocupações levantadas pelo cardeal Blase Cupich, de Chicago, durante o processo de emenda e modificação. Ele havia solicitado que os bispos citassem mais extensivamente o documento papal, incluindo as palavras de Francisco sobre o perigo daqueles que “relativizam” o engajamento social, “como se interessasse apenas uma determinada ética ou uma causa que eles defendem”, mencionando especificamente a “defesa do inocente que não nasceu”.

Em seu pedido por escrito de uma citação mais longa, Cupich alertou sobre aqueles que trazem uma “mentalidade ideológica” para os debates, tanto “descartando algumas questões, rotulando-as como parte de um campo político objetável, quanto adotando uma abordagem reducionista na defesa de apenas uma questão”.

“Desde o início do seu pontificado, Francisco deixou claro que os nascituros devem ser defendidos, mas não excluindo outras questões da dignidade humana”, escreveu Cupich.

Cupich também pediu mudanças em uma seção do documento que ele acreditava dar “uma atenção singular ao aborto, fazendo isso em uma linguagem que é tendenciosa e notavelmente diferente do tratamento dado a outras questões nas linhas que se seguem, à medida que outras questões são levantadas”, escreveu.

Ele observou que, embora a carta mencionasse o ambiente, ela não continha sequer uma frase inteira sobre a crise climática. Sobre a questão da imigração, ele pediu “mais franqueza” sobre o assunto.

“Não estamos lidando simplesmente com uma ‘ausência de reforma abrangente da imigração’, mas sim com a presença de uma retórica demonizadora e de uma política violenta e abusiva, dirigida a um grupo de seres humanos que são denunciados como perigosos ou coisa pior pelas principais autoridades eleitas”, escreveu Cupich.

A comissão fez pequenos acréscimos e respostas às preocupações de Cupich, incluindo uma frase que mencionava “violência armada, xenofobia, pena de morte e outras questões que afetam a vida e a dignidade humanas”. No entanto, ela rejeitou o seu apelo ao parágrafo inteiro da citação papal, com a preocupação de manter a carta curta.

Debate sobre a linguagem referente ao aborto

Antes da votação da carta no dia 12 de novembro, Cupich pediu a palavra para solicitar novamente a citação papal mais longa, referindo-se a comentários do discurso do núncio papal na abertura da assembleia, em que ele encorajou os bispos dos EUA a “refletirem em oração” sobre a sua comunhão com o bispo de Roma.

Então, o bispo de San Diego, Robert McElroy, se opôs a uma mudança de última hora em uma seção da carta que havia excluído uma referência ao aborto, quando se afirmava que é “tão importante como nunca” chamá-lo agora de “nossa prioridade proeminente”.

Ao solicitar essa mudança, o arcebispo Alexander Sample, de Portland, Oregon, escreveu: “Estamos em um momento único, com o próximo ciclo eleitoral, para fazer um desafio real à sentença Roe v. Wade [decisão que reconheceu o direito ao aborto ou interrupção voluntária da gravidez nos EUA], dadas as possíveis mudanças na Suprema Corte. Não devemos diluir os nossos esforços para proteger os nascituros”.

A ele se juntaram outros três bispos, sugerindo a expressão “proeminente”: o arcebispo Joseph Naumann, de Kansas City, Kansas; o arcebispo Paul Coakley, de Oklahoma City; e dom James Conley, bispo de Lincoln, Nebraska.

Proeminente é definido como algo “que se eleva acima do que está em volta”.

“Que o aborto seja a questão proeminente que enfrentamos no mundo não é magistério católico. No magistério social católico, ele não é”, disse McElroy à plenária, acrescentando que a citação mais longa do Papa Francisco deixa isso claro.

“Demos ao menos uma chance para que o papa lute pelo seu ponto de vista”, disse ele.

Mas vários bispos avançaram rapidamente ao microfone para responder a McElroy. O bispo Joseph Strickland, de Tyler, Texas, que foi um dos primeiros bispos dos EUA a apoiar o ataque do arcebispo Carlo Viganò contra Francisco no ano passado, disse: “Eu absolutamente acho que a expressão ‘proeminente’ precisa permanecer”.

