Sinodalidade não é apenas uma opção: é o único modo de ser Igreja. Artigo de Daniel Horan

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14 Novembro 2019

“A sinodalidade não é meramente uma opção a ser recuperada, mas, de fato, é o único modo autêntico de ser Igreja.”

A opinião é do frei franciscano estadunidense Daniel P. Horan, professor assistente de Teologia Sistemática e Espiritualidade no Catholic Theological Union, em Chicago, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 13-11-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Na semana passada, o bispo de San Diego, Robert McElroy, proferiu a Conferência MacTaggert 2019 na St. Mary’s University, em San Antonio. Fiel à sua típica articulação erudita, porém acessível, entre o ensino da Igreja e o reconhecimento dos prementes sinais dos nossos tempos, McElroy defendeu uma adoção mais ampla daquilo que chamou de “o tipo de caminho sinodal que a Igreja na Amazônia tem percorrido”.

Com base em sua própria experiência como participante do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica no mês passado e tendo supervisionado um processo sinodal local na Diocese de San Diego, McElroy identificou quatro características eclesiais que resultam de uma existência mais sinodal: uma Igreja missionária, uma Igreja participativa, uma Igreja acolhedora e uma Igreja harmoniosa. Além da sua própria experiência e fundamentação teológica, McElroy situou suas considerações dentro de uma profunda espiritualidade moldada pelo Evangelho, uma observação feita também nesta semana pelo meu colega Michael Sean Winters, do NCR.

De muitas maneiras, McElroy continua a tradição de outro bispo da Califórnia, o falecido arcebispo John R. Quinn, de San Francisco. De fato, McElroy foi ordenado por Quinn e atuou, primeiro, como seu secretário episcopal e, depois, como seu vigário geral. Quinn também solicitou que McElroy fizesse a pregação na vigília para o seu funeral em 2017, portanto, não deveria surpreender que exista tal continuidade em pensamento e ministério.

Quinn é lembrado como um pastor extraordinário e como um teólogo talentoso, com profundo apreço pelo magistério do Concílio Vaticano II sobre o sentido da Igreja, conforme expressado na Lumen gentium. Pode surpreender algumas pessoas que alguém como Quinn, ordenado ao sacerdócio quase uma década antes da abertura do Concílio, tivesse uma compreensão tão profunda e aparentemente intuitiva da Igreja como povo de Deus, fundamentalmente, e da necessidade de uma consulta mais ampla dos leigos pela liderança da Igreja.

Como o editor executivo do NCR, Tom Roberts, resumiu após a morte de Quinn, “nos discursos e nos escritos, Quinn pedia a descentralização do governo da Igreja, dando muito mais influência às comunidades locais na escolha dos bispos e diminuindo o papel da Cúria vaticana”.

Além disso, a sua pesquisa refletia uma eclesiologia que enfatizava o primado dos batizados e o papel dinâmico da ação do Espírito Santo na Igreja através da sinodalidade.

É o caso da sua última publicação, o pequeno livro de 2013 intitulado “Ever Ancient, Ever New: Structures of Communion in the Church” [Sempre antiga, sempre nova: estruturas de comunhão na Igreja], no qual ele escreve: “Uma das primeiras estruturas de comunhão foram os sínodos”. Longe do moderno afastamento da governança unilateral ou da autoridade de ensino, os sínodos, como estruturas de comunhão, antecedem o deslocamento constantiniano para dentro do cristianismo durante o século IV e “eram um testemunho de uma convicção profunda e duradoura de que a Igreja é una, católica e apostólica”.

Como McElroy reconheceu com razão em sua palestra, “esse caminho sinodal não é estranho para a Igreja dos Estados Unidos, nem está além das nossas capacidades. No ano passado, a Igreja dos Estados Unidos concluiu um significativo processo dialógico em seu quinto Encuentro (...) O processo do Encuentro buscou o diálogo, a reflexão e a ação no nível da paróquia, da diocese, da região e da nação como um todo”. Os católicos hispânicos e latinos já estão modelando um modo mais amplo, consultivo e dinâmico de ser Igreja.

A teóloga Natalia Imperatori-Lee, em seu recente e excelente livro “Cuéntame: Narrative in the Ecclesial Present” [Cuéntame: narrativa no presente eclesial], observa: “As reuniões do Encuentro são teologicamente significativas porque põem em prática o processo participativo e colaborativo de governança da Igreja endossado pelo Vaticano II, emulado pelo Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam) em Medellín e ecoado por teólogos sistemáticos contemporâneos”.

Com muita frequência, as experiências dos católicos hispânicos e latinos são vistas no contexto dos Estados Unidos como “novas”, “estrangeiras” ou “emergentes” e, portanto, subjugadas, minimizadas ou descartadas (isso apesar do fato de o catolicismo hispânico, com suas múltiplas iterações culturais, estar presente naquele que hoje é o país Estados Unidos desde tempos pré-coloniais). Assim como com o surgimento de rejeições ao Sínodo para a Amazônia recentemente concluído, a ignorância ou a rejeição do processo do Encuentro por parte de muitos católicos brancos e anglo-americanos é uma forma de racismo. E, ironicamente, é também uma rejeição de como a Igreja é em seu melhor estilo.

Um senso mais amplo de sinodalidade para além do corpo consultivo de bispos em Roma tem a ver com o reconhecimento apropriado do lugar de todos os fiéis batizados no discernimento prudencial sobre a tomada de decisão e governança da Igreja. Não é um chamado a acabar com a liderança hierárquica. Não, a Igreja não é uma democracia. Mas também não é uma monarquia na qual bispos locais, Conferências Episcopais ou mesmo o papa governam por decreto. A Igreja é uma “comunhão hierárquica”, como a Lumen gentium explica, mas cujos ministros surgem a partir do serviço a todos os batizados e estão orientados a ele. O substantivo operativo é “comunhão”, que se refere a um profundo vínculo de relação enraizado na igualdade batismal, e esse sentido muitas vezes se perde quando as lideranças da Igreja e os leigos sucumbem àquelas que McElroy chama de “mentalidade de bunker” e “cultura da manutenção”.

O papa Francisco rotineiramente sinaliza a necessidade de uma maior inclusão e abertura na Igreja. Essa visão eclesial e evangelizadora resume-se melhor no contínuo convite do papa a que todos os cristãos abracem o chamado a serem “discípulos-missionários”. A responsabilidade pela acolhida, inclusão e evangelização é compartilhada por todos, independentemente de sua posição na Igreja. É uma mensagem empoderadora, mas que também traz consigo corresponsabilidade e exige participação ativa dos leigos, como explicou McElroy.

Por um lado, eu concordo plenamente com McElroy e Quinn antes dele – de que uma recuperação mais completa das antigas estruturas sinodais, que foram renovadas em parte sob a liderança de Francisco, é um caminho a seguir no meio daquilo que McElroy chama de “este momento de turbulência e inércia da nossa Igreja”.

No entanto, por outro lado, eu desejo fazer uma afirmação mais forte. Eu sugeriria que a sinodalidade não é meramente uma opção a ser recuperada, mas, de fato, é o único modo autêntico de ser Igreja. E a Igreja mais ampla nos Estados Unidos faria bem em aprender com a sabedoria e o exemplo dos católicos hispânicos e latinos, que ofereceram pelo menos um modelo vivo da antiga tradição cristã da sinodalidade.

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