O arcebispo da Filadélfia, Charles Chaput, recebeu aplausos pelo seu comentário: “Tem sido muito clara a opinião articulada da Conferência dos Bispos há muitos anos de que a questão pró-vida ainda é a questão proeminente”.

No fim, os bispos aprovaram por 143 votos a 69, com quatro abstenções, a manutenção da palavra “proeminente” e o não acréscimo de uma citação mais longa de Francisco. A adoção da carta foi aprovada por 207 votos a 24, com cinco abstenções.

O bispo John Stowe, de Lexington, Kentucky, disse ao NCR que concordava com McElroy e expressou preocupação de que as reivindicações do aborto como algo exclusivamente importante “tenham sido exploradas há muitas eleições”.

“O objetivo principal do ensino do papa é que devemos ser consistentes em todos os aspectos”, disse ele. “Questões da vida são questões da vida.”

Em uma entrevista coletiva posterior, o cardeal Joseph Tobin, de Newark, New Jersey, disse que, se ele entendeu corretamente a intenção de McElroy de “alertar contra escolhas exclusivas ou-ou” e de evitar destacar o aborto “a ponto de que outras questões desaparecessem”, então “ele estava certo”.

O bispo Mark Seitz, de El Paso, Texas, alertou contra “colocar uma questão da vida contra outra”, embora reconhecendo que os indivíduos podem estar mais comprometidos com uma questão ou outra.

“Não se trata de um debate sobre se uma é mais importante do que a outra”, disse ele ao NCR, “mas simplesmente de dizer que todas essas questões merecem a nossa atenção.”

Seitz, que tem um longo histórico de envolvimento no movimento antiaborto, disse ser “natural” para ele voltar-se à tarefa de apoiar os migrantes e refugiados na fronteira, “que estão enfrentando o horror de serem indesejados por causa da sua origem” e “não têm para onde ir, com muito poucas opções na vida”, afirmou.

No mês passado, ele divulgou uma poderosa carta pastoral sobre o racismo depois de um tiroteio em massa na sua diocese que atingiu latinos. Na assembleia, ele disse que testemunhou um “alto nível de apoio” e um “novo nível de interesse e paixão” sobre questões de etnia e imigração entre seus coirmãos bispos.

“Certamente, você encontrará diferentes graus de foco – e talvez até de entendimento –, mas se trata de uma questão tão fundamentalmente cristã e do Evangelho que eu acho que os bispos da Igreja entendem isso”, disse Seitz à NCR.

No entanto, nem todos os católicos comuns estão igualmente convencidos, disse ele, acrescentando que muitos ficam com medo por causa da retórica anti-imigrante presente na cultura.

Stowe disse que gostaria de ver o apoio dos bispos aos imigrantes, assim como às questões ambientais, mais centrais na discussão deles e mais bem conectada a outras questões da vida. A imigração é “vista por muitos católicos como uma questão marginal ou de interesse especial, em vez de ser essencial para quem nós somos”, afirmou.

Os bispos também precisam ser “proféticos” na denúncia do racismo que se tornou mais visível durante o governo Trump, disse.

Os bispos são “irresponsáveis” por não escreverem um novo documento sobre as questões políticas de hoje, disse Stowe. “Depois do governo Trump e com o pontificado do Papa Francisco, não é útil simplesmente trazer esse velho documento ‘Cidadania fiel’, sendo mal citado ou seletivamente citado eleição após eleição.”

O arcebispo Paul Etienne, de Seattle, disse ao NCR que achava que o debate sobre o aborto “tirou o ar da sala” e provou ser uma distração.

“Foi um bom exemplo dessas visões polarizadoras que estão nos prejudicando”, disse.

Etienne lembrou a mensagem de Francisco aos bispos dos EUA em um retiro de janeiro, após a reunião do outono passado, na qual ele pedia unidade. “Ele disse: ‘Vocês precisam se unir’”, disse Etienne. “E nós ainda não estamos unidos.”

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